
Lavoura de soja em Cristalina, a 130 quilômetros da Esplanada dos Ministérios
A soja do Entorno atravessa o Torto e alimenta 200 mil famílias no DF
O cinturão agrícola do Entorno do Distrito Federal movimentou R$ 28,4 bilhões em 2024, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, abastecendo a Central de Abastecimento do Distrito Federal e cerca de 200 mil famílias da capital com produtos do município vizinho.
A soja do Entorno atravessa o Torto e alimenta 200 mil famílias no DF
Quando o caminhão sai da fazenda de Cristalina às quatro da manhã, com vinte e seis toneladas de soja na carroceria, ninguém em Brasília está acordado. O motorista é Roberval, 52 anos, gaúcho que veio para Goiás em 1991 e nunca mais quis voltar.
Ele faz a BR-040 sentido capital, passa a portaria do Torto pouco antes das seis, e entrega no armazém da cooperativa em Brazlândia antes do café da manhã do brasiliense médio. De lá, parte da carga vira ração para granja, parte vira óleo, parte é exportada via porto seco, e uma fração mínima — mas ainda assim relevante — atravessa a cidade e termina como tofu artesanal num restaurante vegano da Asa Sul.
Esse percurso, que ninguém vê e ninguém comemora, é a versão simplificada de uma cadeia produtiva que movimentou R$ 28,4 bilhões em 2024, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil divulgados em fevereiro. É o cinturão agrícola do Entorno do Distrito Federal — um conjunto de vinte municípios goianos e mineiros que orbitam a capital num raio de duzentos quilômetros e que, sem alarde, alimenta a cidade que mais recebe visita oficial do país.
A geografia do alimento
O cinturão é desenhado em três anéis concêntricos. No primeiro, a até 80 quilômetros do Plano Piloto, ficam Luziânia, Valparaíso, Cidade Ocidental e Novo Gama, todos em Goiás, e Unaí, em Minas Gerais.
No segundo, até 140 quilômetros, entram Cristalina, Formosa, Planaltina de Goiás, Padre Bernardo e Cabeceiras. No terceiro, até 200 quilômetros, aparecem Vianópolis, Catalão, e o cerrado mineiro de Paracatu.
Cada anel tem uma vocação. O primeiro produz hortifruti — alface, tomate, pimentão, abóbora, cenoura, batata-doce, banana — e abastece sobretudo a Central de Abastecimento do Distrito Federal, a Ceasa, em Brasília.
O segundo, mais distante, é o reino da soja, do milho e da pecuária leiteira intensiva, com lavouras irrigadas por pivô central e índices de produtividade que rivalizam com os de Mato Grosso. O terceiro é grão para exportação e pecuária extensiva.
| Município | Distância de Brasília | Cultura predominante | Produção 2024 | |-----------|----------------------|---------------------|---------------| | Luziânia (GO) | 60 km | Hortifruti, milho | R$ 1,8 bi | | Cristalina (GO) | 130 km | Soja, milho, batata | R$ 6,2 bi | | Unaí (MG) | 170 km | Soja, leite, café | R$ 4,9 bi | | Formosa (GO) | 80 km | Pecuária, milho | R$ 2,1 bi | | Padre Bernardo (GO) | 90 km | Hortifruti, banana | R$ 0,9 bi | | Paracatu (MG) | 200 km | Soja, milho, pecuária | R$ 3,7 bi |
A Ceasa-DF processa por dia, em média, 1.420 toneladas de hortifruti, segundo seu próprio relatório operacional de fevereiro. Cerca de 71% desse volume vem do cinturão do Entorno.
Os 29% restantes chegam de São Paulo, Pernambuco, Bahia e Ceará — fruta tropical, sobretudo, que o cerrado não produz com eficiência. O resto, o que cabe na sacola da feira da 308, é colhido a menos de cento e cinquenta quilômetros do supermercado.
A invisibilidade contábil
Há um detalhe estatístico que merece registro. O Distrito Federal aparece, nas estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com participação agropecuária ínfima — 0,8% do PIB local.
O número está correto, mas é enganoso. A agricultura que sustenta o consumo brasiliense não acontece dentro das fronteiras do DF.
Acontece em Goiás, e contabilmente entra no PIB goiano.
Para o morador da Asa Sul que compra alface orgânica na feira da 214, isso é irrelevante. A alface é a mesma.
Para o economista que analisa concentração setorial, no entanto, é uma distorção sistemática. O Distrito Federal tem uma agropecuária muito maior do que aparenta, só que ela está geograficamente do lado de fora.
