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A Esplanada teve 22 prédios projetados — três nunca foram construídos
Quando a gente planeja uma capital nova no meio do cerrado, planeja com a vaidade do homem e a humildade do engenheiro. A vaidade desenha 22 prédios. A humildade ergue 19. Os três que faltam não são esquecimento — são a parte da Brasília que ficou guardada na gaveta de Lúcio Costa, na cabeça de Oscar Niemeyer, e na ata daquela reunião de 1958 em que decidimos que dinheiro só dava para começar, não para terminar tudo. Os fantasmas dos três prédios que nunca foram continuam morando na Esplanada. Quem caminha por lá, se prestar atenção, ainda enxerga onde eles deveriam estar.
Ninguém me perguntou na época, e eu mesmo não percebi de imediato, que a Esplanada dos Ministérios — esta avenida cerimonial que virou cartão-postal do Brasil moderno — havia sido concebida com 22 blocos, e não com os 19 que hoje se erguem ao longo do eixo monumental. A diferença entre o projeto e a realidade é de três prédios.
Três blocos de concreto armado, três Ministérios completos, três conjuntos de elevadores, escadas, jardins suspensos e passarelas que existiram apenas no papel quadriculado de Lúcio Costa, no traço alongado de Oscar Niemeyer, e na imaginação coletiva de um país que acreditava, naquele final dos anos cinquenta, que tudo era possível bastando que se tivesse coragem. Coragem nós tivemos.
Dinheiro foi outra história.
O projeto que ninguém viu
A primeira versão do Plano Piloto, aquela apresentada no concurso de 1957, previa, ao longo do eixo monumental, uma sequência de blocos uniformes, espelhados em duas fileiras, formando um corredor cerimonial entre a Praça dos Três Poderes e a rodoviária. Lúcio Costa quis simetria.
Quis que o brasileiro, ao caminhar pela Esplanada, sentisse a mesma cadência arquitetônica que se sente nos grandes eixos de Versalhes, de Pequim, de Washington. A diferença é que Costa não era barroco nem clássico nem neoclássico — era moderno, e o moderno gostava de repetição com alma.
Por isso, em vez de palácios distintos para cada Ministério, propôs blocos idênticos, intercambiáveis, anônimos. A grandeza viria do conjunto, não do detalhe.
Niemeyer assinou os blocos. Eram caixas retangulares de concreto, vidro e mármore, com nove pavimentos, pilotis no térreo, e fachadas laterais com brises de cobogós.
O número original previsto era de 22 blocos — onze de cada lado do eixo. Cada bloco abrigaria um Ministério com suas dependências, e os três Ministérios mais importantes — Justiça, Relações Exteriores e Fazenda — receberiam edifícios anexos com tratamento arquitetônico próprio.
O Itamaraty e o Palácio da Justiça, hoje conhecidos como duas das obras-primas de Niemeyer, são exatamente esses anexos. Os 22 blocos uniformes seriam o cenário coletivo.
Os anexos seriam as joias.
Os três que ficaram para trás
Os prédios que ficaram para trás foram os blocos de número 20, 21 e 22 — os três últimos da fileira sul, os mais próximos da Praça dos Três Poderes. Por que justamente esses?
Porque o cronograma de obra começou pelo lado oposto, pela rodoviária, e foi avançando rumo ao Congresso. Quando a inauguração de 21 de abril de 1960 se aproximou, faltavam ainda quatro blocos para terminar a fileira.
Um deles, o de número 19, foi concluído às pressas, com fachada provisória que só virou definitiva em 1963. Os três restantes ficaram nas plantas, esperando recursos que nunca chegaram.
| Bloco | Destino previsto | Status final | Motivo | |-------|------------------|--------------|--------| | 20 | Ministério da Indústria | Não construído | Verba contingenciada em 1961 | | 21 | Ministério do Trabalho (anexo) | Não construído | Substituído por edifício avulso na 605 Sul | | 22 | Ministério da Aeronáutica (auxiliar) | Não construído | Migrou para o Setor Militar Urbano |
Em 1962, com Jânio Quadros já fora do Catete e João Goulart governando em meio à crise, o orçamento da Novacap foi cortado em 47%. Os três blocos saíram da lista de obras prioritárias.
Em 1964, com o golpe militar, o novo governo decidiu que a Esplanada estava arquitetonicamente acabada — a fileira de 19 blocos, embora assimétrica em relação ao projeto original, parecia suficiente. A simetria perfeita de Lúcio Costa nunca aconteceu.
E nunca aconteceria.
Os fantasmas urbanos
Quem caminha hoje pela Esplanada, vindo da rodoviária em direção ao Congresso, percebe sem perceber uma coisa estranha. A fileira de prédios diminui de cadência à medida que se aproxima do Eixo.
Os últimos três espaços, onde deveriam estar os blocos 20, 21 e 22, são apenas grama e pedra, com uma quadra de areia improvisada que serve a pelada de servidores na hora do almoço. Os arquitetos chamam esses vãos de fantasmas urbanos — espaços projetados que nunca foram preenchidos, mas que continuam a influenciar a percepção da paisagem.
