
Alunos do Centro de Ensino Fundamental 1 de Planaltina durante atividade de robótica no contraturno — a escola aderiu ao tempo integral em 2025
De 23 para 87: escolas de tempo integral triplicaram no DF em dois anos — a revolução silenciosa
A rede pública do DF triplicou o número de escolas de tempo integral em dois anos — de 23 para 87 unidades. O índice de desenvolvimento da educação básica subiu nas escolas convertidas e a evasão caiu 22%.
De 23 para 87: escolas de tempo integral triplicaram no DF em dois anos — a revolução silenciosa
Uma escola de tempo integral não é uma escola que prende criança até mais tarde. É uma escola que assume uma responsabilidade que o Brasil sempre terceirizou: a formação completa de um ser humano durante as horas em que ele está mais receptivo ao mundo.
A diferença entre sete e quatro horas de escola não é aritmética. É civilizacional. Uma criança que fica sete horas numa escola bem estruturada almoça, estuda, brinca, pratica esporte, aprende uma segunda língua, desenvolve raciocínio lógico, convive com diferença. Uma criança que sai às 11h30 vai para onde? Para a casa onde ninguém está, para a rua onde tudo está, para a tela que absorve sem devolver.
O Distrito Federal decidiu enfrentar essa equação. E os números mostram que a decisão está gerando resultado.
A expansão em números
Em janeiro de 2024, o DF contava com 23 escolas de tempo integral na rede pública. Em março de 2026, são 87. A expansão seguiu três eixos: conversão de unidades existentes, ampliação de infraestrutura e adesão ao Programa Escola em Tempo Integral do Governo Federal (Lei nº 14.640/2023).
| Ano | Escolas de tempo integral | Alunos atendidos | % da rede | |-----|--------------------------|-------------------|-----------| | 2023 | 18 | 14.200 | 3,1% | | 2024 | 23 | 19.500 | 4,2% | | 2025 | 58 | 51.800 | 11,0% | | 2026 (mar.) | 87 | 78.400 | 16,5% | | 2027 (meta) | 240 | 215.000 | 50,0% |
Os dados são da Secretaria de Educação do DF (SEEDF). O salto de 23 para 58 em 2025 coincidiu com o repasse federal de R$ 148 milhões via programa do Ministério da Educação (MEC). O DF foi o segundo ente federativo que mais converteu escolas no ciclo, atrás apenas de São Paulo em números absolutos, mas à frente em proporção da rede.
A meta declarada pela SEEDF é alcançar 50% da rede em tempo integral até 2027. São 240 escolas, atendendo 215 mil alunos. Se cumprida, será a maior proporção entre as capitais e o Distrito Federal.
O impacto no IDEB
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) é a métrica que o Brasil usa para medir qualidade. Combina proficiência em português e matemática (Saeb) com taxa de aprovação. Não é perfeito, mas é o que temos — e é comparável.
As 23 escolas que já operavam em tempo integral antes de 2024 apresentaram, no IDEB 2025, uma média de 5,8 nos anos iniciais e 4,9 nos anos finais do ensino fundamental. A média geral da rede do DF foi de 5,4 e 4,5, respectivamente.
A diferença: 0,4 ponto nos anos iniciais e 0,4 nos anos finais. Em IDEB, 0,4 ponto é uma geração de diferença.
| Segmento | IDEB escolas integrais | IDEB rede geral DF | Diferença | |----------|----------------------|--------------------|-----------| | Anos iniciais (1º ao 5º) | 5,8 | 5,4 | +0,4 | | Anos finais (6º ao 9º) | 4,9 | 4,5 | +0,4 |
As escolas convertidas no exercício anterior ainda não têm IDEB consolidado — o ciclo avaliativo do INEP exige dois anos. Mas indicadores intermediários da SEEDF mostram tendência positiva: a proficiência em matemática no 5º ano subiu 12 pontos na escala Saeb nas unidades convertidas, comparando diagnóstico inicial (março 2025) com avaliação de saída (novembro 2025).
Não é mágica. É tempo. Mais tempo na escola significa mais exposição a conteúdo, mais prática, mais correção de rota. Significa que o aluno que não entendeu fração de manhã tem a tarde para retomar com outro professor, com outra abordagem, com outro ritmo.
Evasão: a queda silenciosa
O dado menos celebrado é o mais importante. A taxa de evasão escolar nas unidades de tempo integral caiu 22% em relação à média da rede.
no exercício anterior, a taxa de abandono na rede pública do DF foi de 3,8% nos anos finais do ensino fundamental. Nas escolas de tempo integral, foi de 2,9%.
O mecanismo é simples: criança que está na escola não está na rua. Adolescente que almoça na escola não precisa escolher entre estudar e comer. Mãe que sabe que o filho está seguro até as 16h pode trabalhar sem o nó no estômago de quem deixa criança sozinha.
A escola de tempo integral é, antes de qualquer coisa, uma política de proteção social. Cada criança mantida na escola é uma criança fora da estatística de trabalho infantil, de exploração, de aliciamento, de acidente doméstico.
Darcy Ribeiro — o original, não este que escreve — sabia disso quando projetou os CIEPs no Rio de Janeiro nos anos 1980. A ideia era a mesma: escola como espaço total. O erro dos CIEPs foi político: a descontinuidade. Governos seguintes abandonaram os prédios, desmontaram as equipes, deixaram o concreto virar casca vazia.
O DF tem a chance de não repetir o erro. Mas precisa de continuidade. Precisa que a próxima gestão, e a seguinte, e a seguinte, mantenham o investimento.
