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A Candangolândia: onde os operários de JK construíram a primeira casa antes de Brasília nascer
Antes do Eixo Monumental existir, antes da pedra fundamental, antes da maquete que JK levou ao Catete, alguém precisou morar em algum lugar. Esse alguém foram os primeiros 1.800 operários da Novacap. O lugar foi a Candangolândia. E o ano foi 1956 — três anos antes da inauguração de Brasília.
A história oficial de Brasília costuma começar em 21 de abril de 1960, dia da inauguração. A história operária da capital começa quatro anos antes, em outubro de 1956, quando os primeiros barracões de madeira foram montados num terreno plano a 8 quilômetros do que viria a ser a Praça dos Três Poderes.
O lugar recebeu o nome de Candangolândia — a terra dos candangos.
O acampamento foi planejado pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) para abrigar os operários encarregados da terraplanagem, da abertura de estradas, da construção dos primeiros edifícios públicos. Era para ser provisório.
Duraria 18 meses, segundo o cronograma original. Hoje, sete décadas depois, ainda é onde moram 16 mil pessoas, muitas delas descendentes diretas dos candangos fundadores.
Quem foram os primeiros 1.800
Os primeiros operários vieram em três comboios. O primeiro, em outubro de 1956, trouxe 480 trabalhadores recrutados em Anápolis, Goiás.
O segundo, em dezembro, trouxe 720 vindos de Minas Gerais. O terceiro, em fevereiro de 1957, completou a leva inicial com 600 nordestinos, principalmente do Piauí, do Maranhão e da Bahia.
A maioria nunca tinha entrado num avião, num canteiro de obras grande ou numa cidade com mais de 50 mil habitantes. O Arquivo Público do DF mantém os contratos originais de admissão: salário de Cr$ 1.200 mensais para servente, Cr$ 2.800 para pedreiro, Cr$ 4.500 para mestre de obras.
A jornada era de 10 horas, seis dias por semana.
| Onda | Período | Operários | Origem principal | |---|---|---|---| | 1ª | Out/1956 | 480 | Anápolis, GO | | 2ª | Dez/1956 | 720 | Minas Gerais | | 3ª | Fev/1957 | 600 | Piauí, Maranhão, Bahia | | Reposição contínua | 1957-1959 | 12.000+ | Brasil inteiro |
A chamada reposição contínua é o que multiplicou o contingente. Em três anos, mais de 12 mil trabalhadores passaram pela Candangolândia.
Muitos seguiam para outras frentes, outros voltavam para casa, outros — a maior parte — ficavam.
A casa de madeira número 14
Das centenas de barracões originais, apenas 11 sobreviveram. O mais conhecido é o de número 14, na rua principal, que serviu como moradia de uma família de pedreiros mineiros entre 1957 e 1981.
Em 1996, foi tombado como patrimônio histórico do DF. Em 2008, virou museu.
A casa tem 42 metros quadrados, três cômodos, paredes de madeira de pinho, telhado de cavaco. O chão original era de terra batida — só ganhou cimento em 1962, num mutirão coletivo.
O fogão era a lenha. A água vinha de um poço cavado no quintal.
A luz elétrica chegou em 1959, quase dois anos depois da chegada da família.
Hoje a casa abriga objetos doados pelos descendentes: panelas de ferro, lampiões, uma máquina de costura Singer comprada a prestação em 1958, certidões de batismo de filhos nascidos no posto médico improvisado da Novacap. É o acervo material mais completo do que se chamou, à época, de "vida candanga".
O acervo de 4.300 fotografias
O Arquivo Público do DF guarda hoje 4.312 fotografias originais da Candangolândia entre 1956 e 1962. A coleção foi formada a partir de doações de famílias e da incorporação do arquivo fotográfico da própria Novacap, dissolvida em 1972.
As imagens mostram coisas que não aparecem nos registros oficiais. Mostram crianças brincando descalças entre maquinários.
Mostram casamentos celebrados em barracões adaptados como capela. Mostram velórios.
Mostram o primeiro time de futebol da Candangolândia, o Pioneiro, fundado em 1957. Mostram, sobretudo, gente trabalhando — gente carregando cimento, gente comendo na hora do almoço, gente lavando roupa em tanques coletivos.
| Acervo | Quantidade | |---|---| | Fotografias originais (1956-1962) | 4.312 | | Contratos de admissão preservados | 1.847 | | Casas originais tombadas | 11 | | Depoimentos orais gravados | 312 | | Objetos doados ao museu | 1.124 |
Em 2018, o acervo foi digitalizado integralmente em parceria com a Universidade de Brasília. Está disponível para consulta pública pela internet.
O download mais frequente é o de uma única foto: um grupo de 28 operários posando ao lado da máquina que abriu a primeira estrada do Eixo Monumental, em maio de 1957. Nenhum deles, segundo o pesquisador Hugo Segawa, teve seu nome registrado.
A virada do candango em morador
A Candangolândia foi a única das cidades-satélite originais que não foi removida nem transferida. O plano da Novacap previa que, ao fim das obras, os operários seriam reassentados em Taguatinga ou Sobradinho.
Boa parte foi. Outra parte ficou.
E essa parte se recusou a sair.
Em 1989, 33 anos depois da fundação, a Candangolândia foi finalmente reconhecida como Região Administrativa XIX do Distrito Federal. Os lotes foram regularizados, os barracões deram lugar a casas de alvenaria, e o bairro entrou no mapa formal da capital.
A pesquisa amostral de 2024 mostra um Candangolândia hoje com 16.300 habitantes, renda média domiciliar de 4,7 salários-mínimos, escolaridade superior à média do DF e um índice de envelhecimento populacional alto: 23% da população tem mais de 60 anos. São, em boa medida, os filhos dos candangos originais.
A memória que pesa
A Candangolândia é, talvez, o lugar mais sensível do calendário brasiliense. Em 21 de abril, o roteiro oficial de comemoração de Brasília sempre passa por ali.
O ato no Memorial JK, na rua principal, reúne descendentes, autoridades e moradores antigos. Em 2025, estavam presentes três filhos diretos de candangos da primeira leva.
Em 2026, restam dois.
O esforço de preservação enfrenta o tempo. As 11 casas originais exigem manutenção constante por causa da madeira.
O acervo fotográfico, embora digitalizado, depende de cuidados de conservação física dos negativos. Os depoimentos orais gravados nos anos 1990 já perderam parte do áudio por degradação das fitas — uma corrida contra o esquecimento que os pesquisadores tentam vencer transcrevendo tudo antes que os formatos morram.
A Candangolândia é o lugar onde Brasília começou em escala humana. Não com pedra fundamental nem com cerimônia inaugural.
Começou com um barracão, uma família, uma panela no fogão a lenha, uma criança correndo entre máquinas. Quem visita o museu sai com a impressão estranha de ter conhecido a capital antes mesmo de ela existir.
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