
Fachada do Catetinho ao entardecer, com os pilares de eucalipto originais de 1956 e o pavilhão principal onde Juscelino Kubitschek dormia durante as visitas às obras de Brasília.
O Catetinho não é turístico: 78% dos brasilienses nunca visitaram o primeiro palácio de Brasília
Da varanda de madeira do Catetinho, a 25 quilômetros do centro do Plano Piloto, pelo trecho sul da BR-040, se vê o mesmo cerrado de 1956: o capim baixo, o ipê amarelo que floresce em setembro, a serra do Gama desenhada contra o horizonte. Foi exatamente essa paisagem que o arquiteto Oscar Niemeyer emoldurou com os seis pilares de eucalipto e o vidro corrido do pavilhão principal quando recebeu, em 28 de outubro de 1956, o pedido para erguer em dez dias uma residência onde o presidente da República pudesse dormir nas visitas de fiscalização das obras da nova capital. E é a mesma paisagem que 78% dos moradores do Distrito Federal, segundo a pesquisa de turismo interno da Secretaria de Turismo publicada em março, nunca viram com os próprios olhos.
Eu costumava dormir mal na semana anterior às viagens de fiscalização. Não pelo voo, que era tranquilo no Viscount da Força Aérea, mas porque cada visita significava confrontar o tamanho do problema que eu mesmo havia prometido resolver em quatro anos.
Brasília, em outubro de 1956, era uma clareira vermelha no meio do cerrado com três mil trabalhadores, duas pistas de pouso improvisadas, um acampamento chamado Cidade Livre e nenhum lugar digno para o presidente da República pernoitar. Eu havia decidido ir lá a cada duas semanas, e precisava de um teto.
Foi assim que, numa conversa rápida com o Israel Pinheiro no gabinete do Catete, combinei que o Oscar Niemeyer desenharia em dois dias e a obra começaria no terceiro.
O Catetinho ficou pronto em dez dias. Não é figura de linguagem.
Entre 28 de outubro e 10 de novembro de 1956, os operários da Novacap, sob comando do engenheiro Derly Chaves, ergueram a estrutura em madeira de eucalipto, placas de compensado, cobertura de telha francesa e um grande pano de vidro virado para o leste. Custou 1,9 milhão de cruzeiros da época, o equivalente hoje a algo próximo de 580 mil reais corrigidos pelo IGP-DI.
Foi o primeiro projeto de Niemeyer no planalto central e, portanto, o marco zero arquitetônico de tudo o que viria depois: o Alvorada, o Planalto, o Itamaraty, a Catedral. Antes de qualquer um deles, houve aquele pavilhão de dez dias.
O número que me surpreende
A pesquisa que a Secretaria de Turismo do Distrito Federal publicou em março deste ano ouviu 2.400 moradores adultos do DF, com amostragem estratificada por região administrativa e nível de renda, e perguntou quais atrações turísticas da capital eles já haviam visitado pelo menos uma vez na vida. O resultado em relação ao Catetinho me pareceu, em primeira leitura, errado.
Não estava. 78% dos entrevistados responderam que nunca foram lá.
Entre os moradores com menos de trinta anos, o percentual sobe para 89%. Entre os nascidos no Distrito Federal, gente que estudou em escolas públicas da cidade e aprendeu história de Brasília no currículo local, o número ainda é de 71%.
Para efeito de comparação, na mesma pesquisa, 94% dos moradores já visitaram a Esplanada dos Ministérios, 88% já entraram na Catedral, 76% já subiram a Torre de Televisão e 61% já foram ao Memorial JK. O Catetinho aparece em último lugar entre as 14 atrações listadas, atrás inclusive do Santuário Dom Bosco, do Parque da Cidade e do Pontão do Lago Sul.
| Atração | Já visitou ao menos uma vez | |---|---| | Esplanada dos Ministérios | 94% | | Catedral de Brasília | 88% | | Torre de Televisão | 76% | | Memorial JK | 61% | | Palácio da Alvorada (visitação externa) | 58% | | Pontão do Lago Sul | 54% | | Santuário Dom Bosco | 49% | | Parque da Cidade | 47% | | Ermida Dom Bosco | 38% | | Jardim Botânico | 34% | | Museu Nacional | 31% | | Espaço Lucio Costa | 29% | | Estação Rodoferroviária | 26% | | Catetinho | 22% |
Por que ninguém vai
A pesquisa da Secretaria de Turismo também tentou entender o porquê. Entre os que disseram que nunca tinham ido ao Catetinho, as três justificativas mais frequentes foram, por ordem: "não sei onde fica" (34%), "é longe demais" (27%) e "achei que não existisse mais" (18%).
Somados, esses três motivos respondem por 79% das respostas. Só 6% citaram falta de interesse pelo tema histórico, e apenas 3% disseram nunca ter ouvido falar do lugar.
A percepção de distância é o dado que mais me incomoda. O Catetinho fica a 25 quilômetros da rodoviária do Plano Piloto, saindo pela BR-040 no sentido Luziânia.
