
Sala infantil da Biblioteca Demonstrativa de Brasília em uma tarde de quarta-feira de março, lotada de crianças do Lago Norte e do Varjão. Foto: Secretaria de Cultura do DF/Divulgação.
Biblioteca pública de Brasília empresta 380 mil livros em 2025 e marca a volta da leitura popular
Em uma tarde qualquer de quarta-feira na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, na 506 Sul, a cena se repete há meses. As cadeiras vermelhas da sala infantil estão todas ocupadas. Adolescentes uniformizados disputam mesas no segundo andar. Um grupo de aposentados conversa em torno de exemplares de Drummond. Na recepção, a fila para retirar livros tem oito pessoas. Em 2025, essa rotina virou número.
Em uma tarde qualquer de quarta-feira na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, na 506 Sul, a cena se repete há meses. As cadeiras vermelhas da sala infantil estão todas ocupadas.
Adolescentes uniformizados disputam mesas no segundo andar. Um grupo de aposentados conversa em torno de exemplares de Drummond.
Na recepção, a fila para retirar livros tem oito pessoas. no exercício anterior, essa rotina virou número.
A rede pública de bibliotecas do Distrito Federal fechou o ano passado com 380.412 empréstimos contabilizados, segundo relatório consolidado pela Secretaria de Cultura e divulgado em março. O volume é 41% maior que o de 2024 e supera com folga o último pico, registrado em 2018.
Para uma rede que enfrentou cinco anos de queda contínua, o número marca uma virada.
A rede que sustenta o resultado
O DF mantém 32 bibliotecas públicas distribuídas pelas regiões administrativas, ligadas à Secretaria de Cultura. A maior delas, e também a mais conhecida, é a Biblioteca Demonstrativa de Brasília, fundada em 1970 e batizada em homenagem ao escritor Maurício de Sousa em 2018.
Sozinha, ela respondeu por 96.317 empréstimos, ou seja, um quarto do total da rede.
| Biblioteca | Empréstimos 2025 | Variação vs 2024 | |---|---|---| | Demonstrativa de Brasília | 96.317 | +52% | | Pública de Taguatinga | 41.208 | +38% | | Pública de Ceilândia | 38.471 | +44% | | Pública do Gama | 27.860 | +29% | | Pública de Sobradinho | 22.115 | +33% | | Demais 27 unidades | 154.441 | +37% |
Os empréstimos infantis representaram 47% do total. A faixa juvenil, entre 12 e 17 anos, somou 21%.
O público adulto correspondeu a 32%. A divisão chama atenção pelo peso das crianças, que historicamente respondiam por menos de um terço dos empréstimos na rede.
O que mudou para o público voltar
Três decisões administrativas ajudaram a reverter a trajetória. A primeira foi o retorno do horário noturno, com fechamento às 20h, suspendido durante a pandemia e mantido em horário reduzido até 2024.
A segunda foi a reabertura dos sábados em todas as unidades. A terceira foi a digitalização do cadastro de leitor, hoje feito em três minutos no celular, sem precisar comparecer à biblioteca para a primeira retirada.
Houve também investimento em acervo. no exercício anterior, o orçamento para aquisição de livros novos foi de R$ 4,2 milhões, o maior em uma década.
A compra priorizou literatura infantojuvenil contemporânea, vestibular, concursos públicos e clássicos brasileiros. Foram incorporados 38 mil exemplares novos, de quase 4 mil títulos diferentes.
A bibliotecária responsável pela seleção, Cláudia Bertoni, explicou à reportagem o critério. "A gente foi atrás dos livros que as pessoas procuravam e a gente não tinha.
Saiu uma planilha de pedidos negados em 2023 e 2024. Os títulos mais pedidos viraram a primeira lista de compra."
A sala de estudos como produto público
Na Biblioteca Demonstrativa, o segundo andar funciona desde 2024 como sala de estudos com 110 lugares. A demanda cresceu tanto que, a partir de setembro do ano passado, a unidade passou a operar com senha por turno.
Em manhãs de sábado, todas as senhas são distribuídas em menos de uma hora.
O perfil do frequentador da sala mudou. Antes era dominada por concurseiros entre 25 e 40 anos.
Hoje, segundo levantamento interno, 34% são estudantes de ensino médio. Para muitos, é a alternativa silenciosa que falta em casa.
"Em apartamento de Ceilândia com cinco pessoas, estudar para o ENEM é impossível. Aqui, eu consigo", disse à reportagem Lucas Pereira, 17 anos, morador do P Sul, encontrado em uma manhã de março com a apostila de matemática aberta sobre a mesa.
Os clubes de leitura ressuscitados
Outra novidade silenciosa do ano passado foi o retorno dos clubes de leitura presenciais. no exercício anterior, a rede contabilizou 188 encontros, distribuídos em 14 grupos diferentes.
A maioria é organizada por voluntários, mas tem chancela e divulgação institucional. Os temas vão de literatura africana a quadrinhos, passando por filosofia clássica e poesia contemporânea de autores do Cerrado.
O clube mais antigo do DF, "Entre Linhas", funciona desde 2009 na Biblioteca de Taguatinga. A coordenadora Vera Aguiar conta que a média de participantes saltou de 12 para 31 entre 2024 e 2025.
"Tem gente que vem de Águas Claras só para o encontro. A pandemia desensinou a conversar sobre livro com gente.
Agora a gente reaprendeu."
O contraste com o cenário nacional
A última edição da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro, mostrou que o número de leitores no país caiu de 56% para 47% da população entre 2019 e 2024. O Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores no período.
Nesse cenário, o crescimento de empréstimos no DF é exceção e não regra.
A explicação não está apenas nas bibliotecas. O IDEB do DF nos anos finais do ensino fundamental, divulgado em janeiro, foi de 5,4, acima da média nacional de 5,1.
A taxa de alfabetização funcional dos jovens entre 15 e 17 anos chegou a 96% no DF, contra 92% na média do país. Bibliotecas vivas e escolas razoáveis caminham juntas.
O que ainda falta
Apesar do salto, há buracos. Sete das 32 bibliotecas da rede ainda funcionam em prédios alugados sem acessibilidade plena.
Cinco unidades não têm bibliotecário formado no quadro permanente. O acervo de 14 unidades está abaixo de 5 mil exemplares, um terço do mínimo recomendado pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.
A próxima meta da Secretaria de Cultura, segundo cronograma divulgado em fevereiro, é abrir três novas bibliotecas até dezembro, em Sol Nascente, Itapoã e São Sebastião, três regiões administrativas que hoje não têm biblioteca pública. O projeto inclui contratação de 18 bibliotecários por concurso público, com edital previsto para o segundo semestre.
Por que isso importa
Bibliotecas públicas não são monumentos. São equipamentos de uso.
Quando uma criança do Varjão atravessa o Lago Norte para sentar em uma poltrona vermelha e ler um livro emprestado, a cidade está cumprindo uma promessa antiga. A de que livro é direito, não privilégio.
no exercício anterior, Brasília renovou essa promessa 380 mil vezes. E o número, pelo que se vê nas filas de quarta-feira, ainda vai crescer em 2026.
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