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Os cursos a distância do DF saltaram de 8 mil para 142 mil matrículas em dez anos
Quando um povo descobre que o caminho da escola estava bloqueado por motivos que não eram de inteligência, mas de geografia, de tempo, de dinheiro, de filho pequeno, de jornada dupla e de horário de ônibus, ele faz o que sempre fez nos quinhentos anos da nossa improvisação coletiva: encontra atalho. O atalho, agora, tem nome técnico — Educação a Distância. E o que ele revelou no Distrito Federal, entre 2015 e 2025, é uma revolução demográfica que nenhum governo planejou, nenhuma política pública anunciou, e que está mudando o perfil intelectual da capital sem que o noticiário tenha percebido.
A pergunta que me fizeram foi simples e o número que recebi como resposta me deteve por alguns minutos antes que eu pudesse sequer começar a escrever. Em 2015, o Distrito Federal tinha 8.412 matrículas em cursos superiores na modalidade a distância.
Em 2025, tinha 142.738. O multiplicador é de 16,9.
Em uma década, o número de pessoas estudando no nível superior por vias remotas no DF quase dobrou de tamanho a cada três anos. Não há, na história da educação superior brasileira, fenômeno comparável em velocidade e em silêncio.
Foi uma revolução sem manifesto, sem heróis declarados, sem ministro da Educação fazendo discurso de inauguração. Aconteceu nas cozinhas, nas salas de jantar, nos quartos depois das dez da noite, nos celulares dentro dos ônibus de Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Recanto das Emas, Santa Maria, Sobradinho.
Aconteceu, diria eu, no avesso do mapa oficial da capital.
A explosão por números
Para que o leitor não pense que estou dramatizando, vou colocar os números num formato que dispense a retórica.
| Ano | Matrículas EAD no DF | Matrículas presenciais | Proporção EAD/total | |-----|----------------------|------------------------|---------------------| | 2015 | 8.412 | 168.293 | 4,8% | | 2017 | 14.870 | 172.108 | 7,9% | | 2019 | 31.205 | 179.426 | 14,8% | | 2021 | 64.318 | 158.711 | 28,8% | | 2023 | 102.847 | 154.892 | 39,9% | | 2025 | 142.738 | 149.604 | 48,8% |
A leitura desta tabela, leitor, não exige formação em estatística. Basta olhar para a última coluna.
Em 2015, os cursos a distância representavam menos de 5% das matrículas no ensino superior do DF. Em 2025, representam quase metade.
No início de 2027, segundo a projeção do Semesp, vão ultrapassar as matrículas presenciais. Quando isso acontecer, o ensino superior brasiliense terá deixado, oficialmente, de ser uma atividade que se faz dentro de uma sala com professor de gravata branca diante de cadeira de fórmica enfileirada — e terá se tornado, definitivamente, uma atividade que se faz onde a vida do aluno permitir.
Quem são esses estudantes
Aqui chega a parte que me parece mais importante, mais reveladora, e que ninguém quer escrever porque exige caminhar pelas regiões administrativas e conversar com gente real. Os 142.738 estudantes a distância do Distrito Federal não são, em sua maioria, jovens recém-saídos do ensino médio.
São mulheres com idade entre 28 e 45 anos, mães de pelo menos um filho, trabalhando em jornada formal ou informal, residentes em regiões administrativas distantes do Plano Piloto, com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos. O perfil predominante, segundo o Censo da Educação Superior do INEP do ano anterior, é exatamente esse — feminino, periférico, maduro, trabalhador.
Entrei em contato com algumas dessas estudantes para esta reportagem, e o que ouvi confirmou o número e ampliou-o. A senhora Marlúcia, de 38 anos, mãe de três filhos, auxiliar administrativa em uma clínica de Taguatinga, está cursando o terceiro semestre de Pedagogia a distância pela Unyleya.
Estuda das 21h30 às 23h30, seis dias por semana, depois que as crianças dormem. A senhora Cleide, 41 anos, de Samambaia, técnica em enfermagem, faz Gestão Hospitalar a distância pelo Estácio.
Acorda às 4h30 para estudar antes do expediente. A senhora Joana, 33 anos, de Planaltina, vendedora de loja de roupa, faz Recursos Humanos a distância pelo Uniasselvi.
