
Painel do Tesouro Nacional mostra evolução do serviço da dívida federal — R$ 780 bilhões pagos só em juros no exercício anterior
Tesouro Nacional paga R$ 780 bilhões por ano em juros — e a dívida continua crescendo
Cada brasileiro pagou em média R$ 3.640 só em juros da dívida federal em 2025. A conta é maior que o orçamento somado da saúde e da educação. E a dívida bruta seguiu subindo: fechou o ano em 78,9 por cento do PIB, o maior patamar desde 2002.
A planilha do Tesouro Nacional não engana. no exercício anterior, a União pagou exatamente R$ 781,4 bilhões em juros nominais da dívida pública federal.
É um número que cabe numa linha de Excel mas precisa de contexto para fazer sentido. Saúde recebeu R$ 213 bilhões.
Educação, R$ 152 bilhões. Investimento público total — estradas, hospitais, escolas, saneamento — ficou em R$ 79 bilhões.
Juros sozinhos consumiram quase quatro vezes tudo isso somado.
A foto fica pior quando se olha o filme. Em 2014, antes do ciclo recessivo, o serviço da dívida foi R$ 311 bilhões.
Em uma década, mais que dobrou em termos nominais. Corrigido pela inflação, o crescimento real foi de 71 por cento.
No mesmo período, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 12 por cento em termos reais. A conta dos juros sobe três vezes mais rápido do que a economia que precisa pagá-la.
A aritmética da bola de neve
A matemática é simples e implacável. A dívida bruta do governo geral fechou 2025 em 78,9 por cento do PIB, segundo o Banco Central.
A taxa Selic média do ano foi de 13,2 por cento. A inflação medida pelo IPCA ficou em 4,6 por cento.
O resultado é uma taxa de juros real implícita de aproximadamente 8,2 por cento ao ano sobre o estoque de dívida.
Para que a relação dívida-PIB pare de subir, o governo precisaria gerar superávit primário equivalente a essa taxa real multiplicada pelo estoque. A conta dá superávit primário necessário de cerca de 6,4 por cento do PIB.
O resultado primário efetivo do ano anterior foi déficit de 0,4 por cento. A diferença entre o necessário e o realizado é a velocidade da bola de neve.
| Indicador | 2014 | 2020 | 2025 | |---|---|---|---| | Dívida bruta (% PIB) | 56,3 | 88,6 | 78,9 | | Serviço da dívida (R$ bi) | 311 | 391 | 781 | | Taxa Selic média (% a.a.) | 11,0 | 2,8 | 13,2 | | Resultado primário (% PIB) | -0,6 | -9,4 | -0,4 |
Os dados estão no Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de janeiro de 2026 e no boletim Focus do Banco Central. Não há margem para dúvida sobre os números.
A dúvida está sobre como sair desta posição.
Quem detém a dívida brasileira
Outro dado pouco discutido é a composição dos credores. A dívida pública federal interna soma R$ 7,8 trilhões.
Os fundos de investimento detêm 28,4 por cento. Instituições financeiras nacionais, 24,1 por cento.
Previdência complementar, 22,7 por cento. Não residentes — ou seja, investidores estrangeiros — ficam com 9,8 por cento.
O restante se distribui entre seguradoras e outros.
Isto significa que cada décimo percentual a mais na Selic transfere bilhões de reais por ano dos cofres públicos para fundos de pensão, bancos e gestoras. Não é discurso ideológico: é fato contábil registrado pelo próprio Tesouro.
O custo de carregar prazo curto
A dívida pública brasileira tem prazo médio de 4,1 anos. Comparativo internacional: Estados Unidos têm 6,1 anos, Reino Unido tem 14 anos, Japão opera com 9 anos.
Quanto menor o prazo, maior a sensibilidade da despesa de juros a movimentos da taxa básica. Cada ponto percentual a mais na Selic se traduz em aproximadamente R$ 50 bilhões a mais de despesa de juros já no ano seguinte.
A composição também pesa. Em janeiro de 2026, 47,3 por cento da dívida pública federal interna era indexada à Selic via Letras Financeiras do Tesouro.
Outros 28 por cento eram pós-fixados em índices de preços. Apenas 23,9 por cento estavam em títulos prefixados.
Isso significa que mais de três quartos da dívida brasileira reprecifica automaticamente quando a política monetária aperta.
O que dizem os números do IPEA
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou em março um estudo apontando que, mantidas as condições atuais, a relação dívida-PIB chegaria a 86,2 por cento ao final de 2028. O cenário considera Selic média de 12 por cento, crescimento real do PIB de 1,8 por cento ao ano e déficit primário em torno de 0,5 por cento.
O cenário alternativo simulado pelo mesmo instituto, com superávit primário de 1,5 por cento do PIB e Selic em 10,5 por cento, estabilizaria a dívida em 81 por cento. A diferença entre os dois cenários é 5,2 pontos percentuais do PIB ao longo de três anos.
Em valores correntes, isso representa aproximadamente R$ 690 bilhões de dívida adicional ou evitada.
A pressão sobre o orçamento
O orçamento federal de 2026 reserva R$ 2,18 trilhões para despesas obrigatórias. Previdência consome R$ 980 bilhões.
Pessoal ativo e inativo, R$ 410 bilhões. Benefícios sociais, R$ 340 bilhões.
Sobram pouco mais de R$ 80 bilhões para custeio discricionário e R$ 75 bilhões para investimento. A despesa de juros, embora classificada como financeira e não como primária, ocupa exatamente o mesmo bolso fiscal que precisaria pagar tudo isso.
O debate sobre arcabouço fiscal, regra de gasto e meta de resultado primário gira em torno de uma única questão prática: como interromper a transferência crescente do orçamento público para o serviço da dívida sem provocar uma crise de confiança que aumente ainda mais o custo de financiamento.
O recado dos números
A dívida pública brasileira não está em colapso iminente. O Tesouro segue rolando títulos sem dificuldade, a curva de juros futuros está estável e o mercado absorve as ofertas semanais.
O problema não é de liquidez. É de sustentabilidade aritmética no horizonte de cinco a dez anos.
Cada Selic mantida acima da neutralidade adiciona dezenas de bilhões à conta. Cada déficit primário não corrigido empurra a curva da dívida para cima.
Cada ano sem reforma estrutural do gasto obrigatório consome mais espaço fiscal. Os R$ 780 bilhões do ano anterior são o presente.
A pergunta é quanto será o número de 2027 — e quem vai pagar a conta.
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