
Estudantes embarcam no terminal rodoviário de Valparaíso antes das 5h em direção a Brasília. Foto: Arquivo Codeplan/cessão.
O dormitório de quatro camas: como estudantes do Entorno enfrentam três horas de ônibus por dia para estudar em Brasília
São 4h38 da manhã quando Natália Ribeiro acende o abajur ao lado da cama. Divide o quarto com duas irmãs e uma prima. O dormitório tem quatro camas, uma cômoda e uma foto desbotada da formatura do ensino médio. Em 22 minutos, ela precisa estar no ponto de ônibus da Avenida Central de Valparaíso II.
São 4h38 da manhã quando Natália Ribeiro acende o abajur ao lado da cama. Ela divide o quarto com duas irmãs mais novas e uma prima que veio de Unaí há três meses depois que o pai morreu.
O dormitório tem quatro camas de solteiro encaixadas em menos de 12 metros quadrados, uma cômoda de madeira arranhada e uma foto desbotada da formatura do ensino médio colada no espelho. Em 22 minutos, Natália precisa estar no ponto de ônibus da Avenida Central de Valparaíso II.
Se perder o ônibus das 5h05, chega atrasada na aula de Cálculo I no Instituto de Ciências Exatas da Universidade de Brasília.
Ela faz esse percurso, de segunda a sexta-feira, desde fevereiro de 2024. Passou no vestibular para Matemática.
Tinha 18 anos. Foi a primeira pessoa da família a entrar numa universidade federal.
A geografia do cansaço
Os dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan, divulgados em sua última edição de 2024, registram um fenômeno que qualquer motorista que pega a BR-040 entre 5h e 7h da manhã conhece de cor: o Entorno do Distrito Federal abriga aproximadamente 1,6 milhão de pessoas distribuídas em 12 municípios goianos e um mineiro. Destas, a estimativa é que entre 450 mil e 520 mil trabalhem ou estudem diariamente no Distrito Federal.
O recorte de estudantes, especificamente, é menor, mas cresce ano após ano. Segundo estimativa feita a partir do cruzamento de dados da Secretaria de Educação do Estado de Goiás e dos registros de matrícula das universidades federais e escolas técnicas federais do DF, há pelo menos 38 mil estudantes residentes no Entorno que se deslocam regularmente para o Distrito Federal com finalidade educacional.
Cerca de 9 mil são estudantes de ensino superior público.
| Município de origem | Distância a Brasília | Tempo médio de viagem (horário de pico) | Tarifa de ônibus (ida) | |---------------------|----------------------|----------------------------------------|-----------------------| | Valparaíso de Goiás | 38 km | 1h40 a 2h10 | R$ 6,60 | | Luziânia | 62 km | 2h00 a 2h30 | R$ 7,90 | | Novo Gama | 42 km | 1h50 a 2h15 | R$ 6,60 | | Cidade Ocidental | 46 km | 1h55 a 2h20 | R$ 7,20 | | Águas Lindas | 55 km | 2h15 a 2h45 | R$ 8,50 | | Santo Antônio do Descoberto | 62 km | 2h20 a 2h50 | R$ 8,50 | | Formosa | 79 km | 2h00 a 2h40 | R$ 11,40 | | Planaltina de Goiás | 40 km | 1h45 a 2h10 | R$ 6,60 |
O valor da passagem merece atenção. Uma estudante que mora em Águas Lindas e estuda na UnB gasta, sem contar transporte interno, R$ 17,00 por dia, R$ 85 por semana, R$ 340 por mês — apenas em ônibus intermunicipal.
Em uma família cuja renda total seja de dois salários mínimos, como é o caso de boa parte dos lares do Entorno, isso representa 11% do orçamento mensal desaparecendo em combustível e pedágio.
A madrugada de Natália
Natália entra no ônibus da viação Real Expresso às 5h04. O veículo, que sai do terminal rodoviário de Valparaíso II, já chega com 18 pessoas em pé.
Ela consegue um banco porque é uma das primeiras a embarcar. Coloca os fones de ouvido e abre o caderno de Cálculo sobre o colo.