O vazio onde deveria haver um prédio é, ele próprio, uma forma de presença.
Niemeyer, quando ainda era vivo, comentou sobre o tema em entrevista de 2007. Disse que sentia falta dos três blocos, mas que talvez a falta tivesse virado, com o tempo, parte da identidade da Esplanada.
A grama, segundo ele, ofereceu ao olho o respiro que o projeto original não previa. O cansaço visual da fileira monótona foi atenuado pela ausência justamente onde a fileira mais cansava.
Houve quem dissesse que Niemeyer estava se conformando com o que não pôde controlar. Mas houve também quem visse, na observação, uma sabedoria genuína — a de que o arquiteto, depois de erguida a obra, deixa de ser o dono dela, e quem assume a autoria final é o tempo.
O Ministério da Indústria que nunca foi
O bloco 20, o primeiro dos três fantasmas, abrigaria o Ministério da Indústria. Em 1959, esse Ministério ainda estava em formação — seria desmembrado do Ministério do Trabalho e da Indústria, criando duas pastas autônomas.
A nova pasta precisava de sede, e a sede prevista era ali, junto à rodoviária, com fachada virada para o Eixo Monumental. Quando o desmembramento foi adiado e depois reformulado, a sede perdeu seu inquilino.
Em 1965, com a criação do Ministério da Indústria e do Comércio sob a ditadura, a pasta foi instalada em prédio alugado no Setor Bancário Sul. Ali ficou por 23 anos, até migrar para o anexo do Ministério da Fazenda em 1988.
Nunca chegou à Esplanada.
A história do bloco 20 é, portanto, a história de um prédio que perdeu seu motivo de existir antes mesmo de ser erguido. Perdeu o inquilino, perdeu o cronograma, perdeu o orçamento, perdeu o momento histórico.
Quando o Brasil voltou a ter dinheiro para grandes obras, nos anos 70, os ministérios já não cabiam mais em blocos de nove andares — precisavam de edifícios de 15, 20, 25 pavimentos, com salas de informática, datacenters, garagens subterrâneas para dezenas de carros. O conceito de Lúcio Costa havia envelhecido.
O bloco 20 morreu não porque a verba acabou, mas porque o tempo passou.
A ata da reunião perdida
Em 1961, durante o curto governo Jânio Quadros, houve uma reunião na Novacap para decidir o destino dos blocos não construídos. Estavam presentes Israel Pinheiro, Ernesto Silva, representantes do Ministério da Fazenda e dois engenheiros da equipe de Niemeyer.
A ata desta reunião, segundo o Arquivo Público do Distrito Federal, foi extraviada em 1972, durante mudança das instalações da Novacap. Sabe-se, por correspondência paralela, que a reunião decidiu adiar a construção dos três blocos por dezoito meses, prevendo retomada em 1963.
A retomada nunca aconteceu. A ata extraviada talvez contivesse o último momento em que o projeto original ainda parecia recuperável.
Há uma melancolia particular nesses documentos perdidos. Brasília é uma cidade jovem cuja juventude já produziu seus próprios fantasmas burocráticos — atas que se perderam, plantas que não foram seguidas, decisões que ninguém lembra ter tomado.
O que sobrevive é a paisagem. E a paisagem, sendo silenciosa, não esclarece quais foram as escolhas e quais foram os acasos.
O que a ausência ensina
Termino esta crônica com uma reflexão que não cabe a mim, mas que arrisco: as cidades planejadas não são apenas o que se ergue. São também aquilo que ficou no rascunho.
Brasília é, simultaneamente, os 19 blocos da Esplanada e os três que jamais saíram da prancheta. Os ministérios reais e os ministérios fantasmas.
A simetria realizada e a simetria perdida. Quando alguém me perguntar se Brasília está terminada, responderei, com a honestidade que aprendi tarde demais, que nenhuma cidade está terminada — todas elas carregam, no avesso de seus quarteirões, os edifícios que poderiam ter sido erguidos e não foram.
Estes três blocos ausentes são, no caso, parte do patrimônio imaterial da capital. Não constam de tombamento porque não existem, e o IPHAN não tomba o que não foi construído.
Mas existem, sim, na memória de quem leu as plantas originais, na fotografia aérea que mostra o vazio do eixo final, e na grama que substitui o concreto que faltou. Em Brasília, até as ausências têm endereço.
E os endereços vagos, nesta cidade onde tudo é simbólico, dizem tanto quanto os endereços ocupados.
Confesso, por fim, certa simpatia pelos três fantasmas. São prédios que jamais decepcionaram, jamais se mostraram menores do que o sonho.
Existem na sua forma mais pura: a do projeto. E o projeto, todos sabem, é sempre mais belo do que a obra.
Quem sabe não esteja aí o segredo da poesia urbana — em deixar, em toda cidade, alguns blocos por construir. Para que sobre, ao menos, um pedaço de futuro mesmo nas capitais que já têm passado.
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