
Coworking no Sudoeste reúne jovens fundadores de startups do Distrito Federal. A maioria tem menos de 25 anos e nunca fez um cursinho para concurso.
A geração Z do DF já não sonha com concurso público: pesquisa com mil jovens mostra ruptura
Durante quatro décadas, Brasília foi a capital dos cadernos de questões, do cursinho no Setor de Diversões Sul, do grupo de estudos na biblioteca pública, do sonho organizado em torno da palavra estabilidade. A geração dos pais acreditava nele sem hesitar. A geração dos filhos, segundo pesquisa inédita feita em março de 2026, já não acredita.
A geração Z do DF já não sonha com concurso público: pesquisa com mil jovens mostra ruptura
Na sala da casa de Luísa Martins, 23 anos, estudante de design de produto, há uma estante com 42 livros. Nenhum deles é manual de concurso.
Não há apostila da Cespe, não há dicionário de direito administrativo, não há coletânea comentada de provas anteriores. Há livros sobre tipografia, sobre experiência do usuário, sobre inteligência artificial aplicada a interfaces, e uma biografia em inglês de Dieter Rams.
Quando a reportagem perguntou se ela havia considerado, em algum momento, prestar um concurso público, Luísa respondeu com uma frase que virou o título de uma das reuniões editoriais do Mirante: "Eu não quero ser meu pai feliz. Eu quero ser eu insegura."
A frase é forte, mas não é incomum. Ela aparece, em variações, nas entrevistas que a reportagem fez com dez jovens do Distrito Federal entre 19 e 25 anos, e ressoa no levantamento quantitativo encomendado pelo Mirante ao Instituto de Pesquisa Social do Centro-Oeste, aplicado entre 3 e 18 de março de 2026 com 1.012 moradores do DF nessa mesma faixa etária.
Os números são claros, e o que eles contam é uma ruptura geracional que vale a pena examinar com calma.
Os números da ruptura
A pesquisa, feita por telefone e complementada com entrevistas presenciais em sete regiões administrativas, tem margem de erro de 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Perguntou sobre trabalho, renda, futuro, consumo, valores, tempo de tela e relação com o Estado.
Alguns resultados chamam mais atenção.
| Pergunta | % que respondeu sim | |----------|---------------------| | Você gostaria de abrir seu próprio negócio nos próximos 5 anos? | 73% | | Você pretende prestar concurso público? | 39% | | Você acredita que terá estabilidade financeira aos 40 anos? | 28% | | Você aceitaria um emprego CLT com carteira assinada se surgisse hoje? | 52% | | Você já prestou algum concurso público? | 17% | | Você conhece alguém da sua idade que passou em concurso? | 41% |
A primeira leitura é óbvia: a vontade de empreender é alta, a de fazer concurso é baixa, a confiança na estabilidade futura é baixíssima. A segunda leitura, menos óbvia, é mais interessante.
Apenas 52% aceitariam um emprego CLT formal se surgisse. Quase metade dos jovens do DF, portanto, prefere a informalidade, a autonomia, a renda variável, o trabalho por projeto.
Não é apenas rejeição ao concurso. É rejeição ao modelo de carreira que Brasília, como cidade, ajudou a inventar.
O que dizem os jovens
A reportagem passou dez dias ouvindo jovens nas ruas, nas universidades, nos coworkings e nos grupos de WhatsApp onde eles se organizam. Não há uma resposta única, mas há um padrão.
Luísa Martins, 23, design de produto, Asa Norte. "Meus pais entraram no serviço público nos anos oitenta. O Brasil era outro. Eles construíram casa, carro, viagem, aposentadoria. Eu olho isso e penso: eles foram felizes? Foram, de certa forma. Mas eles não escolheram. Foi a única coisa que tinha. Hoje tem outras coisas. Eu quero tentar."
Diego Souza, 21, cursando engenharia da computação na UnB, Ceilândia. "Concurso é um investimento de cinco anos da sua vida para talvez passar. E se passar, é um emprego por 35 anos no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, com a mesma chefe. Eu prefiro errar rápido várias vezes do que acertar devagar uma só vez."
Camila Rodrigues, 25, microempreendedora individual, Taguatinga. "Eu tenho meu CNPJ desde os 19 anos. Faço social media para pequenas empresas. Ganho entre três mil e oito mil por mês, depende do mês. Não tenho plano de saúde pela empresa, não tenho décimo terceiro, não tenho férias pagas. Mas tenho algo que meu pai nunca teve: posso ir ao dentista às dez da manhã de uma quarta-feira sem pedir permissão para ninguém."
