
Pivôs de irrigação em Cristalina, maior polo agrícola do entorno do DF
O agronegócio do entorno fatura R$ 15 bilhões e emprega mais gente que o funcionalismo distrital
O cinturão agropecuário Cristalina-Luziânia-Unaí-Paracatu fechou 2025 com faturamento bruto de R$ 15 bilhões, segundo a CNA, e responde por 240 mil empregos formais no entorno do Distrito Federal.
O agronegócio do entorno fatura R$ 15 bilhões e emprega mais gente que o funcionalismo distrital
Quem voa de Brasília para qualquer ponto do Centro-Oeste vê a mesma paisagem por baixo da janela. Pivôs de irrigação desenhando círculos verdes no Cerrado.
Lavoura de soja, milho, café, feijão, tomate e algodão. Granjas, frigoríficos, silos, caminhões.
Esse pedaço de Brasil chama-se cinturão agropecuário do entorno. Cristalina, Luziânia, Unaí, Paracatu, Formosa, Padre Bernardo.
Quatro municípios goianos, dois mineiros. Distância média de 180 quilômetros do Plano Piloto.
Faturamento bruto de R$ 15 bilhões em 2025, conforme levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. E 240 mil empregos formais, número superior ao funcionalismo público distrital direto.
A capital do Brasil orbita uma economia agro que ela própria desconhece.
Cristalina, capital do pivô central
Cristalina concentra a maior área irrigada por pivô central da América Latina. Mais de mil equipamentos cobrindo 200 mil hectares.
A cidade fatura sozinha R$ 4,8 bilhões por ano. Produz feijão, soja, milho, café, alho, batata, cebola, cenoura e tomate em escala industrial.
A produtividade ultrapassa três safras anuais. Onde o Cerrado dava gado magro nos anos 70, hoje sai 12 mil quilos de feijão por hectare.
A Embrapa Cerrados, sediada em Planaltina, escreveu boa parte dessa virada.
Cristalina tem 60 mil habitantes. Tem mais R$ 4 milhões de movimentação por habitante do que muita capital de estado.
E tem fila de tratorista ganhando R$ 7 mil por mês.
Luziânia, Unaí, Paracatu
Luziânia faz o eixo logístico. Cidade de 230 mil habitantes a 60 quilômetros de Brasília.
Concentra armazéns, transportadoras, beneficiadoras de grão e frigoríficos. Movimenta R$ 3,2 bilhões em valor agropecuário direto e mais um múltiplo disso em logística.
Unaí é o maior produtor brasileiro de feijão. Município mineiro de 90 mil habitantes que fatura R$ 2,9 bilhões.
Tem cooperativa centenária, balança de caminhão funcionando 24 horas, três indústrias de laticínios e um silo de soja com capacidade de 600 mil toneladas.
Paracatu vive do milho, da soja e do ouro. Faturamento agro de R$ 1,7 bilhão.
Tem o segundo maior rebanho leiteiro de Minas. E também a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, da Kinross.
O entorno do DF é mais diversificado do que parece.
| Município | Faturamento agro 2025 | Empregos formais | |---|---|---| | Cristalina | R$ 4,8 bi | 38 mil | | Luziânia | R$ 3,2 bi | 52 mil | | Unaí | R$ 2,9 bi | 41 mil | | Paracatu | R$ 1,7 bi | 33 mil | | Formosa | R$ 1,4 bi | 28 mil | | Padre Bernardo | R$ 1,0 bi | 24 mil | | Demais municípios | R$ 1,0 bi | 24 mil | | Total | R$ 15 bi | 240 mil |
Para comparar, o funcionalismo público estatutário do GDF soma 188 mil servidores. O entorno agro emprega 28% mais gente.
Sem cota, sem concurso, sem estabilidade.
Brasília como hub financeiro do agro
O dinheiro da safra desce a BR-040 e a BR-060 e desemboca em Brasília. Bancos, escritórios de advocacia, tradings, cartórios, consultorias tributárias, laboratórios de defensivos, fundos de investimento agro.
O ecossistema profissional que serve o produtor rural está concentrado no Sudoeste, no Lago Sul e no Park Sul.
O Banco do Brasil tem na Asa Sul a maior agência rural do país. O BRB lançou em 2025 a linha Agro Cerrado com R$ 1,2 bilhão de carteira e juros 2,3 pontos abaixo da Selic.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social mantém escritório regional em Brasília que opera R$ 6 bilhões anuais para o entorno.
O resultado é uma cidade que vive da decisão pública e ao mesmo tempo financia, julga, regula e advoga para o agro privado. Dois motores no mesmo chassi.
O escritório do agro no Buriti
Em fevereiro de 2026, ainda no governo de transição, Celina Leão recebeu uma comitiva da Federação da Agricultura de Goiás. O recado da bancada foi direto.
O entorno emprega mais que o GDF e nunca teve interlocução institucional com o Buriti.
Tomou posse em 30 de março. Sete dias depois, no primeiro decreto econômico do governo, Celina criou o Escritório do Agronegócio do Entorno, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
O órgão recebe demandas de logística, água, energia, regularização fundiária e crédito. Tem orçamento inicial de R$ 18 milhões e equipe técnica de 22 servidores.
A medida foi celebrada pela CNA, pela Famato, pela Faeg e pela Faemg. Pela primeira vez, um governo do Distrito Federal reconhece formalmente que a economia que cerca Brasília pesa tanto quanto a economia dentro da cidade.
Por que isso importa
O empresário agro do entorno paga IPVA em Goiás, ICMS em Minas e folha em qualquer um dos seis municípios. Mas mora em Brasília.
Educa filho em Brasília. Trata a saúde em Brasília.
Compra carro, joia, vinho, restaurante e imóvel em Brasília.
A renda gerada lá fora desagua aqui. Estudos da Codeplan estimam que entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões da renda agro do entorno são gastos dentro do Distrito Federal todos os anos.
Esse fluxo sustenta concessionária, shopping, clínica, escola particular, hotel, agência de viagem e construtora.
A direita pragmática entende esse arranjo melhor do que a esquerda urbana. Riqueza nasce de quem produz e circula por quem presta serviço sofisticado.
O entorno produz. Brasília presta serviço.
A integração das duas pontas é o motor mais subestimado do Centro-Oeste brasileiro.
O próximo passo
Falta logística. A BR-040 está saturada.
A BR-251 precisa de duplicação. A ferrovia Norte-Sul ainda não conecta o entorno aos portos do Sudeste com eficiência.
Energia elétrica trifásica não chega a 18% das propriedades acima de 200 hectares.
São pautas de governo federal, mas que dependem de articulação local. O Escritório do Agro no Buriti sinaliza que essa articulação finalmente terá endereço.
O empresário rural do entorno não pede subsídio. Pede previsibilidade, segurança jurídica e estrada que aguente o caminhão.
Quando esses três pilares funcionam, o agro do Brasil Central faz o resto sozinho.
Carlos Eduardo Mendes é executivo do agronegócio do Brasil Central. Colunista convidado do Mirante News, escreve sobre economia rural, logística e mercado de commodities.
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