
Caminhões descarregam hortifrúti na madrugada da Ceasa-DF, em Brasília
A feira do produtor da Ceasa movimenta R$ 1,2 bilhão por ano e abastece 8 estados
A Ceasa-DF fechou 2025 com R$ 1,21 bilhão em comercialização de hortifrúti e despachou carga para oito estados — Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso —, consolidando Brasília como o segundo maior entreposto do Centro-Oeste, atrás apenas da Ceasa de Goiânia.
A feira do produtor da Ceasa movimenta R$ 1,2 bilhão por ano e abastece 8 estados
Às três horas da manhã, o portão três da Ceasa do Distrito Federal já está escuro de gente. Caminhão baú, caminhonete caçamba, van refrigerada, carrinho de mão.
A luz amarela dos postes cai em cima das caixas de madeira empilhadas sem pressa. O cheiro é de coentro fresco, goiaba madura, cenoura com terra.
O movimento não é feira de bairro. É entreposto continental.
A Centrais de Abastecimento do Distrito Federal fechou 2025 com R$ 1,21 bilhão em movimentação. São 620 mil toneladas de hortifrutigranjeiros entrando e saindo pelos seus portões, o que faz dela o segundo maior entreposto do Centro-Oeste, atrás apenas de Goiânia, e o sétimo maior do Brasil.
E boa parte dessa carga não fica em Brasília. Ela passa por aqui.
O que entra e o que sai
O relatório de comercialização da Ceasa-DF separa por origem da carga e por destino. A tabela abaixo resume o ano de 2025.
| Categoria | Volume (toneladas) | Valor (R$ milhões) | |---|---|---| | Folhas, ervas e hortaliças | 148.200 | 312 | | Frutas de clima tropical | 210.640 | 428 | | Frutas de clima temperado | 64.320 | 181 | | Raízes, tubérculos e bulbos | 91.540 | 140 | | Cereais, grãos e leguminosas | 52.080 | 78 | | Flores, plantas e ornamentais | 14.220 | 44 | | Outros hortifrúti | 39.000 | 27 | | Total | 620.000 | 1.210 |
A origem é diversa. Cerca de 39% da carga vem do próprio Distrito Federal e do entorno goiano, principalmente de Cristalina, Luziânia, Planaltina de Goiás, Formosa e Unaí, do Triângulo Mineiro.
Outros 28% descem do Sul de Minas, com batata, cenoura e frutas temperadas. Quinze por cento vêm do Nordeste, basicamente Pernambuco, Bahia e Ceará, com melão, manga, uva, abacaxi e coco.
Os 18% restantes se espalham entre São Paulo, Paraná e Mato Grosso.
O destino também espanta quem nunca olhou a planilha. Só 64% da carga fica na região metropolitana de Brasília.
Trinta e seis por cento saem daqui para abastecer feiras, supermercados e distribuidoras de outros oito estados.
A madrugada que não dorme
Quem vai pela primeira vez à Ceasa na madrugada encontra uma cidade dentro da cidade. O entreposto ocupa 96 hectares no Setor de Indústria e Abastecimento e tem cerca de 1.200 boxes permanentes, distribuídos em seis pavilhões.
A Feira do Produtor, que funciona em um pavilhão próprio, abre às três da manhã de terça, quinta e sábado, e é ali que o pequeno agricultor do entorno encontra o comprador direto.
Existem três tipos de comprador circulando nesse horário. O primeiro é o atacadista de médio porte, que levanta dezenas de caixas e abastece restaurantes, hotéis e cantinas escolares.
O segundo é o dono de quitanda de bairro, de Taguatinga, Sobradinho, Gama e Luziânia, que compra o suficiente para encher um Fiorino. O terceiro é o redistribuidor, que carrega o caminhão e parte para Palmas, Imperatriz, Araguaína, Barreiras, Luís Eduardo Magalhães ou Paragominas.
O redistribuidor é a peça que transformou Brasília em hub. Ele tira de um único entreposto, em uma única viagem, uma cesta variada que seria cara demais de compor em cada origem.
Folha de Cristalina, fruta de Petrolina, batata de São Gotardo, coco da Bahia, alho da Argentina importado por São Paulo. Tudo no mesmo baú.
Por que Brasília virou nó
A geografia ajuda. Brasília está a menos de 1.000 quilômetros de capitais como Goiânia, Belo Horizonte, Palmas, Teresina, Salvador e Cuiabá.
A malha rodoviária que corta o Cerrado converge para cá. BR-040, BR-050, BR-060, BR-070, BR-080, BR-251, BR-010 e BR-020 passam por Brasília ou tangenciam o entorno imediato.
A infraestrutura ajuda. O entreposto foi reformado em etapas ao longo dos últimos dez anos, ganhou câmaras frias climatizadas, balança rodoviária moderna e um terminal de lavagem e higienização de frutas.
A área útil de armazenamento hoje passa de 45 mil metros quadrados.
A escala ajuda. Quando um produtor da chapada do Planalto Central, de Cristalina, precisa escoar 20 mil caixas de cenoura, ele sabe que a Ceasa-DF tem liquidez.
Tem comprador suficiente para limpar o caminhão no mesmo dia, e tem cotação transparente divulgada pela Conab e pelo próprio entreposto.
Os gargalos que limitam o crescimento
Nem tudo funciona bem. Três gargalos aparecem no relatório anual do entreposto, assinados por engenheiros agrônomos da própria Ceasa.
O primeiro é o trânsito de entrada. A entrada pelo SIA congestiona nas madrugadas de terça e sábado, com fila de caminhão chegando a estender por quase dois quilômetros.
A Novacap discute há três anos uma obra de binário, mas ainda não saiu do papel.
O segundo é o desperdício. Estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária estima que 12% da carga de folhas e 8% da carga de frutas tropicais que chega à Ceasa-DF é descartada por má conservação antes de ser comercializada.
É cerca de 56 mil toneladas perdidas por ano, o que daria, em valor, R$ 98 milhões.
O terceiro é a informalidade do catador. Existe uma economia secundária de cerca de 400 pessoas que vivem da seleção de caixas descartadas.
Parte dessa seleção vira cesta popular distribuída na Estrutural, parte é revendida em feiras informais. A Ceasa tenta organizar esse grupo dentro de uma cooperativa desde 2022, com avanço lento.
O produtor pequeno e a feira de quinta
A parte mais visível da Ceasa-DF para o morador comum é a Feira do Produtor da quinta-feira. Ali, dentro do entreposto, o pequeno agricultor do entorno vende direto ao consumidor, sem atravessador.
O preço costuma ficar 30% a 40% abaixo do supermercado do Plano Piloto. Quem mora no Lago Sul ou na Asa Sul e atravessa para comprar alface crespa, tomate italiano ou morango do Brasil Central sente a diferença.
Mas a feira de quinta é só a ponta. O volume pesado, o que movimenta R$ 1,2 bilhão ao ano, passa pelo atacado da madrugada, longe dos olhos do brasiliense médio.
É um circuito invisível de caminhão, balança, prancheta e dinheiro vivo que liga o chão do Cerrado à mesa de oito estados.
Enquanto o brasiliense dorme, a Ceasa trabalha. E enquanto ela trabalha, Brasília vira aquilo que, no mapa, sempre foi vocação e poucas vezes foi projeto: o centro de abastecimento do Brasil Central.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.