
Mirante News
O brasiliense que leu mais em 2025 que em qualquer ano anterior: livros físicos voltaram
Confesso ao leitor, com a cautela que convém a assunto delicado, uma das notícias mais curiosas do ano que findou: o brasiliense voltou a comprar livro de papel. Sim, aquele objeto antigo, pesado, que ocupa lugar nas prateleiras e exige luz acesa para ser lido. O mesmo objeto que, havia dez anos, os arautos da modernidade já declaravam sepultado ao lado do disco de vinil, do telefone de disco e do bom humor na classe média. Pois o defunto, ao que parece, resolveu sentar-se no caixão e pedir um café.
Permita-me o leitor começar por um paradoxo, que é como os bons textos devem começar quando tratam de assuntos inesperados. Durante quinze anos, ouvi repetidamente — em palestras, em suplementos literários, em confidências de editores cansados — que o livro físico era uma espécie em extinção.
Os argumentos eram respeitáveis: o e-reader é mais prático, o aplicativo de áudio é mais rápido, o streaming é mais barato, a geração nova não lê, a geração velha não enxerga. Cada um desses argumentos, tomado isoladamente, parece irrefutável.
Somados, formavam uma sentença de morte.
Foi por isso que me surpreendi, ao compulsar os dados divulgados pela Câmara Brasileira do Livro referentes a 2025, ao descobrir que o defunto não apenas não morreu, como cresceu de peso. O mercado editorial brasileiro fechou o ano com aumento real de oito vírgula dois por cento nas vendas de livros físicos, segundo o Painel do Varejo publicado em fevereiro deste ano.
E o Distrito Federal, surpreendentemente, figurou entre as cinco unidades da federação com maior crescimento proporcional — atrás apenas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná.
O que os números dizem
Sou pouco amigo de estatísticas, como o leitor sabe, mas ocasionalmente elas prestam um serviço: servem para confundir certezas. Vejamos as certezas que este painel confundiu.
| Indicador | 2023 | 2024 | 2025 | Variação | |-----------|------|------|------|----------| | Livros físicos vendidos no DF (milhões de unidades) | 2,1 | 2,3 | 2,8 | mais 22% | | Livrarias independentes abertas no DF | 3 | 7 | 14 | mais 100% | | Clubes de assinatura de livro ativos no DF | 6 | 11 | 19 | mais 72% | | E-books vendidos por brasilienses (milhões) | 1,8 | 1,7 | 1,5 | menos 11% |
Leitor, note a curiosidade: enquanto o livro de papel crescia vinte e dois por cento, o livro eletrônico encolhia onze. Não é que o brasiliense tenha parado de comprar e-book.
É que, dado o dilema, passou a preferir o papel. Preferência, aliás, que contraria quase todas as previsões sérias feitas entre 2015 e 2022 por consultorias de mercado cujo nome, por discrição, omito.
Três hipóteses para o fenômeno
Proponho ao leitor três explicações, todas parciais, todas discutíveis, nenhuma definitiva — que é como devem ser as explicações honestas.
A primeira hipótese é a da fadiga de tela. Depois de quase dez anos em que a humanidade passou a viver diante de retângulos luminosos, desde o escritório até o jantar, desde o elevador até o travesseiro, o olho humano fatigou-se.
Ler um livro físico passou a ser, para muitos, o único momento do dia em que o cérebro não está competindo com notificação, propaganda e algoritmo. O papel tornou-se descanso.
E o descanso, em nosso tempo, é luxo caro.
A segunda hipótese é a do objeto afetivo. O livro de papel, antes considerado um empecilho logístico por quem mudava de casa com frequência, passou a ser valorizado justamente por sua permanência.
Em tempo de arquivos que somem, contas que evaporam, plataformas que fecham, aplicativos que abandonam o usuário — o livro impresso é uma das poucas coisas que ninguém pode desativar remotamente. Há nisso algo de resistência silenciosa.
A terceira hipótese, e talvez a mais delicada, é a da sociabilidade do livro. Um e-reader não se empresta, não se presenteia com dedicatória manuscrita, não se vê na estante de ninguém, não serve de assunto de mesa.
O livro físico, por outro lado, é objeto de conversa. E numa época em que conversar virou mercadoria escassa, qualquer pretexto legítimo para conversar tem valor de mercado.
As livrarias independentes voltam
Entre 2024 e 2025, o Distrito Federal viu abrir catorze livrarias independentes, espalhadas por Asa Sul, Asa Norte, Águas Claras, Taguatinga e até uma tímida em Ceilândia. Número modesto, se comparado a São Paulo.
Mas extraordinário, se comparado a si mesmo: em 2018, o DF havia fechado oito livrarias independentes em doze meses, e diversos observadores escreveram necrológios resignados sobre a morte do comércio do livro na capital federal.
Os donos dessas novas livrarias, quase todos jovens entre vinte e cinco e quarenta anos, contam histórias parecidas. Começaram em instagrammer, organizaram clube de leitura, descobriram que havia público, alugaram um ponto pequeno, ofereceram café e poltrona, programaram encontros semanais com autores locais.
O modelo de negócio é híbrido — parte livraria, parte café, parte centro cultural de bairro. Sem esse hibridismo, talvez nenhuma delas sobrevivesse.
Com ele, algumas já planejam a segunda unidade.
O papel das feiras e dos clubes
A Feira do Livro de Brasília, realizada em março de 2026, registrou público estimado de cento e quarenta mil visitantes em dez dias. Mais importante que o número absoluto é a distribuição: a feira documentou crescimento de compras na faixa de dezoito a trinta anos — público que, segundo os próprios organizadores, ainda há cinco anos era minoritário.
Os clubes de assinatura de livros, por sua vez, multiplicaram-se. Há dezenove ativos no Distrito Federal em 2026, contra seis em 2023.
Funcionam por adesão mensal, enviam um ou dois títulos selecionados por curadoria, promovem encontro virtual com o autor. É o mecanismo perfeito para leitor que não tem tempo de escolher mas tem dinheiro para confiar a escolha em alguém.
Uma reflexão final, breve e cautelosa
Guardo-me de extrapolar o fenômeno. É possível que 2025 tenha sido um ano atípico, produto de circunstância passageira, e que 2026 desminta tudo isto que hoje celebro.
Seria injusto com o leitor prometer permanência ao que pode ser oscilação. Mas seria também injusto com os fatos, diante de números tão consistentes, fingir que nada aconteceu.
Alguma coisa aconteceu. O brasiliense, por razão ainda não completamente esclarecida, voltou a preferir o papel.
Preferência pequena, talvez. Preferência frágil, provavelmente.
Preferência que não apaga o livro eletrônico nem a tela iluminada — apenas lhes faz companhia.
E há, confesso, uma satisfação discreta em registrar este episódio. Viver tempo bastante para ver um obituário desmentido é prerrogativa de quem envelheceu devagar.
Os livros, ao que parece, envelhecem ainda mais devagar que seus cronistas. É um descaro de sua parte, e eu agradeço.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.