São 32 minutos de carro num domingo de manhã sem trânsito. É mais perto do centro de Brasília do que a maioria das casas em Ceilândia, em Samambaia ou em Sobradinho 2.
A bilheteria cobra ingresso simbólico de cinco reais, cinco reais também o estacionamento, não precisa de agendamento, abre de terça a domingo das nove às cinco da tarde, e o site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tem o endereço completo na primeira linha da página. Mas na cabeça do brasiliense médio, segundo a pesquisa, o Catetinho está "longe demais".
Longe do quê, exatamente, é a pergunta que eu gostaria de fazer.
O movimento que cabe num ônibus
Os dados operacionais do próprio Catetinho, que o Iphan divulgou em janeiro no relatório anual de visitação dos bens tombados do Distrito Federal, confirmam o diagnóstico. Em 2025 o museu recebeu 22.630 visitantes ao longo do ano inteiro, o que dá uma média de 62 pessoas por dia.
Nos dias de semana fora de férias escolares, o número cai para uma média de 31 visitantes por dia. No mesmo ano de 2025, a Catedral de Brasília recebeu aproximadamente 1,9 milhão de visitantes, e o Memorial JK registrou 412 mil entradas pagas.
Uma única sessão de cinema de shopping, num sábado à tarde, costuma reunir mais gente do que o Catetinho inteiro numa quarta-feira.
O perfil dos visitantes também chama a atenção. Segundo o mesmo relatório do Iphan, 57% dos que passam pelo Catetinho no exercício anterior eram turistas vindos de outros estados ou países, principalmente estudantes de arquitetura em viagem de estudo, grupos de terceira idade em excursão e visitantes internacionais com roteiros Niemeyer.
Apenas 43% eram moradores do próprio Distrito Federal. Quando se recorta esse percentual por origem da visita, 72% dos brasilienses que foram lá no exercício anterior estavam acompanhando parentes de fora, ou seja, só foram ao Catetinho porque o primo de Minas ou o tio de São Paulo pediu.
Dez dias, sessenta e nove anos
A casa, para quem nunca entrou, é mais modesta do que a maior parte dos brasilienses imagina. Tem 600 metros quadrados de área construída, distribuídos em dois pavilhões conectados por uma passarela coberta.
O pavilhão principal abriga a sala, a copa, o escritório onde eu recebia o Israel Pinheiro, o Lucio Costa e o próprio Niemeyer em mesas redondas regadas a café preto, e o quarto onde dormi 28 vezes entre novembro de 1956 e maio de 1960. O pavilhão anexo tem os quartos da equipe, a cozinha e o banheiro dos funcionários.
O acervo preservado inclui o telefone de manivela pelo qual eu falava com o Palácio do Catete no Rio, o rádio Philco que ficava ligado no noticiário da manhã, a escrivaninha onde despachei dezenas de telegramas para o Rio pedindo que o Congresso liberasse mais crédito para as obras, e a cama de madeira maciça onde dormi o sono mais interrompido da minha vida.
O tombamento pelo Iphan foi homologado em 29 de abril de 1959, três dias antes da inauguração parcial da cidade. Foi o primeiro bem tombado do Distrito Federal, antes mesmo do Plano Piloto, que só ganharia a proteção federal em 1987.
O decreto de tombamento fala em "valor histórico insuperável" e "documento vivo da origem da nova capital". A presidente Dilma Rousseff incluiu a manutenção do Catetinho no orçamento federal como ação específica em 2013, e desde então o prédio passou por duas restaurações estruturais, em 2016 e em 2023, que preservaram a totalidade da madeira original e substituíram apenas as telhas e a fiação elétrica.
O que eu faria hoje
Se eu fosse o secretário de Turismo do Distrito Federal, ou o presidente do Iphan, ou o diretor da Fundação Athos Bulcão, eu começaria por três coisas muito simples. Primeiro, colocar o Catetinho no roteiro obrigatório dos ônibus turísticos que saem da Esplanada dos Ministérios todo fim de semana.
Hoje esses ônibus sobem a Torre, passam na Catedral, cruzam o Eixo Monumental, param no Memorial JK e voltam para o ponto inicial sem nunca descer a BR-040. Acrescentar 32 minutos de estrada e uma parada de quarenta minutos no Catetinho aumentaria o passeio em pouco mais de uma hora, e entregaria ao visitante o lugar onde tudo começou.
Segundo, incluir uma visita obrigatória ao Catetinho no currículo do nono ano das escolas públicas do Distrito Federal, com transporte custeado pelo Governo do Distrito Federal. Seriam cerca de 28 mil estudantes por ano, o que mais que dobraria a visitação anual da casa.
Terceiro, assumir publicamente que o lugar existe, e que é o mais antigo pedaço construído da cidade em que os brasilienses vivem.
Setenta anos depois da primeira noite que passei ali, a casa está inteira, o forno da cozinha ainda funciona, o telefone de manivela ainda atende. O que falta é visita.
E a visita, ao contrário do palácio, ninguém constrói em dez dias.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.