
Sala de aula da EJA no Centro de Ensino Fundamental 01 de Sobradinho. Foto: SEEDF/Divulgação.
EJA do DF atende 48 mil adultos — e 72% são mulheres acima de 30 anos
A Educação de Jovens e Adultos do Distrito Federal mantém 48.214 matrículas ativas em 2026, segundo dados consolidados pela Secretaria de Educação. O perfil é específico, persistente e raramente discutido: 72% dos estudantes são mulheres, a faixa etária dominante vai dos 30 aos 50 anos, e três em cada quatro trabalham fora ou cuidam de casas com filhos pequenos.
A modalidade que muita gente ainda associa a adolescentes em distorção idade-série virou, no DF, um espaço majoritariamente feminino e adulto. O perfil se consolidou ao longo da última década e contraria o senso comum sobre quem procura a escola fora da idade regular.
Os dados foram extraídos do Censo Escolar 2025, divulgado pelo Inep, e cruzados com a base operacional da Secretaria de Educação do Distrito Federal.
São 48.214 estudantes matriculados em 2026, distribuídos por 154 unidades escolares que oferecem a modalidade. A rede pública concentra 96% das matrículas.
O restante está em entidades conveniadas, principalmente em cidades de periferia.
O perfil predominante
A composição demográfica é o dado mais forte da reportagem, e está longe do estereótipo do "aluno EJA" como rapaz que evadiu do ensino regular. Sete em cada dez são mulheres.
A idade média é de 38 anos. Quase metade tem filhos menores de 18 anos morando em casa.
Mais da metade trabalha — formal ou informalmente.
| Recorte | Percentual | Total absoluto | |---|---|---| | Mulheres | 72% | 34.714 | | Homens | 28% | 13.500 | | Faixa 18-29 | 19% | 9.160 | | Faixa 30-49 | 58% | 27.964 | | Faixa 50+ | 23% | 11.090 | | Trabalha fora | 54% | 26.035 | | Mães de menores | 47% | 22.660 |
A leitura mais imediata desses dados é demográfica e cultural: trata-se de uma geração de mulheres que interrompeu os estudos no fim dos anos 1990 ou início dos 2000, em geral por gravidez, casamento ou necessidade de trabalhar. Vinte anos depois, com filhos crescidos ou matriculados em creches da rede, voltaram à sala de aula para terminar o que ficou inacabado.
Por que voltam
As razões aparecem em pesquisa qualitativa coordenada pela própria Secretaria de Educação em 2024, com 1.200 estudantes ouvidos. A motivação número um não é o emprego — é o exemplo para os filhos.
A segunda é a possibilidade de prestar concurso público, especialmente para cargos de nível médio na própria rede pública distrital. A terceira é a aposentadoria, com a percepção de que o diploma facilita transições profissionais na faixa dos 50 e 60 anos.
- Servir de exemplo para filhos e netos: 41% das respostas
- Prestar concurso público: 27%
- Mudar de trabalho ou subir na carreira: 18%
- Concluir um projeto pessoal antigo: 11%
- Outros motivos: 3%
Essa hierarquia motivacional explica dois fenômenos operacionais. O primeiro é a alta taxa de permanência: 81% dos matriculados em 2025 chegaram ao fim do semestre, número muito acima da média nacional da EJA, que é de 58%.
O segundo é a baixíssima evasão masculina jovem — porque os homens jovens já não estão na EJA do DF. Migraram para cursos técnicos no Sistema S ou simplesmente abandonaram qualquer expectativa de retorno à escola formal.
A geografia da modalidade
A distribuição por região administrativa segue, em linhas gerais, a curva de vulnerabilidade socioeconômica. Ceilândia tem o maior número absoluto de matrículas: 7.812.
Em seguida vêm Samambaia, com 5.104, e Planaltina, com 4.890. O Plano Piloto soma 1.318 estudantes, quase todos em cursos noturnos do Centro de Ensino Médio Setor Leste e do Centro Educacional 02 de Brasília.
Cinco regiões concentram 58% das matrículas: Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Recanto das Emas e Santa Maria. As três primeiras também respondem pelas maiores taxas de mulheres na modalidade — acima de 75% em Planaltina.
A grade que se adaptou
A EJA do DF trabalha com três segmentos: anos iniciais do ensino fundamental, anos finais do fundamental e ensino médio. O segmento mais procurado, com folga, é o ensino médio.
Há 32.108 estudantes nele — dois terços do total da rede.
A organização semestral foi mantida, mas a Secretaria flexibilizou três pontos cruciais ao longo dos últimos cinco anos:
- Possibilidade de cursar disciplinas em ritmo modular, sem a obrigação de concluir o semestre integral
- Aceitação de atestados de trabalho e maternidade como justificativa de ausência
- Salas com berçário improvisado em quatro escolas-piloto (Ceilândia, Samambaia, Sobradinho e Planaltina)
Essas medidas explicam, segundo a coordenação da modalidade, parte da retenção. O berçário das quatro escolas-piloto atende cerca de 180 bebês por semestre.
É pouco frente à demanda — a fila de espera tem 600 nomes — mas é o que a rede consegue manter sem orçamento específico.
O que aparece nos resultados
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica não cobre a EJA, então a Secretaria mantém indicadores próprios. Em 2025, o índice de aprovação foi de 73%, contra 68% em 2022.
A nota média no Encceja, exame de certificação federal, foi de 532 pontos em linguagens, acima da média nacional de 514.
Nada disso é espetacular. Mas é estável.
Numa modalidade tradicionalmente tratada como apêndice das redes públicas, a EJA do DF se tornou um sistema que funciona, atende um público específico e devolve diplomas a uma geração que parecia ter perdido essa oportunidade. As 34.714 mulheres acima dos 30 anos matriculadas em 2026 não são exceção dentro da modalidade.
São a regra. E mudaram, sem barulho, o desenho de uma política pública inteira.
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