
Sala de operações do governo digital no Palácio do Buriti.
Celina decreta governo digital obrigatório: DF vira laboratório do que Brasília ensina ao Brasil
O decreto que Celina Leão assinou na manhã desta segunda-feira é curto, tem oito artigos e cabe em duas páginas. Mas pode reescrever a relação entre o cidadão e o Estado em Brasília.
O decreto que Celina Leão assinou na manhã desta segunda-feira é curto, tem oito artigos e cabe em duas páginas. Mas pode reescrever a relação entre o cidadão e o Estado em Brasília.
A norma obriga todos os órgãos do Governo do Distrito Federal a oferecerem seus serviços em formato digital até 31 de dezembro. Sem exceção.
Sem bilhete impresso. Sem fila no balcão como única alternativa.
A governadora chamou a medida de "salto que Brasília precisava dar há dez anos". A leitura é dura, mas defensável.
O Distrito Federal tinha 312 serviços ainda presenciais em janeiro, segundo levantamento da Secretaria de Planejamento. A meta agora é zerar essa lista em oito meses.
O que muda na prática
A regra atinge todas as secretarias, autarquias e fundações. Cada órgão tem 30 dias para apresentar um plano de digitalização.
Quem não apresentar perde verba de custeio em 2027. A sanção é o que faltava nos planos anteriores.
O cardápio inclui licenciamento de atividade econômica, agendamento médico, segunda via de documentos, alvarás de construção, certidões da Receita distrital e protocolos de processos administrativos. Tudo deve passar pelo aplicativo GDF Digital, que será relançado em maio com novo desenho.
| Serviço | Situação atual | Meta dezembro 2026 | |---|---|---| | Licenciamento empresarial | 14 dias úteis | 48 horas, 100% online | | Agendamento de consulta SUS-DF | Telefone e presencial | Aplicativo único | | Alvará de construção | 90 dias em média | 30 dias, fluxo digital | | Segunda via de IPTU | Site lento, sem login único | Login gov.br integrado | | Protocolo de processo | Presencial em 60% dos órgãos | Digital obrigatório |
A integração com o login gov.br é a peça discreta que sustenta o resto. Sem ela, cada órgão precisaria reinventar autenticação.
Com ela, o cidadão entra uma vez e acessa tudo.
Por que o Distrito Federal pode liderar
Brasília tem três vantagens que outras unidades da federação não têm. A primeira é renda.
A região tem o maior Produto Interno Bruto per capita do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o que significa mais aparelhos conectados por habitante. A segunda é cobertura de internet.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostra que 94% dos lares do Distrito Federal têm acesso à banda larga, contra média nacional de 84%. A terceira é escala administrativa pequena.
Um governador que decide algo em Brasília consegue executar mais rápido do que um governador de São Paulo, que precisa coordenar 645 municípios.
Celina aproveitou essas três vantagens. Não precisou inventar nada. Bastou empurrar.
A escolha do prazo também não é casual. Dezembro de 2026 fecha o primeiro ano de gestão e dá material concreto para o balanço.
Quem digitalizar entrega resultado mensurável. Quem não digitalizar terá que explicar por escrito.
O contraste com a lentidão federal
Enquanto isso, o governo federal patina. O programa Gov.br soma 156 milhões de contas, mas o ritmo de novos serviços despencou.
Em 2025, foram digitalizados 211 serviços federais, segundo dados do Painel de Monitoramento do Governo Digital. Em 2024, foram 387.
O recuo é silencioso, mas existe.
A explicação técnica é a fragmentação. Ministérios brigam por sistemas próprios, cada um quer seu CPF interno, sua base de dados, seu fornecedor.
O resultado é o cidadão que precisa logar três vezes para fazer uma única coisa. O Distrito Federal vai pelo caminho oposto: um login, um aplicativo, um padrão visual.
A diferença ficou óbvia na semana passada, quando o Ministério da Gestão anunciou que a próxima fase do Gov.br só sai em 2027. Brasília vai chegar lá um ano antes, com um décimo do orçamento federal e sem briga interna.
A operação por trás do decreto
A engenharia do plano envolve a Secretaria de Economia, a Companhia de Planejamento do Distrito Federal e o time de tecnologia da Casa Civil. São cerca de 180 servidores diretamente alocados.
O orçamento estimado é de R$ 84 milhões, recursos que já estavam previstos no plano plurianual e foram reordenados.
O contrato principal será com a Empresa de Tecnologia da Informação do Distrito Federal. A empresa pública vai operar a infraestrutura, a integração de bases e a manutenção.
A escolha tem mérito político: terceirizar para Big Tech multinacional seria queima de munição. Manter dentro de casa, com servidores efetivos, blinda o plano de troca de governo no futuro.
A área de segurança da informação ganhou três novas coordenações. Ataques a sistemas públicos cresceram 71% no Brasil em 2025, segundo o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil.
Brasília não pode digitalizar tudo e ficar exposta. O decreto prevê auditoria externa anual e relatório público.
A vitrine que Brasília quer ser
A aposta política da governadora é clara: transformar o Distrito Federal em vitrine. Se der certo, outras unidades da federação vão querer copiar.
Se der errado, será a oportunidade de aprender com erro pequeno antes de espalhar para o resto do país.
Celina sabe disso. No discurso de assinatura, ela resumiu em uma frase: "Brasília não é um estado qualquer.
Brasília é onde o Brasil aprende a se governar." A frase é grandiosa, mas tem fundamento histórico. Foi no Distrito Federal que o pregão eletrônico nasceu.
Foi aqui que o sistema único de saúde teve suas primeiras integrações digitais. Foi aqui que o tribunal de justiça foi o primeiro do país a ter processo eletrônico em todas as varas.
A digitalização total dos serviços é o próximo capítulo dessa tradição. E pela primeira vez em muito tempo, o calendário tem nome, data e sanção.
Quem não cumprir, paga. Quem cumprir, entrega.
O cidadão de Brasília não precisa entender LangGraph, APIs ou login federado. Precisa entender que daqui a oito meses não vai mais perder a manhã na fila do Detran.
Esse é o teste que Celina escolheu para si mesma. E que o resto do Brasil vai assistir.
Reportagem produzida pelo pipeline editorial do Mirante News com supervisão humana. Dados do GDF, IBGE, PNAD, CERT.br e Painel Gov.br consultados em 6 de abril de 2026.
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