
Alunos de escola pública do DF durante prova do ENEM 2025 — o gap de 147 pontos para a rede privada é o maior do Centro-Oeste
ENEM 2025: escolas públicas do DF ficam 147 pontos atrás das particulares — maior gap do Centro-Oeste
O Distrito Federal investe R$12.400 por aluno/ano na rede pública — o dobro da média nacional. O retorno em aprendizagem não reflete o investimento.
Lucas Pereira tem 17 anos. Mora na Estrutural — a cidade que cresceu sobre o lixão de Brasília, onde o cheiro de gás metano ainda sobe do solo em dias quentes e as ruas de terra viram lama na chuva de janeiro. Ele estuda no Centro de Ensino Médio 1, sala de 38 alunos, dois ventiladores quebrados, um professor de matemática que se divide entre três turmas porque o titular pediu licença e não voltou. Lucas quer medicina na UnB. A nota de corte do ano passado foi 782.
A média da escola de Lucas no ENEM 2025 foi 431,2.
Do outro lado do Eixo Monumental — 22 quilômetros em linha reta, uma hora e meia de ônibus, uma vida inteira de distância —, alunos do Colégio Galois no Lago Sul fecharam o exame com média de 671. Laboratório de bioquímica, simulados semanais cronometrados, professor com doutorado que atende por WhatsApp às dez da noite. A nota de corte de medicina está ao alcance. Para Lucas, é miragem num deserto que começa na porta da escola.
O Distrito Federal gastou R$ 12.400 por aluno no último exercício na rede pública. Lidera o ranking nacional de investimento por estudante. E entrega um abismo de 147 pontos entre escolas públicas e privadas no ENEM — o maior de todo o Centro-Oeste.
O dinheiro entra. O resultado não sai. O abismo cresce.
Os números que medem o fosso
Os resultados do último Exame Nacional do Ensino Médio, divulgados pelo INEP em fevereiro de 2026, confirmaram o que especialistas temiam. A média geral das escolas públicas ficou em 487,3 pontos. As particulares, 634,1. A diferença — 146,8, arredondada para 147 — equivale a quase uma prova inteira de vantagem para quem pode pagar mensalidade.
| Rede | Média geral | Redação | Matemática | Linguagens | |------|-------------|---------|------------|------------| | Pública DF | 487,3 | 542,6 | 461,8 | 498,4 | | Privada DF | 634,1 | 688,2 | 619,7 | 631,5 | | Gap | 146,8 | 145,6 | 157,9 | 133,1 |
Matemática concentra o maior fosso: 157,9 pontos. Um aluno de escola pública do DF sai do ensino médio resolvendo equações de primeiro grau. Seu colega de escola particular domina cálculo diferencial. A mesma cidade. Dois hemisférios. O som do giz na lousa é o mesmo — o que muda é o que está escrito nela.
O mapa da desigualdade por RA
Nem todas as Regiões Administrativas sofrem igualmente. O Plano Piloto, onde se concentram as melhores escolas públicas e a elite do funcionalismo, puxa a média para cima. As periferias — Estrutural, Recanto das Emas, Samambaia — afundam.
| Região Administrativa | Média pública | Média privada | Gap | |----------------------|---------------|---------------|-----| | Plano Piloto (Asa Sul/Norte) | 541,2 | 662,8 | 121,6 | | Lago Sul / Lago Norte | 528,7 | 671,3 | 142,6 | | Taguatinga | 503,4 | 618,9 | 115,5 | | Ceilândia | 472,1 | 589,3 | 117,2 | | Samambaia | 458,6 | 571,4 | 112,8 | | Recanto das Emas | 443,9 | — | — | | Estrutural | 431,2 | — | — | | São Sebastião | 447,8 | 568,1 | 120,3 |
A Estrutural e o Recanto das Emas sequer possuem escolas particulares de ensino médio relevantes para comparação. Os alunos dessas regiões competem por vagas na UnB contra jovens do Lago Sul que tiveram aulas com professores de doutorado, laboratórios equipados e simulados semanais. Considere o que isso significa na prática: Lucas disputa a mesma prova com as mesmas regras — mas entrou no jogo com 147 pontos a menos antes de preencher a primeira bolha.
