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O ensino superior privado no DF cresceu 180% em 15 anos — quem estuda nessas faculdades
Um dado bruto resume a transformação mais silenciosa da última década e meia no Distrito Federal: em 2010, havia oitenta e dois mil estudantes matriculados em instituições privadas de ensino superior no DF. Em 2025, esse número chegou a duzentos e vinte e nove mil, segundo o Censo da Educação Superior mais recente, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. É crescimento de cento e oitenta por cento em quinze anos. Nenhum setor educacional brasiliense cresceu tanto, em nenhum período.
Se há uma coisa que aprendi nos anos em que dediquei atenção à educação brasileira é que os números nunca devem ser lidos isoladamente. Um dado cresce porque outro diminui.
Um setor se expande porque outro contrai. A explosão do ensino superior privado no Distrito Federal — cento e oitenta por cento em quinze anos — precisa ser entendida como fenômeno conectado a forças maiores: transformação do mercado de trabalho, limitações do ensino público, expansão da classe média trabalhadora e, também, a chegada de tecnologia educacional que baixou custos operacionais.
Os números em contexto
Antes de qualquer análise, é preciso colocar os números na mesa. O quadro abaixo sintetiza a evolução do ensino superior no Distrito Federal, separando público e privado, presencial e a distância.
| Modalidade | 2010 | 2017 | 2022 | 2025 | Variação | |------------|------|------|------|------|----------| | Privado presencial | 72 mil | 98 mil | 121 mil | 147 mil | mais 104% | | Privado a distância | 10 mil | 38 mil | 67 mil | 82 mil | mais 720% | | Público federal (UnB + IFB) | 48 mil | 55 mil | 58 mil | 61 mil | mais 27% | | Total ensino superior DF | 130 mil | 191 mil | 246 mil | 290 mil | mais 123% |
Dois movimentos saltam aos olhos. O primeiro é o crescimento modesto — mas real — do ensino público federal: de quarenta e oito mil para sessenta e um mil matrículas, puxado pela ampliação de cursos noturnos na Universidade de Brasília e pela consolidação do Instituto Federal de Brasília nos campi de Taguatinga, Estrutural, Ceilândia e Planaltina.
É crescimento importante, mas aritmético. O segundo movimento é o crescimento explosivo do privado a distância, que saltou de dez mil para oitenta e dois mil matrículas no mesmo período.
Sozinho, o ensino a distância privado cresceu mais que o presencial privado e o público federal somados.
Quem é esse novo estudante
O perfil do estudante de faculdade privada no Distrito Federal em 2026 não corresponde ao estereótipo difundido. O dado do Censo, cruzado com o Painel de Empregabilidade do Semesp, revela um estudante que é, em média:
Adulto. A média de idade ao ingressar em curso presencial privado no DF é de vinte e cinco anos.
Em curso a distância, sobe para trinta e dois. Muito longe do jovem recém-saído do ensino médio.
Estamos falando, em grande parte, de quem volta a estudar depois de anos fora — ou nunca esteve.
Trabalhador. Oitenta e três por cento dos matriculados em curso privado presencial no DF trabalham durante o curso.
No ensino a distância, o percentual chega a noventa e um. Essa é, talvez, a diferença mais fundamental em relação ao estudante da Universidade de Brasília, onde a dedicação integral ainda é o padrão majoritário.
Mulher. Cinquenta e nove por cento dos matriculados em curso privado no DF são mulheres.
Em áreas como saúde, educação e serviço social, o percentual ultrapassa setenta e cinco. Em tecnologia, engenharias e administração, a proporção é mais equilibrada.
Morador de região administrativa fora do Plano Piloto. Quase oitenta por cento dos estudantes privados residem em Ceilândia, Taguatinga, Águas Claras, Gama, Sobradinho, Samambaia, Recanto das Emas, Santa Maria, Planaltina ou cidades do entorno goiano.
O Plano Piloto — que concentra a Universidade de Brasília — é minoria no ensino privado.
