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A rodoviária de Brasília tem 1.800 ambulantes cadastrados — o shopping do povo que nunca fecha
São 4h30 da manhã quando dona Eunice abre a primeira lona. Vende bolsa, cinto, carteira. Antes dela, só os varredores. Daqui a uma hora, a Rodoviária do Plano Piloto vai começar a engolir 700 mil pessoas em um único dia. Ela vai estar lá, como nos últimos 23 anos.
A Rodoviária do Plano Piloto é a estrutura de transporte que mais movimenta gente no Centro-Oeste. Por dia útil, passam cerca de 700 mil pessoas em transferência entre ônibus, metrô, BRT e a parada central de táxis.
Pelos dados do DFTrans, é o segundo terminal mais movimentado do Brasil em rotatividade — atrás apenas do Tietê, em São Paulo.
O que poucos visitantes ocasionais percebem é que, embaixo da estrutura de concreto projetada por Lúcio Costa, existe uma cidade comercial inteira. O cadastro da Administração Regional do Plano Piloto, atualizado em fevereiro de 2026, registra 1.812 ambulantes formalmente autorizados a operar nos corredores, mezaninos e na chamada praça central.
Estima-se que outros 400 trabalhem informalmente.
A geografia do comércio
O comércio da rodoviária se distribui por três níveis. No mezanino superior, ficam as lojas de departamento, lanchonetes, óticas e bancas de revista — 312 pontos.
No nível térreo, estão as lojas de calçados, roupas e eletrônicos importados — 488 estabelecimentos. No nível inferior, mais próximo das plataformas de embarque, está o reino dos ambulantes propriamente ditos: lonas, carrinhos, tabuleiros, cestos.
| Nível | Tipo | Pontos | |---|---|---| | Mezanino superior | Lojas formais | 312 | | Térreo | Lojas formais | 488 | | Inferior | Ambulantes cadastrados | 1.812 | | Plataformas | Carrinhos de comida | 184 | | Estimativa de informais | Não cadastrados | 400 |
O movimento de dinheiro é difícil de estimar com precisão, mas a Codeplan publicou em janeiro de 2026 um estudo que projeta o comércio popular da rodoviária em R$ 220 milhões por ano. É mais do que o faturamento somado de algumas Regiões Administrativas inteiras.
Quem vende, quem compra
O perfil do ambulante cadastrado tem 47 anos em média, é mulher em 58% dos casos e mora a mais de 20 quilômetros do trabalho. As cidades de origem são, em ordem: Ceilândia, Samambaia, Santa Maria, Planaltina e Recanto das Emas.
Trabalham, em média, 11 horas por dia. Pagam à Administração Regional uma taxa mensal de R$ 230 pelo ponto.
Muitos somam a isso um aluguel informal pago a quem detém o ponto há mais tempo, prática que a fiscalização tenta desmontar há anos sem sucesso.
O cliente da rodoviária também tem perfil definido. Segundo o Sebrae-DF, 71% dos compradores moram fora do Plano Piloto, têm entre 25 e 45 anos e fazem compras de impulso enquanto aguardam ônibus ou metrô.
O ticket médio é baixo — R$ 38 — mas a frequência é alta: 38% dos consumidores compram alguma coisa pelo menos uma vez por semana.
| Perfil do ambulante | Dado | |---|---| | Idade média | 47 anos | | Mulheres | 58% | | Tempo médio na rodoviária | 12 anos | | Jornada média diária | 11 horas | | Origem mais comum | Ceilândia | | Ticket médio do cliente | R$ 38 |
Os ciclos do dia
A rodoviária tem cinco picos distintos de movimento. O primeiro é entre 5h e 7h, quando os trabalhadores chegam de Ceilândia, Taguatinga, Samambaia para o turno do Plano Piloto.
Os ambulantes que vendem café, lanche, salgado e produtos de farmácia rápida fazem mais da metade do faturamento do dia nessa janela.
O segundo é o pico do almoço, entre 11h30 e 13h30, com forte demanda por alimentação rápida. O terceiro vem entre 16h e 19h, no movimento de retorno.
O quarto, mais discreto, fica entre 19h e 21h, alimentado por estudantes universitários e trabalhadores do turno noturno. O quinto é o pico noturno, entre 22h e 0h, quando o público muda completamente: passa a ser dominado por garçons, seguranças, motoristas de aplicativo e funcionários de hospitais.
A rodoviária formalmente fecha as portas da estação às 0h30 e reabre às 4h. Mas o comércio subterrâneo nunca apaga totalmente.
Há padarias 24 horas, lanchonetes em sistema de revezamento, e carrinhos de café que ficam estacionados aguardando o início do próximo ciclo.
A briga pelo cadastro
O cadastro de ambulantes virou disputa permanente desde 2014, quando a Administração Regional fechou novas inscrições. De lá para cá, os pontos só são repassados por sucessão familiar, o que gerou um mercado informal de transferência.
Em 2024, uma operação da Controladoria-Geral identificou cerca de 90 pontos sendo subalugados ilegalmente, com valores que iam de R$ 1.200 a R$ 4.500 mensais.
A pressão por novas inscrições é constante. A fila informal de espera, mantida por uma associação de comerciantes, tem hoje 340 nomes.
A Administração Regional estuda reabrir o cadastro em 2026, mas com limite de 100 vagas e sorteio público.
O que a rodoviária ensina
Para os economistas da Codeplan, a rodoviária funciona como um laboratório raro: é um ambiente onde se observa, em poucas centenas de metros quadrados, todos os comportamentos típicos do varejo brasileiro de baixa renda. Compra de impulso, fidelidade ao vendedor pessoal, pagamento parcelado em pequenos valores, troca de favores, cobrança baseada em confiança.
O Sebrae usa parte dessa observação para treinar pequenos comerciantes do entorno do DF. A lógica é simples: quem aguenta vender 11 horas por dia, sob pressão de fluxo, em ponto disputado e com cliente de baixa margem, sabe muita coisa que não se aprende em curso.
Dona Eunice resume isso com uma frase que repete há 23 anos: aqui não se vende quando tem cliente, aqui se vende todo segundo, porque o cliente passa e não volta.
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