A Embrapa Cerrados, com sede em Planaltina, calcula que o consumo de alimentos in natura no Distrito Federal — frutas, verduras, legumes, carnes, leite — gere uma demanda equivalente a R$ 12,8 bilhões por ano. Cerca de 78% desse valor é abastecido por produtores do cinturão do Entorno.
Os 22% restantes vêm de fora, sobretudo São Paulo e o Vale do São Francisco baiano e pernambucano.
É uma cadeia curta para padrões brasileiros, e isso tem efeitos práticos importantes. O tempo médio entre colheita e prateleira do hortifruti consumido em Brasília é de 36 horas, segundo a Ceasa.
Em São Paulo, é de 62 horas. No Rio de Janeiro, 71.
Quando o brasiliense reclama do preço, ele tem razão. Quando reclama do frescor, em geral, não tem.
As 200 mil famílias
O número que dá título à matéria não é metáfora. É cálculo.
A Codeplan, a partir de cruzamento entre a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios e os dados de consumo da Ceasa, estima que aproximadamente 200 mil famílias do Distrito Federal — o equivalente a 580 mil pessoas, ou 18% da população local — consumam regularmente, semanalmente, produtos cuja origem direta é o cinturão do Entorno. São famílias de feira, de horta caseira, de cooperativa de consumo orgânico, de pequeno mercado de bairro.
Essas famílias não sabem que dependem de Cristalina nem precisam saber. Mas dependem.
E a cadeia que sustenta esse hábito é mais frágil do que parece. Bastou, em 2021, uma greve de caminhoneiros de quatro dias para que as gôndolas de hortifruti dos supermercados do Plano Piloto ficassem visivelmente vazias.
A Ceasa registrou queda de 64% no abastecimento naquela semana. O brasiliense viu, pela primeira vez em décadas, o que significa não ter alface.
O agronegócio que ninguém celebra
Há, no debate público brasileiro, uma narrativa polarizada sobre o agronegócio. De um lado, quem o vê como vilão ambiental e símbolo de elite.
De outro, quem o trata como religião nacional e motor único do crescimento. As duas posições, no caso específico do cinturão do Entorno, são insuficientes.
O que existe ali, no recorte que abastece o Distrito Federal, é uma mistura. Há grandes fazendas de soja com pivô central, propriedade de famílias gaúchas e paranaenses que migraram para o cerrado nos anos 1980 e que faturam dezenas de milhões por ano.
Há pequenos produtores de hortifruti, em geral filhos de migrantes nordestinos, que tocam três hectares e vivem de levar caixote de tomate à Ceasa três vezes por semana. Há cooperativas de leite tocadas por descendentes de italianos em Unaí.
Há assentamentos da reforma agrária produzindo banana orgânica em Padre Bernardo. Há até um pequeno polo de café especial em Paracatu, vendendo grão a torrefadores artesanais da capital.
Tratar tudo isso como um bloco homogêneo é tão errado quanto tratar a indústria automobilística do ABC paulista como sinônimo de toda a economia paulista. A cadeia é complexa, hierarquizada, e a maior parte do valor adicionado fica com os elos mais próximos do consumidor — supermercado, distribuidor, empresa de logística — e não com quem planta.
O brasiliense que compra mandioca a quatro reais o quilo no supermercado da quadra 405 está pagando, em média, três vezes o que o produtor de Padre Bernardo recebeu pela mesma raiz. Esse desequilíbrio é o mesmo de qualquer cadeia alimentar do mundo.
Não é particularidade local. Mas é particularmente visível, aqui, porque a distância física entre quem planta e quem consome é tão pequena que dá vontade de levar o supermercado direto à roça.
O cinturão que continua
A área plantada do cinturão do Entorno cresceu 11% nos últimos cinco anos, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. A produtividade média por hectare, mais do que a área, foi o fator central do aumento de produção.
A soja de Cristalina hoje rende, em média, 3.640 quilos por hectare — número que coloca o município entre os dez mais produtivos do país, à frente de boa parte de Mato Grosso.
A irrigação por pivô central, que transformou o Cerrado em celeiro mundial, é a base técnica desse desempenho. O cinturão do Entorno tem 1.840 pivôs centrais ativos, segundo a Embrapa Cerrados, somando uma área irrigada de aproximadamente 142 mil hectares.
Cada um desses pivôs é uma engrenagem silenciosa que faz com que, mesmo no pior verão seco, exista alface verde na feira da 308 ao meio-dia.
Roberval, o motorista do começo desta matéria, fará nesta semana a mesma viagem que faz há trinta e quatro anos. Sai de Cristalina às quatro da manhã, atravessa o Torto antes do nascer do sol, descarrega antes do café.
Não saberá o nome de ninguém que vai comer aquela soja. Ninguém vai saber o nome dele.
E é assim que cidade se alimenta.
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