
Terminal de exportação de grãos no Porto de Santos (SP), principal corredor do agronegócio brasileiro.
O Brasil exportou R$ 480 bilhões em agro em 2025 — sozinho sustenta a balança comercial
Enquanto a indústria brasileira encolheu pelo terceiro ano consecutivo, o agronegócio embarcou US$ 92 bilhões em commodities e respondeu, sozinho, por 49,3% de tudo que o país vendeu ao exterior no exercício anterior. Sem o campo, o Brasil teria fechado o ano com déficit comercial.
O Brasil encerrou 2025 com superávit comercial de US$ 95,1 bilhões, o maior da série histórica iniciada em 1989. O número, divulgado pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, esconde um recado incômodo para quem ainda fala em reindustrialização: praticamente todo esse saldo veio do agronegócio.
Segundo dados consolidados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, as exportações do setor somaram aproximadamente R$ 480 bilhões, equivalentes a US$ 92 bilhões pela cotação média do ano. O número representa 49,3% da pauta exportadora total, contra 28,1% da indústria de transformação e 22,6% da indústria extrativa não agrícola.
A conta que sustenta o real
O cálculo é direto. Sem os embarques de soja, milho, carnes, café, açúcar, celulose, algodão e suco de laranja, o Brasil teria fechado 2025 com déficit de aproximadamente US$ 3 bilhões.
É a conta que ninguém faz quando discute política industrial em Brasília.
| Produto | Exportações 2025 (US$ bi) | Variação vs 2024 | |---------|--------------------------:|-----------------:| | Soja em grão | 38,2 | +6,4% | | Carne bovina | 14,8 | +11,2% | | Milho | 9,1 | -3,7% | | Açúcar | 8,9 | +4,1% | | Celulose | 7,6 | +2,8% | | Café | 6,4 | +18,9% | | Carne de frango | 6,1 | +1,3% | | Algodão | 5,2 | +9,5% |
Fonte: Secex/MDIC, consolidado em janeiro de 2026.
A China continua sendo o destino dominante: comprou 34% de tudo que o agro brasileiro embarcou. Em seguida vêm União Europeia (16%), Estados Unidos (8%) e países do sudeste asiático (15%).
Por que o campo cresce enquanto a indústria encolhe
A produtividade da agricultura brasileira praticamente triplicou desde 1990. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a produtividade total dos fatores no campo cresceu 3,18% ao ano nas últimas três décadas, ritmo superior ao de Estados Unidos, União Europeia e China.
A indústria de transformação seguiu o caminho oposto. Sua participação no Produto Interno Bruto caiu de 21,6% em 1985 para 9,8% no exercício anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
A combinação de carga tributária elevada, custo de capital alto, infraestrutura deficiente e câmbio volátil produziu o que economistas chamam de desindustrialização precoce.
No campo, três fatores explicam o desempenho oposto. Primeiro, ganhos contínuos de tecnologia: agricultura de precisão, sementes geneticamente modificadas, biológicos e maquinário autônomo.
Segundo, escala: a fronteira agrícola se expandiu para Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e para o cerrado mineiro, áreas com produtividade comparável à da Argentina. Terceiro, autonomia: o produtor financia boa parte do capital de giro com barter, troca de insumos por safra futura, escapando do crédito bancário caro.
O paradoxo do superávit
O superávit recorde do ano anterior não significa que a economia brasileira esteja saudável. Pelo contrário.
O resultado é, em parte, consequência da retração da demanda interna. Importações de bens de capital caíram 4,7% no ano, sinal de que o investimento privado segue fraco.
As compras externas de bens intermediários, usados como insumo pela indústria, caíram 2,1%.
Em outras palavras, o Brasil exporta mais soja porque planta mais soja, e importa menos máquinas porque a indústria não está investindo. O saldo positivo é, em boa medida, fruto da estagnação produtiva.
A balança comercial brasileira, descontado o agronegócio e a mineração, é deficitária há 14 anos consecutivos. A indústria de transformação isolada acumulou déficit de US$ 87 bilhões no exercício anterior, segundo a Confederação Nacional da Indústria.
Cada brasileiro consumiu, em média, US$ 410 a mais em manufaturados importados do que o país exportou.
Distribuição regional concentrada
Mato Grosso lidera com folga: sozinho, respondeu por US$ 21,4 bilhões em exportações do agronegócio no exercício anterior, quase um quarto do total nacional. São Paulo veio em segundo (US$ 14,2 bilhões), seguido por Paraná (US$ 11,8 bilhões), Rio Grande do Sul (US$ 10,3 bilhões) e Goiás (US$ 8,9 bilhões).
Os cinco maiores estados concentram 72% das exportações agrícolas. A região Centro-Oeste, sozinha, responde por 41% — fenômeno que reorganizou a geografia econômica do país nas últimas duas décadas.
Cidades como Sorriso, Sinop, Rio Verde e Luís Eduardo Magalhães se transformaram em polos urbanos com Produto Interno Bruto per capita superior ao de capitais tradicionais.
O lado preocupante dessa concentração é a vulnerabilidade. Uma quebra de safra severa em Mato Grosso por seca prolongada — cenário considerado plausível pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo — derrubaria o saldo comercial brasileiro em até US$ 18 bilhões em um único ano.
O recado para 2026
O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada projeta que o agronegócio crescerá entre 3,8% e 4,5% em 2026, puxado por nova safra recorde de soja (estimada em 178 milhões de toneladas) e pela recuperação dos preços internacionais do café e do açúcar. A receita total do setor deve ultrapassar R$ 510 bilhões, novo patamar histórico.
Enquanto isso, a indústria de transformação deve crescer no máximo 1,2%, segundo a sondagem da Confederação Nacional da Indústria. O hiato entre os dois setores continuará se ampliando.
A pergunta que se impõe é menos sobre o agronegócio e mais sobre o resto do país. Se a economia brasileira depende de um único setor para manter saldo positivo na balança, qualquer choque climático, sanitário ou geopolítico vira risco macroeconômico.
Diversificar a pauta exportadora deixou de ser projeto de desenvolvimento e virou questão de estabilidade.
Por enquanto, o campo paga a conta. Sozinho.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.