Tenta revisar a lista de exercícios que não conseguiu terminar na noite anterior porque a irmã mais nova estava com febre.
"Estudar no ônibus é uma ilusão que a gente cria para não se sentir perdendo tempo. Na verdade não dá para estudar direito.
A letra tremelica, o pessoal conversa, o motor é barulhento, de vez em quando alguém fica em pé na sua frente e você não enxerga mais nada", ela conta, sem levantar os olhos do caderno.
Às 5h47, o ônibus para no pedágio do Entorno Sul. Nove minutos de espera.
Às 6h03, cruza a divisa com o Distrito Federal. Às 6h34, chega ao Park Way.
Às 6h51, desembarca na Rodoviária do Plano Piloto. Natália desce, atravessa a plataforma, embarca no ônibus 109.1 do DFTrans sentido UnB.
Às 7h14, finalmente pisa no Instituto Central de Ciências. A aula de Cálculo começa às 7h30.
Ela tem 14 minutos para ir ao banheiro, encher a garrafa de água, comer uma banana comprada no sinal e respirar.
O mapa invisível da rotina
Os sociólogos da Codeplan que estudam o fenômeno há mais de duas décadas chamam isso, em relatório publicado no ano passado, de "migração pendular educacional" — e alertam para um dado que raramente aparece nas conversas sobre políticas públicas: o tempo total de deslocamento diário de um estudante universitário do Entorno, considerando ida, baldeação e volta, varia entre 4h10 e 5h40.
Em um dia de aula de oito horas, isso significa que o estudante passa mais tempo em trânsito do que dentro da sala. Em uma semana, são entre 21 e 28 horas — o equivalente a um trabalho de meio período, sem remuneração, sem descanso, sem reconhecimento.
A antropóloga Clara Vasconcelos, que pesquisou durante três anos a rotina de 117 estudantes universitários do Entorno para sua tese de doutorado na UnB, registrou um padrão que explica boa parte da evasão: "O corpo não aguenta. O estudante que sai de casa às 4h30 e chega de volta às 23h entra em um ciclo de privação de sono que, em seis meses, começa a destruir a capacidade de concentração.
Dorme entre quatro e cinco horas por noite. Os exames pré-frontais que fizemos mostraram déficit cognitivo compatível com estresse crônico.
Não é falta de talento. É corpo cansado demais para aprender."
Os que desistem e os que continuam
A taxa de evasão dos estudantes do Entorno nos cursos de graduação da UnB, segundo levantamento do Decanato de Ensino de Graduação de 2024, é aproximadamente 1,8 vez maior que a dos estudantes residentes no Plano Piloto e em Taguatinga. Nos cursos de engenharia e nas licenciaturas exatas, a diferença chega a 2,3 vezes.
Metade dos que desistem abandona o curso nos dois primeiros semestres.
Mas também é preciso dizer o que os números do outro lado contam. Entre os que concluem, os estudantes do Entorno apresentam, em média, desempenho acadêmico ligeiramente superior ao da média do curso.
Passam com notas mais altas. Formam-se em tempo próximo ao regular.
Ingressam no mercado de trabalho em posições técnicas compatíveis com a formação.
"A gente termina com nota boa porque não tem plano B", resume Natália, sem vaidade, encarando a tela do celular onde abriu o caderno digital entre uma aula e outra. "Se eu desistir, eu volto para Valparaíso sem diploma, pego um trabalho no supermercado e fico presa lá para sempre.
Então não dá para desistir. A única alternativa é aguentar."
O dormitório de quatro camas
Voltemos ao quarto de Valparaíso II. Às 22h47, Natália desce do último ônibus e anda oito minutos até em casa.
Janta um prato de arroz com ovo esquentado no micro-ondas. Toma banho.
Senta à mesa da cozinha para terminar a lista de exercícios que começou no ônibus da manhã. Às 0h19, deita na cama.
A prima já está dormindo. A irmã menor ronca baixinho.
O despertador está armado para 4h20.
Faltam, segundo a grade do curso, mais três anos, cinco meses e três semanas até a formatura.
Natália desliga o abajur.
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