Pedro Henrique, 19, estudante de cinema, Guará II. "Cresci vendo reportagem falando que professor ganha pouco, que enfermeiro ganha pouco, que servidor é mal pago. Virei adulto e descobri que até o auditor da Receita, que ganha dezoito mil, reclama. Se nem o que ganha dezoito mil está feliz, o problema não é o salário. O problema é o modelo."
As citações, juntas, formam um quadro que resume bem o que a pesquisa capturou em números. A geração Z do DF não desdenha do servidor público.
Respeita. Mas não se projeta ali.
O que mudou no mercado
O contexto objetivo ajuda a entender a escolha. Entre 2020 e 2025, o Distrito Federal registrou, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a abertura de 312 mil novos CNPJs, a maioria na modalidade de Microempreendedor Individual.
Em paralelo, os concursos federais para cargos de nível superior reduziram o número de vagas abertas em cerca de 34% na comparação com a década anterior, e o prazo médio entre edital e nomeação subiu de 11 para 22 meses. A oportunidade de concurso encolheu enquanto a de empreender, alimentada por plataformas digitais, expandiu.
Há também um elemento geracional mais profundo, que a economia sozinha não explica. Pesquisas comparativas do Pew Research Center e do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas mostram que jovens nascidos depois de 1997 têm, em média, menor tolerância a ambientes hierárquicos rígidos, maior apreço por autonomia e maior disposição a aceitar renda variável em troca de flexibilidade.
O dado não é brasileiro. É global.
O Distrito Federal, que por décadas funcionou como exceção, parece estar voltando à média mundial.
Os riscos que a euforia esconde
Seria desonesto contar a história sem mostrar o outro lado. O empreendedorismo jovem brasileiro tem uma estatística perversa que raramente aparece nas conversas de coworking: 48% dos microempreendedores individuais fecham o CNPJ em até três anos, segundo levantamento do Sebrae de 2024.
Dos que sobrevivem, apenas 22% conseguem, no quinto ano, renda média superior ao salário de um servidor público de nível médio.
"A gente vê muita glamourização do empreendedor", diz o economista Luciano Faria, pesquisador do Centro de Políticas Públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa de Brasília. "A realidade é mais dura.
O jovem que abre CNPJ hoje pode estar, sem saber, trocando a estabilidade de longo prazo por uma precariedade disfarçada de liberdade. Não é que a escolha seja errada.
É que ela precisa ser feita com dado, não com Instagram."
A pesquisa do Mirante captura também essa ambivalência. Perguntados se recomendariam a um irmão mais novo seguir o próprio caminho, apenas 54% dos empreendedores entrevistados disseram sim.
Quase metade hesita. Entre os que prestam concurso, o índice de recomendação ao irmão é menor ainda: 31%.
A geração Z não confia em nenhum modelo com unanimidade. Duvida de todos.
Tenta mesmo assim.
A Brasília que está nascendo
Talvez a leitura mais interessante da pesquisa não esteja nos 73% que querem empreender, e sim nos 28% que acreditam em estabilidade financeira aos 40 anos. Vinte e oito por cento.
Em uma cidade que nasceu como projeto de estabilidade coletiva, onde cada rua, cada quadra, cada superquadra foi planejada para abrigar servidores do serviço público federal, apenas menos de um em cada três jovens acredita que terá vida estável no futuro próximo. É uma ruptura que vai além da escolha profissional.
É uma ruptura com a promessa original da capital.
Luísa, a estudante de design, resumiu, no fim da entrevista, com outra frase que merece anotação. "Brasília foi construída para ser o lugar onde o Brasil ia dar certo.
Meus pais compraram essa ideia. Eu cresci ouvindo que o Brasil não deu certo.
Então o que é que eu faço com essa cidade?" A pergunta é legítima. E talvez a resposta dela, e dos mil jovens entrevistados pelo Mirante, seja uma só: transformar a cidade em outra coisa.
Não sabem ainda em qual. Mas já não é a cidade do concurso.
A ruptura está feita. Cabe à Brasília de 2026, em todos os setores — público, privado, acadêmico, cultural —, decidir o que oferece a essa geração que decidiu, em silêncio estatístico, virar a página.
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