O que acontece no contraturno
A diferença entre uma escola de tempo integral boa e uma escola de tempo integral ruim está no contraturno. Se a criança fica até as 16h fazendo mais do mesmo — sentada, copiando, ouvindo — o tempo extra vira punição.
A SEEDF estruturou o contraturno em quatro eixos:
Reforço acadêmico personalizado. Grupos de no máximo 15 alunos, organizados por nível de proficiência, não por série. O aluno do 7º ano que lê no nível do 4º recebe intervenção específica. Isso exige diagnóstico individual e professor dedicado — e é o eixo mais caro da operação.
Atividades esportivas e culturais. Cada escola de tempo integral deve oferecer pelo menos três modalidades esportivas e duas atividades culturais. Na prática, varia: escolas com quadra coberta oferecem futsal, vôlei e basquete; escolas sem quadra improvisam com capoeira, dança e caminhada. A desigualdade de infraestrutura entre regiões administrativas se reproduz aqui.
Letramento digital e robótica. O programa inclui kits de robótica educacional e laboratórios de informática. Das 87 escolas, 52 já receberam os kits completos. As demais aguardam entrega prevista para o segundo semestre de 2026.
Educação socioemocional. Rodas de conversa, mediação de conflitos, projetos de vida. É o eixo mais difícil de medir e o mais fácil de cortar quando falta verba. Mas é o que mantém o adolescente na escola quando todo o resto do mundo está puxando para fora.
O custo e a conta
Escola de tempo integral custa mais. O repasse do FUNDEB por aluno em tempo integral é 30% maior que o de tempo parcial (fator de ponderação 1,30). O Programa Federal complementa com R$ 1.500 por aluno/ano nos dois primeiros anos de conversão.
O custo médio por aluno em tempo integral no DF é de R$ 12.800/ano, contra R$ 8.200/ano em tempo parcial. A diferença de R$ 4.600 cobre alimentação (duas refeições adicionais), professores do contraturno, material pedagógico e manutenção da infraestrutura ampliada.
Para 78.400 alunos, o custo adicional anual é de aproximadamente R$ 360 milhões. Se a meta de 215 mil alunos for atingida em 2027, o custo adicional sobe para R$ 990 milhões por ano.
É dinheiro. Muito dinheiro. Mas a pergunta correta não é "quanto custa a escola de tempo integral". É "quanto custa não ter".
O custo de um adolescente no sistema socioeducativo do DF: R$ 14.800 por mês, segundo dados da Secretaria de Justiça. São R$ 177.600 por ano. Para cada adolescente que a escola integral mantém fora do sistema socioeducativo, o Estado economiza o equivalente a manter 14 alunos na escola o dia inteiro.
A conta fecha. Sempre fechou. O problema nunca foi aritmético. Foi de prioridade.
O DF e o Plano Nacional de Educação
O PNE (Lei nº 13.005/2014) estabeleceu a meta de oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas e 25% das matrículas da educação básica até 2024. O Brasil não cumpriu: chegou a 2024 com 18,4% das escolas e 15,1% das matrículas em tempo integral, segundo o INEP.
O DF, com 16,5% das escolas em março de 2026, está acima da média nacional. Se atingir os 50% em 2027, será o primeiro ente federativo a cumprir a meta do PNE — com três anos de atraso, mas cumprirá. A maioria dos estados sequer se aproximou.
Goiás, vizinho do DF, tem 9% da rede em tempo integral. Minas Gerais, 12%. Bahia, 7%. O Ceará, referência em educação pública no Nordeste, alcançou 23% — o mais próximo da meta, mas ainda distante.
O DF tem vantagem estrutural: é uma unidade federativa pequena, urbana, com renda per capita alta e capacidade administrativa concentrada. Escalar de 87 para 240 escolas é um desafio logístico, não geográfico. Não há município a 500 km da capital para gerenciar. O secretário de Educação conhece o nome do diretor de cada escola. Isso faz diferença.
O que falta para não virar CIEP
A expansão está acontecendo. Os números são sólidos. O risco é conhecido e tem nome: descontinuidade.
Três condições precisam ser garantidas para que a escola de tempo integral do DF não vire ruína:
Concurso público para professores do contraturno. Hoje, 62% dos professores que atuam no contraturno têm contrato temporário. Rotatividade de temporários destrói vínculo pedagógico. A SEEDF precisa abrir concurso específico para regime integral.
Reforma da infraestrutura. Das 87 escolas, 31 foram adaptadas — não construídas — para o tempo integral. Refeitórios improvisados, salas de descanso que são depósitos reconvertidos, banheiros insuficientes para o dobro de permanência. Adaptação funciona no curto prazo. No médio prazo, degrada.
Avaliação contínua e transparente. Publicar dados de proficiência, evasão e frequência por escola, semestralmente, em portal aberto. O que não é medido não é gerido. O que não é público não é cobrado.
A educação brasileira coleciona projetos abandonados. O DF tem, agora, um projeto que funciona. A responsabilidade de não abandoná-lo é da gestão atual e das próximas.
Triplicar a rede de escolas integrais em dois anos não é propaganda. É infraestrutura educacional. É a decisão de que a criança de Planaltina tem direito ao mesmo tempo de formação que a criança do Lago Sul.
O resto é escolha política. E essa, até agora, foi feita.
Darcy Ribeiro é colunista do Mirante News e antropólogo especializado em educação pública brasileira. Suas análises cruzam dados institucionais com a perspectiva de quem acredita que a escola é o último território universal.
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