
Sala da prova do Tribunal de Contas do DF em novembro de 2025: 38 mil candidatos para 60 vagas.
O concurso público do DF tem 1 vaga para cada 620 candidatos — fenômeno brasileiro inédito
No fim de novembro de 2025, o Centro Universitário de Brasília abriu seus portões às oito da manhã para receber 8.412 candidatos de uma única prova. Era a etapa objetiva do concurso para auditor do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Eram 60 vagas. Os 8.412 que estavam ali eram apenas um grupo — o concurso recebeu 38 mil inscrições no total. A taxa de concorrência foi de 633 candidatos por vaga. E no DF, isso não é exceção. Está virando regra.
No fim de novembro do ano anterior, o Centro Universitário de Brasília abriu seus portões às oito da manhã para receber 8.412 candidatos de uma única prova. Era a etapa objetiva do concurso para auditor do Tribunal de Contas do Distrito Federal.
Eram 60 vagas. Os 8.412 que estavam ali eram apenas um grupo — o concurso recebeu 38 mil inscrições no total.
A taxa de concorrência foi de 633 candidatos por vaga. E no DF, isso não é exceção.
Está virando regra.
O Cebraspe — antigo Cespe da UnB, hoje uma das maiores bancas examinadoras do país — divulgou em março um relatório consolidando 38 concursos federais e distritais aplicados no Distrito Federal entre janeiro de 2024 e março de 2026. O levantamento cruza dados de inscrição, presença na prova, aprovação e perfil socioeconômico do candidato.
A média geral de concorrência foi de 620 candidatos por vaga. É a maior densidade de concurseiros documentada em qualquer unidade da federação brasileira em qualquer período da história.
Para efeito de comparação, a média nacional dos concursos federais nos últimos cinco anos foi de 138 candidatos por vaga. São Paulo registra média de 211.
Rio de Janeiro, 174. Minas Gerais, 122.
O DF tem quase quatro vezes a média nacional. O dado é tão fora de curva que o próprio relatório do Cebraspe abre com a frase: "Os números do Distrito Federal exigem categoria estatística própria."
A geografia do fenômeno
Por que Brasília tem essa densidade? A resposta é simples no plano superficial e complexa no plano estrutural.
No plano superficial, Brasília é a capital. Todos os concursos federais para órgãos sediados no DF — Receita Federal, Polícia Federal, Tribunais Superiores, Ministérios, agências reguladoras, autarquias, fundações — têm como destino final a cidade.
Quem mora aqui já está no local de exercício. Quem mora fora, mas quer prestar concurso federal, vem para o DF morar e estudar.
O Cebraspe estima que 18% dos candidatos inscritos em concursos federais aplicados em Brasília mudaram de UF nos últimos três anos para se preparar.
No plano estrutural, o DF tem o maior salário médio do funcionalismo público do Brasil, a maior concentração de cargos de alta hierarquia, a maior estabilidade de carreira percebida, o melhor conjunto de benefícios não monetários — auxílio-saúde, auxílio-alimentação, auxílio-creche, plano de previdência complementar — e a menor taxa de desligamento voluntário. A combinação cria um imã econômico cuja atração não tem paralelo no setor privado da cidade.
| Concurso | Ano | Vagas | Inscritos | Concorrência | |---|---|---|---|---| | Polícia Federal (Agente) | 2024 | 1.000 | 642.000 | 642/1 | | Receita Federal (Auditor) | 2024 | 230 | 178.000 | 774/1 | | TCU (Auditor) | 2025 | 40 | 28.400 | 710/1 | | TCDF (Auditor) | 2025 | 60 | 38.000 | 633/1 | | Câmara dos Deputados (Analista) | 2025 | 80 | 51.200 | 640/1 | | Banco Central (Analista) | 2024 | 100 | 64.300 | 643/1 | | MPDFT (Analista) | 2024 | 25 | 14.800 | 592/1 | | TJDFT (Técnico) | 2025 | 200 | 96.000 | 480/1 |
A concorrência só é menor em concursos de nível médio sem vinculação federal direta — caso de concursos para cargos administrativos de secretarias do GDF, em que a média cai para 180 candidatos por vaga. Mas mesmo esse número está acima da média nacional para concursos equivalentes em outras capitais.
Quem é o concurseiro do DF
A Codeplan publicou em outubro de 2024 o estudo "Perfil do concurseiro do Distrito Federal", baseado em entrevistas com 4.200 candidatos inscritos em pelo menos um concurso público nos doze meses anteriores. O retrato que saiu de lá derruba alguns lugares-comuns.
O concurseiro do DF não é jovem. A idade média é de 31,4 anos, e mais da metade tem mais de 30.
