
Pátio do Centro de Ensino Fundamental 01 do Itapoã, uma das 87 escolas em jornada integral do DF.
De 23 para 87: escolas de tempo integral triplicaram no DF em dois anos
A Secretaria de Educação do Distrito Federal entregou em março de 2026 a 87ª escola de tempo integral da rede pública. Há dois anos, eram apenas 23. O salto é de 278% e coloca o DF entre as três unidades da federação que mais avançaram na meta do Plano Nacional de Educação para o segmento.
Eu passei a vida discutindo isso e me cansei de ouvir gente inteligente repetir que o problema da escola pública é o professor. Não é.
O problema da escola pública brasileira sempre foi o relógio. Quatro horas por dia não educam ninguém.
Quatro horas por dia mal alfabetizam, mal alimentam e nem começam a formar caráter. A escola que funciona, em qualquer lugar do mundo, é a escola que tem tempo.
O Distrito Federal entendeu isso. Em dois anos, a Secretaria de Educação saltou de 23 para 87 escolas em tempo integral — jornada mínima de 7 horas, na maioria delas 9 horas.
O dado está no relatório de março de 2026 da SEEDF e representa crescimento de 278%. É o terceiro maior salto proporcional do país no período, atrás apenas do Ceará e do Espírito Santo, segundo o monitoramento do Todos pela Educação.
A criança na escola, os pais no trabalho, o país funcionando
Quem cresceu em casa onde o pai e a mãe trabalhavam fora sabe o que é a tarde vazia. A criança da periferia que sai da escola ao meio-dia e fica até as seis da tarde sozinha, ou pior, na rua, é a estatística que vira manchete cinco anos depois.
Cada hora a mais dentro da escola é uma hora a menos exposta. Não é metáfora.
É demografia.
A pesquisa PDAD 2024 da Codeplan mostrou que 73% das mães de crianças entre 6 e 14 anos no DF trabalham fora de casa. Para essas famílias, a escola de tempo integral não é luxo pedagógico.
É infraestrutura social básica. É o que permite a mãe aceitar o segundo turno, é o que permite o pai pegar o ônibus para o canteiro de obras sem culpa, é o que permite a família comer no fim do mês.
E tem comida. As 87 escolas em jornada ampliada servem três refeições diárias — café da manhã, almoço e lanche da tarde.
São 142 mil refeições por dia. Para 38% dos alunos atendidos, segundo a própria SEEDF, a refeição da escola é a principal do dia.
O que o IDEB começou a mostrar
O índice de desenvolvimento da educação básica das escolas em tempo integral do DF na edição de 2025 ficou em 6,3 nos anos finais do ensino fundamental, contra média de 4,9 da rede comum do próprio DF e 4,8 da média nacional. A diferença de 1,4 ponto não é estatística — é a distância entre alfabetização funcional e alfabetização real, é a distância entre saber decodificar e saber pensar.
| Indicador | DF tempo integral | DF rede comum | Brasil | |---|---|---|---| | IDEB anos finais (2025) | 6,3 | 4,9 | 4,8 | | Abandono escolar | 1,2% | 4,7% | 6,1% | | Reprovação | 3,8% | 9,4% | 10,2% | | Refeições/dia | 3 | 1 | 1 | | Horas de aula/dia | 9 | 4,5 | 4,5 |
Fonte: INEP, SEEDF, Censo Escolar 2025
A taxa de abandono nas escolas de tempo integral do DF é de 1,2%, contra 4,7% na rede comum. A reprovação cai de 9,4% para 3,8%.
Não é mágica. É tempo.
É a oficina de matemática à tarde, é o reforço de leitura no contraturno, é o professor que está lá quando a dúvida aparece em vez de dar para casa um exercício que ninguém em casa sabe corrigir.
A meta de 2027 e o que falta para chegar lá
A governadora Celina Leão anunciou em fevereiro a meta de colocar 50% da rede pública do DF em jornada integral até dezembro de 2027. Hoje são 87 escolas de um total de 692, ou 12,6%.
Para chegar aos 50%, são 259 unidades a mais — 130 por ano nos próximos dois anos.
O cronograma é audacioso e tem três frentes: construção de 22 novas escolas-modelo de tempo integral, ampliação de 178 escolas existentes (cozinhas, refeitórios, quadras cobertas) e contratação de 4,2 mil professores adicionais. O orçamento para 2026-2027 é de R$ 1,18 bilhão, sendo R$ 740 milhões do tesouro do DF e R$ 440 milhões do programa federal Escola em Tempo Integral.
O Plano Nacional de Educação, lei de 2014, fixou a meta de 50% das escolas e 25% das matrículas em tempo integral até 2024. O Brasil chegou a 2024 com 19% das escolas e 12% das matrículas.
Falhou. Quase todos os estados falharam.
O DF, que estava em 4% em 2022, vai chegar em 50% em 2027 se mantiver o ritmo.
A pedagogia que o tempo permite
Tempo integral não é meio período repetido duas vezes. Tempo integral é outra escola.
É a escola que tem oficina de robótica, hora do conto, educação física com piscina (sim, piscina, em 14 das 87 unidades), aula de música com instrumento real, horta escolar, projeto de leitura literária semanal e atendimento psicopedagógico individualizado.
Em quatro horas por dia, dá para ensinar a ler, mal. Em nove horas por dia, dá para ensinar a ler, escrever, contar, pensar, jogar bola, plantar alface, tocar violão e olhar nos olhos do colega.
Dá para educar.
O Brasil inteiro precisa entender o que o Distrito Federal está fazendo. Não porque o DF é especial.
Porque o DF está fazendo o que qualquer estado pode fazer se tiver vontade política, gestão competente e a coragem de tratar educação como prioridade orçamentária e não como discurso de campanha.
A criança brasiliense que entra hoje numa escola de tempo integral vai sair, daqui a nove anos, sabendo coisas que a geração dos pais dela não soube. Esse é o único indicador que importa.
Darcy Ribeiro foi antropólogo, escritor e ministro da Educação. Defendeu por toda a vida a escola pública integral como pilar civilizatório. Esta coluna é um exercício de imaginação editorial — uma carta do autor à educação brasileira de 2026.
Score Hipnótico-Editorial
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Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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