Cinco anos de evolução — para trás
O argumento clássico dos gestores é "estamos melhorando". Os dados contam outra história — fria, documentada, implacável.
| Ano | Média pública DF | Média privada DF | Gap | |-----|-----------------|-----------------|-----| | 2020 | 479,1 | 614,8 | 135,7 | | 2021 | 481,3 | 618,2 | 136,9 | | 2022 | 484,7 | 624,5 | 139,8 | | 2023 | 485,2 | 628,1 | 142,9 | | 2024 | 486,1 | 631,4 | 145,3 | | 2025 | 487,3 | 634,1 | 146,8 |
Em cinco anos, a escola pública melhorou 8,2 pontos. A particular avançou 19,3. O gap aumentou 11,1 pontos. A rede pública não está parada — está ficando para trás em ritmo acelerado. Enquanto as escolas privadas incorporaram plataformas adaptativas, inteligência artificial para reforço individualizado e metodologias ativas, a rede pública seguiu discutindo se professor pode usar celular em sala de aula. Duas velocidades. Uma equação impossível.
O paradoxo do maior orçamento do país
Aqui está o dado que desmonta o argumento de "falta verba".
| Estado/DF | Gasto por aluno/ano (2025) | Média pública ENEM | IDEB EM | |-----------|---------------------------|--------------------|---------| | Distrito Federal | R$ 12.400 | 487,3 | 4,1 | | São Paulo | R$ 7.200 | 502,8 | 4,4 | | Ceará | R$ 4.100 | 498,6 | 4,8 | | Goiás | R$ 5.800 | 491,2 | 4,3 | | Paraná | R$ 6.500 | 509,4 | 4,6 | | Espírito Santo | R$ 5.400 | 505,1 | 4,5 |
O Ceará investe um terço do que Brasília aplica por aluno e obtém resultados superiores no ENEM e no IDEB. O Paraná gasta metade e aparece 22 pontos à frente. O Espírito Santo, com menos da metade do orçamento per capita, supera em ambos os indicadores.
O problema não é dinheiro. O DF tem dinheiro de sobra. O problema tem nome: ineficiência de gestão, corporativismo sindical e ausência de meritocracia. Três raízes entrelaçadas que nenhum orçamento, por maior que seja, consegue arrancar sem vontade política.
O sindicato que bloqueia, a burocracia que engole
O Sindicato dos Professores do DF se opôs sistematicamente a três reformas nos últimos cinco anos: bonificação por desempenho, avaliação externa de docentes e flexibilização curricular. As três medidas foram implementadas com sucesso no Ceará, no Espírito Santo e em Goiás — estados que, com menos recursos, entregam mais resultado.
Em 2024, o SINPRO-DF organizou 14 dias de paralisação. Em 2023, foram 11. A pauta principal raramente envolve qualidade de ensino — gira em torno de reajuste salarial, redução de carga horária e resistência a qualquer forma de avaliação docente.
O professor da rede pública do DF recebe, em média, R$ 11.800 mensais — o maior salário docente do país. No Ceará, onde os resultados são melhores, a média é R$ 5.200. O piso do DF supera o teto de vários estados. A remuneração é generosa. O retorno, não.
E a burocracia consome o que o corporativismo não bloqueia. Uma escola pública do DF não pode comprar uma impressora sem processo licitatório de 47 dias. Trocar uma lâmpada queimada no laboratório exige chamado na Coordenação Regional de Ensino, despacho para a Subsecretaria de Administração Geral, agendamento de visita em 15 a 30 dias úteis. A textura do dia a dia escolar é feita de formulários, carimbos, espera — enquanto o aluno da Estrutural senta na cadeira com o ventilador quebrado e tenta aprender trigonometria com professor substituto.
Diretores de escolas particulares resolvem problemas operacionais com um telefonema. A autonomia administrativa da escola pública do DF é praticamente inexistente. O dinheiro existe, mas fica preso em camadas de burocracia como água num cano entupido. O aluno paga o preço.
O Centro-Oeste olha para o DF e estranha
| UF | Gap público-privado ENEM 2025 | Gasto por aluno | |----|-------------------------------|-----------------| | Mato Grosso | 109 pontos | R$ 5.100 | | Mato Grosso do Sul | 121 pontos | R$ 5.600 | | Goiás | 118 pontos | R$ 5.800 | | Distrito Federal | 147 pontos | R$ 12.400 |
O DF gasta o dobro de qualquer vizinho e entrega o maior abismo educacional da região. Goiás, com menos da metade do orçamento, mantém um gap 29 pontos menor. O dinheiro que o DF gasta a mais não está produzindo nada — está sendo absorvido por uma máquina administrativa que se alimenta de si mesma.