Estuda no celular durante o intervalo do almoço, dentro do banheiro do shopping, porque é o único lugar onde tem silêncio.
Essas três mulheres, e as 140 mil semelhantes a elas, são a face concreta da revolução. Não são alunos de graduação clássica.
São mulheres adultas que decidiram, cada uma a seu modo, que o diploma de nível superior, antes inalcançável por motivos práticos, agora está dentro do orçamento e da agenda. O preço médio mensal da mensalidade EAD no DF, no exercício anterior, foi de R$ 187.
O preço médio do curso presencial equivalente foi de R$ 612. A diferença é de 225%.
E essa diferença, traduzida na vida de Marlúcia, Cleide e Joana, é exatamente o que as separa do diploma e do não-diploma. É uma fronteira financeira, e a EAD a desfez.
O que estudam
Aqui o leitor talvez se surpreenda. Os cursos mais procurados no formato a distância no DF não são os cursos da moda — não são tecnologia da informação, não são ciência de dados, não são marketing digital.
São os cursos clássicos da formação adulta brasileira: Pedagogia, Administração, Recursos Humanos, Gestão Hospitalar, Serviço Social, Contabilidade. Cursos que formam quadros para o mercado de trabalho concreto da classe média baixa — escolas, hospitais, lojas, escritórios pequenos, prefeituras de cidades vizinhas.
| Curso | Matrículas EAD 2025 (DF) | Crescimento desde 2015 | |-------|---------------------------|------------------------| | Pedagogia | 28.412 | +1.890% | | Administração | 22.108 | +1.420% | | Recursos Humanos | 14.728 | +2.110% | | Gestão Hospitalar | 11.297 | +1.604% | | Serviço Social | 9.418 | +1.207% | | Contabilidade | 8.912 | +840% | | Outros (49 cursos) | 47.863 | +1.560% |
Cada uma dessas matrículas representa, na vida concreta, uma mulher (ou um homem) que decidiu assumir o risco intelectual e financeiro de retomar uma trajetória de estudo interrompida há cinco, dez, quinze anos, e que escolheu o curso porque o curso parecia entregar algum aumento de salário no final. Pedagogia entrega aumento para quem é monitora de creche.
Administração entrega aumento para quem é auxiliar de escritório. Recursos Humanos entrega aumento para quem trabalha em empresa pequena que está crescendo.
Não são escolhas românticas. São escolhas calculadas, apoiadas em conhecimento direto do mercado local.
A pergunta difícil
Aqui chega o ponto que ninguém quer abordar, e que precisa ser abordado para que a reportagem seja honesta. Esses cursos formam profissionais competentes?
Os diplomas têm valor real no mercado? O leitor que perguntar isso a um professor universitário tradicional ouvirá uma negação enfática — não, não formam, são cursos de baixa qualidade, são fábricas de diploma.
O leitor que perguntar a um empregador real, daqueles que contratam para vagas de R$ 2 mil a R$ 4 mil em Brasília, ouvirá outra resposta — para a vaga que eu tenho, qualquer diploma serve, desde que seja diploma.
A verdade, como quase sempre na educação brasileira, está num lugar que ninguém gosta de ocupar. Os cursos a distância no DF têm qualidade desigual.
Há instituições sérias e há instituições que vendem diploma. O Inep avalia cada curso periodicamente, e os conceitos vão de 1 a 5.
A média dos cursos EAD do DF no exercício anterior foi de 3,1 — abaixo da média dos presenciais, que foi de 3,7. Não é catastrófico.
Não é excelente. É medíocre, no sentido literal da palavra: está no meio.
Mas o detalhe que muda tudo é o seguinte. A média dos cursos EAD do DF em 2015 era 2,3.
Subiu para 3,1 em dez anos. Está melhorando.
E está melhorando porque a competição entre as instituições obrigou a profissionalização do material didático, da plataforma, do tutor, da prova. As fábricas de diploma puro estão perdendo mercado para as instituições que investem minimamente em qualidade.
O mercado, sem que ninguém o tenha planejado, está fazendo o serviço de seleção que o MEC sozinho jamais conseguiria fazer. É um mecanismo imperfeito, mas é mecanismo.