Os cursos que mais atraem
O Censo identifica os cursos com maior número de matrículas no setor privado do Distrito Federal. A lista não traz surpresas teóricas, mas ajuda a desmontar alguns mitos.
| Curso | Matrículas 2025 | Variação desde 2010 | |-------|------------------|---------------------| | Administração | 24 mil | mais 62% | | Pedagogia | 19 mil | mais 140% | | Direito | 18 mil | mais 48% | | Enfermagem | 14 mil | mais 210% | | Gestão de recursos humanos (tecnólogo) | 12 mil | mais 380% | | Ciências contábeis | 11 mil | mais 79% | | Psicologia | 9 mil | mais 112% | | Engenharia civil | 8 mil | mais 94% | | Análise e desenvolvimento de sistemas (tecnólogo) | 8 mil | mais 450% | | Marketing (tecnólogo) | 6 mil | mais 290% |
Dois fatos merecem destaque. O primeiro é a força dos cursos tecnólogos, aqueles de duração mais curta — dois ou três anos — voltados ao mercado.
Em 2010, os tecnólogos representavam dezessete por cento das matrículas privadas no DF. no exercício anterior, já são trinta e um por cento.
É um deslocamento silencioso da lógica educacional: o diploma de bacharel, antes único símbolo aceitável de ensino superior, perdeu terreno para o certificado mais rápido, mais barato e mais direcionado a profissões específicas.
O segundo é o crescimento de Enfermagem, com mais de duzentos por cento. Esse crescimento é consequência direta da expansão da rede privada de saúde no Distrito Federal e no entorno, com abertura de dezenas de unidades entre 2015 e 2025, e da escassez nacional de profissionais de saúde que se aprofundou depois da pandemia.
O resultado em empregabilidade
A pergunta incômoda é sempre a mesma: quem forma em faculdade privada no DF consegue emprego? Os dados são menos otimistas que a propaganda institucional, mas mais otimistas que o ceticismo cultural sugere.
Segundo painel de acompanhamento de egressos publicado pelo Semesp no exercício anterior, sessenta e sete por cento dos formados em curso presencial privado no Distrito Federal estão empregados formalmente doze meses após a conclusão do curso. No ensino a distância, o percentual cai para cinquenta e quatro.
A Universidade de Brasília, como comparação, registra setenta e seis por cento no mesmo indicador.
A diferença entre sessenta e sete e setenta e seis é significativa, mas não abismal. E precisa ser relativizada por dois fatores.
O primeiro é que muitos alunos de curso privado já estavam empregados antes de iniciar o curso — estudaram justamente para manter o emprego ou conquistar promoção interna. O segundo é que a formação em curso privado no DF tende a se concentrar em carreiras de alta demanda imediata (saúde, tecnologia, administração), enquanto a Universidade de Brasília forma número maior de egressos em áreas acadêmicas puras, que possuem ciclo de inserção mais longo.
A crítica honesta
Seria desonestidade intelectual celebrar o crescimento do ensino privado no DF sem apontar suas fragilidades. Há três, a meu ver, que merecem registro.
A primeira é a qualidade desigual. Das instituições privadas que operam no Distrito Federal, menos da metade possui conceito quatro ou cinco nas avaliações do Ministério da Educação.
A maioria está na média ou abaixo. Isso não significa que formam mal — muitas formam bem dentro de suas limitações.
Mas significa que o estudante precisa pesquisar antes de escolher.
A segunda é o endividamento estudantil. O FIES e o Prouni cobrem parcela significativa das matrículas, mas não todas.
Muitos alunos contratam empréstimo privado, parcelam com juros altos ou se endividam pessoalmente. O quadro de inadimplência estudantil no DF cresceu quarenta por cento entre 2020 e 2025.
A terceira é a concentração de mercado. Três grupos privados detêm mais de sessenta por cento das matrículas privadas do Distrito Federal.
A lógica econômica desse oligopólio pressiona preços para cima e padroniza projetos pedagógicos para reduzir custos, o que pode empobrecer a experiência educacional ao longo do tempo.
O que esses números dizem sobre o Brasil
Brasília é, a seu modo, um laboratório. Capital federal, com renda média acima da nacional, acesso relativamente maior a crédito estudantil e proximidade com instituições públicas de prestígio, o Distrito Federal oferece condições privilegiadas para observar como o ensino superior privado se expande e se consolida.
O que se vê é claro: a expansão privada é a via pela qual o Brasil tem democratizado — imperfeitamente, irregularmente, por vezes mal — o acesso ao ensino superior. Não há no horizonte plano realista que substitua essa via por ampliação do ensino público na mesma velocidade.
Resta, portanto, a tarefa mais difícil e menos glamorosa: regular bem o que está crescendo, garantir qualidade mínima, proteger o estudante do endividamento e construir pontes entre o certificado e o mercado real de trabalho. Essa agenda, no Distrito Federal como no restante do país, ainda está por fazer.
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