Não é desempregado: 71% trabalham, sendo 39% no setor privado, 22% em emprego público temporário ou estágio, e 10% em atividade autônoma. Não é solteiro sem filhos: 54% têm cônjuge ou companheiro, e 31% têm pelo menos um filho dependente.
O concurseiro do DF é, em maioria absoluta, alguém de classe média, com formação superior completa em curso da área de humanidades ou negócios, que já tem renda mensal entre R$ 3 mil e R$ 7 mil — e que estuda para concurso porque acredita que é o único caminho razoável para subir de patamar de renda em uma cidade onde o setor privado paga pouco para função qualificada.
A média de tempo de estudo dedicado ao concurso é de 38 horas por semana, somando estudo formal em curso preparatório, estudo individual em casa e revisões em grupo. Para 22% dos entrevistados, o estudo passa de 50 horas semanais.
É um segundo emprego não remunerado.
| Perfil socioeconômico do concurseiro DF | % | |---|---| | Idade média | 31,4 anos | | Tem ensino superior completo | 78% | | Trabalha (qualquer vínculo) | 71% | | Casado(a) ou em união | 54% | | Tem ao menos um filho | 31% | | Estuda mais de 30h por semana | 64% | | Está há mais de 2 anos tentando | 47% | | Já passou em algum concurso (mas quer "subir") | 19% |
Esse último dado é importante. Quase um em cada cinco concurseiros do DF já é servidor público — e está estudando para outro concurso, normalmente de carreira melhor remunerada.
O fenômeno tem nome no jargão: "verticalização". O técnico do TJDFT estuda para virar analista.
O analista do Senado estuda para virar auditor da Receita. O auditor da Receita estuda para o Banco Central.
A carreira pública no DF é uma escada e quase ninguém para no degrau em que entrou.
A indústria que vive disso
Em torno do fenômeno do concurso, o DF construiu uma das maiores indústrias educacionais privadas do país. São 78 cursos preparatórios presenciais registrados na Junta Comercial do DF.
São cinco grandes plataformas digitais — Gran Cursos, Estratégia, Direção, Alfacon e CursoGrei — sediadas no Distrito Federal. Juntas, faturam algo entre R$ 1,5 e R$ 1,8 bilhão por ano apenas com alunos da capital.
O Gran Cursos, fundado em Brasília em 2010, virou unicórnio em 2023 ao receber aporte de R$ 600 milhões. O Estratégia, também de origem brasiliense, é hoje a maior plataforma de educação para concurso público da América Latina, com 1,4 milhão de alunos ativos.
Os dois empregam, juntos, mais de 4.300 pessoas no Distrito Federal — mais que o total de servidores do TCDF, do MPDFT e da Câmara Legislativa somados.
Há ainda um ecossistema satélite que ninguém calcula direito: 1.200 professores particulares de português e raciocínio lógico, 380 coachings de aprovação, 22 editoras especializadas em apostila, dezenas de canais de YouTube com mais de 100 mil inscritos cada. A capital exporta para todo o Brasil o método, o material didático e o discurso da aprovação como projeto de vida.
O custo invisível
Há uma matemática que o relatório do Cebraspe não fez, mas que aparece nas entrelinhas da pesquisa da Codeplan. Se 47% dos concurseiros do DF estão há mais de dois anos estudando, e se a média de estudo é de 38 horas por semana, e se o salário-hora médio do trabalhador formal do DF é de R$ 38, então o custo de oportunidade do tempo investido em preparação para concurso, no Distrito Federal, chega a algo próximo de R$ 7,2 bilhões por ano.
É mais do que o orçamento anual da Secretaria de Saúde.
A pergunta que esse número levanta é incômoda. Quanta produtividade econômica o DF deixa de gerar todos os anos porque sua mão de obra qualificada está sentada estudando para uma vaga em vez de produzindo bens, serviços, empresas, ideias?
Quanta inovação é represada por uma estrutura de incentivos que torna o concurso público a única decisão racional disponível para o jovem com diploma?
A resposta, talvez, esteja no próximo edital. O Cebraspe abriu na semana passada inscrições para o concurso da Receita Federal: 412 vagas, expectativa interna de 320 mil inscritos.
A prova vai acontecer em outubro. As salas do CIEE, da UnB, do Iesb, do UDF e de outros cinco centros universitários da capital já foram reservadas.
O edital diz, em letras pequenas, que a banca pode ampliar o número de salas se a procura ultrapassar 350 mil. É a primeira vez em vinte anos que o Cebraspe inclui essa cláusula.
Eles esperam que aconteça.
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