O que funciona — e o DF ignora
Estados que reduziram o gap compartilham três políticas que o DF se recusa a adotar.
Bonificação por resultado. O Ceará paga até 2 salários extras para professores de escolas que atingem metas no IDEB. A melhoria média: 12% em três anos.
Avaliação docente externa. O Espírito Santo implementou avaliação bianual por banca independente. Professores com desempenho insatisfatório passam por requalificação obrigatória. A nota média do ENEM estadual subiu 18 pontos em quatro anos.
Autonomia do diretor escolar. O Paraná deu aos diretores poder para gerir até R$ 200 mil por ano sem licitação. Escolas com essa autonomia melhoraram 15% mais que as que permaneceram no modelo centralizado.
Três políticas. Três resultados documentados. Três recusas do DF. O padrão não é acidental — é escolha.
A tecnologia que chegou só de um lado
A revolução digital na educação ampliou o fosso em vez de reduzi-lo. Escolas particulares do Lago Sul e da Asa Sul adotaram plataformas adaptativas de aprendizagem que ajustam exercícios ao nível individual do aluno — sistemas como o Geekie, o Descomplica Pro e o Khan Academy integrado ao currículo. Simulados são corrigidos por inteligência artificial que identifica lacunas específicas em cada estudante e gera planos de estudo personalizados. O professor recebe dashboard com a evolução de cada turma em tempo real.
Na rede pública do DF, a Secretaria de Educação distribuiu tablets em 2023, mas 34% dos dispositivos apresentaram defeito no primeiro ano e não foram substituídos. O acesso à internet nas escolas de Ceilândia e Estrutural opera com velocidade média de 12 Mbps — insuficiente para que 38 alunos acessem simultaneamente uma plataforma de vídeo-aula. O laboratório de informática do CEM 1 da Estrutural tem 22 computadores para 1.200 alunos — um para cada 54 estudantes. A fila de espera para usar o laboratório é de duas semanas. Quando o aluno finalmente senta diante da tela, o equipamento roda Windows 8 e demora quatro minutos para abrir o navegador.
A distância tecnológica entre as duas redes não é apenas de equipamento — é de concepção pedagógica. Enquanto a escola particular usa dados para individualizar o ensino, a escola pública ainda opera no modelo de aula expositiva uniforme para turmas heterogêneas, onde o aluno que domina equação de segundo grau senta ao lado do que não consolidou frações. O professor, sobrecarregado com 38 alunos e sem ferramenta de diagnóstico, ensina para a média — e a média não prepara ninguém para o ENEM.
O impacto na universidade pública
Os números do ENEM têm consequência direta na composição das turmas da UnB. A universidade reserva 50% das vagas para egressos de escolas públicas via Lei de Cotas. Mas mesmo dentro da cota, a concorrência é feroz — e o gap de 147 pontos significa que alunos de escolas públicas do Plano Piloto dominam as vagas que deveriam beneficiar a periferia.
Medicina, Direito, Engenharia — os cursos mais disputados exigem notas de corte que alunos da Estrutural e do Recanto das Emas simplesmente não alcançam com a formação que recebem. A UnB divulgou que no vestibular de 2026 apenas 4% dos aprovados em Medicina vieram de escolas públicas de RAs com renda domiciliar abaixo de três salários mínimos.
A cota existe no papel. Na prática, o gap a esvazia. O sistema de cotas, desenhado para corrigir desigualdade, acaba reproduzindo-a em escala menor — alunos de escolas públicas centrais preenchem vagas que deveriam chegar à periferia. O abismo não para na porta da escola. Atravessa o vestibular e entra na universidade.
A evasão silenciosa que o ENEM não mede
O gap de 147 pontos mede quem fez a prova. Não mede quem desistiu antes de chegar lá. A taxa de abandono escolar no ensino médio da rede pública do DF atingiu 7,8% em 2024 — acima da média nacional de 5,6%. Em Ceilândia e Recanto das Emas, o índice supera 11%. São jovens que saem da escola antes do terceiro ano, que nunca preenchem o cartão do ENEM, que desaparecem das estatísticas como se nunca tivessem existido.
O motivo principal, segundo pesquisa da CODEPLAN com 2.400 jovens evadidos: necessidade de trabalhar para complementar renda familiar (48%). Em seguida: desinteresse pelo conteúdo escolar (22%), gravidez na adolescência (13%) e violência no entorno da escola (9%). O jovem que sai da escola para ganhar R$ 1.400 como ajudante de obra não aparece no gap do ENEM — mas é a expressão mais radical da desigualdade que o exame apenas fotografa.