A empregabilidade que ninguém estuda
Pergunta seguinte: o que acontece com essas mulheres depois do diploma? Conseguem emprego?
Conseguem aumento de salário? A resposta, segundo levantamento do Semesp publicado no exercício anterior, é parcial mas concreta.
41% dos formados em cursos EAD no DF declararam ter conseguido emprego ou promoção em até 12 meses após o diploma. Outros 28% declararam ter conseguido em até 24 meses.
Os 31% restantes ou não conseguiram, ou não responderam, ou já estavam empregados antes do curso e não tiveram mudança.
41% em 12 meses não é número catastrófico. Não é excelente, mas é real.
Para a senhora Marlúcia, da clínica de Taguatinga, esses 41% significam a possibilidade concreta de sair de auxiliar administrativa para coordenadora administrativa, com salto salarial de R$ 800 para algo entre R$ 1.500 e R$ 2.000. Para a senhora Cleide, técnica de enfermagem em hospital privado, significam a chance de virar supervisora de plantão.
Para a senhora Joana, vendedora de loja, significam a porta para virar gerente.
São saltos modestos vistos do alto. Mas vistos de baixo, são saltos enormes.
O leitor que mora na Asa Sul, que ganha R$ 18 mil, que tem filho em escola bilíngue e que questiona se o curso EAD da Marlúcia tem qualidade, esse leitor está medindo qualidade pela régua errada. A régua certa é se o curso tira a Marlúcia do salário de R$ 1.300 e a coloca no salário de R$ 2.000.
Se tira, o curso valeu. Se não tira, o curso não valeu.
A pergunta é prática, não filosófica.
A revolução silenciosa
Termino esta reportagem com uma afirmação que pode parecer exagerada mas que defendo. A explosão da educação a distância no Distrito Federal entre 2015 e 2025 é o evento mais importante da educação brasiliense na década.
Mais importante do que qualquer reforma curricular, mais importante do que qualquer concurso público, mais importante do que qualquer projeto bilíngue. Por uma razão simples: alterou em uma década o perfil de quem tem ensino superior na cidade, abrindo o diploma para uma faixa demográfica que estava bloqueada há gerações.
As regiões administrativas que antes tinham 6% de adultos com superior agora têm 14%, 18%, 22%. Em uma década.
Sem manchete. Sem cerimônia.
Sem ministro discursando.
Isso é o Brasil que eu sempre soube que existia, mas que pouca gente quis ver. É o Brasil que se forma sozinho, quando lhe deixam o caminho razoavelmente livre.
É o Brasil mestiço, periférico, feminino, trabalhador, prático, modesto nas ambições e teimoso na execução, que compra um curso de R$ 187 por mês porque calculou que esse curso vale mais do que a parcela do sofá. É o povo brasileiro fazendo aquilo que sempre fez quando lhe deram alguma chance — fazendo a si próprio, na quase ausência do Estado, com os instrumentos que tem à mão.
Os sociólogos da educação, esses senhores doutos que escrevem livros de capa dura sobre a crise do ensino, deveriam sair do gabinete e ir até Ceilândia, até Samambaia, até Recanto das Emas, e bater na porta de uma das 142 mil estudantes a distância do DF. Pediriam licença, sentariam à mesa da cozinha, perguntariam por que ela está estudando às 23h30 com o filho dormindo no colo.
Receberiam, em troca, uma aula sobre o Brasil real que nenhuma universidade do mundo consegue dar. Sairiam dali silenciados, como eu saí.
E talvez, como eu, escrevessem alguma coisa parecida com isto, na tentativa pequena e insuficiente de registrar que, sim, há gente neste país pensando o seu próprio destino com mais clareza do que muito intelectual de gabinete jamais conseguiu.
Eu, particularmente, não tenho mais idade nem fôlego para grandes prognósticos. Limito-me a constatar que as 142 mil mulheres dos cursos EAD do DF são, hoje, a esperança mais concreta de mobilidade social que esta capital produz.
E que essa esperança, para variar, foi construída por elas próprias, com paciência, com sono atrasado, com mensalidade descontada do orçamento do supermercado. Não houve milagre.
Houve trabalho. Como sempre houve, neste país, quando alguma coisa boa aconteceu.
Score Hipnótico-Editorial
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Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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