Se os 7,8% de evadidos fossem incluídos na conta com nota zero, a média da rede pública cairia de 487,3 para algo próximo de 450 — e o gap saltaria para 184 pontos. O número oficial de 147 é, portanto, otimista. O abismo real é maior do que o ENEM consegue medir, porque o ENEM só vê quem chega ao fim do túnel. Quem caiu no caminho é invisível.
O silêncio da Secretaria de Educação
A SEEDF não publicou nenhum plano de ação em resposta aos resultados do último Exame Nacional do Ensino Médio. O Mirante News verificou o Diário Oficial do DF entre fevereiro e março de 2026 e não encontrou portaria, resolução ou grupo de trabalho dedicado à redução do gap.
Em estados com melhoria consistente, a resposta é protocolar: diagnóstico por escola, identificação dos piores desempenhos, reforço emergencial, metas para o ciclo seguinte. O Ceará faz isso desde 2008. Pernambuco, desde 2011. O DF, que dispõe de orçamento e estrutura técnica superiores a ambos, não faz. O silêncio institucional é a resposta mais eloquente que a SEEDF poderia dar — e a mais condenatória.
A resposta institucional ao gap não virá de fora. Não virá do governo federal, que trata educação básica como responsabilidade estadual. Não virá do Congresso, que debate reforma tributária enquanto escolas públicas operam com ventilador quebrado. Virá — se vier — de uma decisão política local: o governador do DF aceitar que gastar R$ 12.400 por aluno sem medir resultado é desperdício, que proteger professor ineficiente prejudica aluno vulnerável, e que autonomia escolar não é ameaça ao sistema — é condição para que o sistema funcione. Enquanto essa decisão não for tomada, o abismo seguirá crescendo um ponto por ano, silencioso como giz na lousa de uma sala sem aluno.
Lucas fecha o caderno às dez da noite. A lâmpada fluorescente do quarto pisca — a instalação elétrica do barraco na Estrutural não aguenta muita carga. O cheiro de gás metano que sobe do antigo lixão se mistura com o vapor da marmita que a mãe esquentou no micro-ondas. Ele abre o celular, acessa o gabarito do último simulado que fez sozinho, baixado de um site gratuito. Acertou 42 de 90 questões em matemática. Sabe que precisa de 70 para ter chance em medicina. Sabe que o colega do Lago Sul acerta 75 com aula particular de reforço que custa R$ 250 a hora.
A distância entre a Estrutural e o Lago Sul não se mede em quilômetros — mede-se em oportunidades negadas, em horas de estudo que o transporte roubou, em professores que faltaram porque o sistema não os cobrou. O ENEM é o raio-X que revela a fratura, não a causa dela.
O gap de 147 pontos não é surpresa. É o resultado previsível de um sistema que gasta muito, gasta mal e se recusa a medir quem ensina com o rigor que exige de quem aprende. O ENEM de 2026 pode ultrapassar 150 pontos de diferença. O abismo não tem fundo visível — e cada ano que o DF gasta sem enfrentar o corporativismo, sem premiar resultado, sem dar autonomia às escolas, é mais uma geração de Lucas que entra na prova com o jogo perdido antes da primeira questão. O dinheiro não falta. O que falta é a coragem de dizer ao sindicato que 41 mil estudantes importam mais que 14 dias de paralisação.
O ENEM de 2026 será aplicado em novembro. Lucas terá sete meses para fechar a distância de 351 pontos entre sua média e a nota de corte de medicina. Sem professor titular de matemática, sem laboratório funcional, sem plataforma adaptativa — apenas o celular, o site gratuito de simulados e a obstinação de quem sabe que o jogo está armado contra ele. O sistema não precisa ser reformado para Lucas. Precisa ser reformado por causa de todos os Lucas que virão depois — e que merecem mais do que a maior dotação orçamentária do país convertida no maior abismo educacional do Centro-Oeste.
Dados do último ENEM obtidos via microdados do INEP (gov.br/inep). Gastos por aluno conforme SIOPE/FNDE. IDEB referente ao ciclo 2023-2025. Médias calculadas por rede (pública estadual/distrital) e município, excluindo candidatos individuais sem vínculo escolar. Salários docentes conforme RAIS/MTE e transparência SEEDF.
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