
Usina de etanol em Quirinópolis (GO), polo do cerrado canavieiro que dobrou exportações em três safras consecutivas
O etanol do cerrado goiano virou commodity global — exportação cresceu 140 por cento em três anos
O caminhão-tanque sai da usina de Quirinópolis com destino a Santos. Lá o etanol é embarcado em navios químicos e atravessa o Atlântico até Roterdã, onde abastece a frota de ônibus elétricos híbridos da Holanda. A história começa no cerrado goiano e termina no porto europeu — e o número de viagens cresceu 140 por cento desde 2022.
A safra 2025/2026 da cana de açúcar no estado de Goiás chegou a 81,4 milhões de toneladas, segundo o levantamento de fevereiro da Companhia Nacional de Abastecimento. É o segundo maior volume estadual do país, atrás apenas de São Paulo, e representa 11,2 por cento da safra brasileira.
O dado expressivo, entretanto, não é a moagem. É o destino do produto.
Em 2022, Goiás exportou 1,98 bilhão de litros de etanol. Em 2025, o volume embarcado chegou a 4,76 bilhões de litros — crescimento de 140,4 por cento em três safras consecutivas.
Os dados estão no sistema Comex Stat do Ministério do Desenvolvimento e mostram trajetória que poucos commodities agrícolas brasileiros conseguiram replicar no período.
Quem compra o etanol goiano
O perfil de comprador mudou. Até 2021, mais de 80 por cento do etanol exportado por Goiás era hidratado e ia para os Estados Unidos, onde recebia processamento adicional para virar combustível ou insumo industrial.
no exercício anterior, o destino se diversificou. A Coreia do Sul respondeu por 22,4 por cento das compras, a Holanda por 18,1 por cento e os Estados Unidos por 31,7 por cento.
Japão, Reino Unido e Singapura completam o pelotão.
O fator que abriu mercado asiático foi a regulamentação ambiental. A norma sul-coreana de 2024 passou a exigir adição de 7 por cento de etanol anidro à gasolina vendida em postos urbanos.
A Holanda criou cota obrigatória para combustíveis de baixa intensidade de carbono no transporte público. A Singapura estabeleceu meta de 12 por cento até 2028.
Todas as três regulamentações criaram demanda externa imediata.
| Destino | Volume 2022 (mi L) | Volume 2025 (mi L) | Variação | |---|---|---|---| | Estados Unidos | 1.520 | 1.508 | -0,8% | | Coreia do Sul | 110 | 1.066 | 869,1% | | Holanda | 80 | 862 | 977,5% | | Japão | 95 | 480 | 405,3% | | Reino Unido | 60 | 312 | 420,0% | | Singapura | 45 | 218 | 384,4% |
A fotografia mostra que o etanol goiano está deixando de depender do mercado norte-americano e passando a ocupar nichos asiáticos e europeus em ritmo que poucos commodities brasileiros conseguem reproduzir.
A geografia da expansão
O cerrado canavieiro goiano se concentra em três microrregiões. A primeira é o entorno de Quirinópolis, no sudoeste do estado, onde estão sete usinas de grande porte.
A segunda é Goianésia, no centro, com cinco usinas tradicionais que migraram parte da produção do açúcar para o etanol. A terceira é Edéia, na rota da BR-060, com quatro plantas mais novas instaladas a partir de 2017.
A área plantada cresceu 9,2 por cento em três anos, chegando a 1,17 milhão de hectares. O ganho de produtividade foi maior: a média goiana subiu de 73 toneladas por hectare em 2022 para 78 toneladas no exercício anterior, segundo a União da Indústria de Cana de Açúcar.
O salto técnico veio da adoção de variedades resistentes à seca desenvolvidas pelo Centro de Tecnologia Canavieira em parceria com a Embrapa Cerrados.
A tecnologia que viabilizou o salto
O cerrado tem características de solo e clima diferentes do tradicional canavial paulista. A precipitação concentrada em quatro meses, a estação seca prolongada e a acidez natural exigiram desenvolvimento de manejo específico.
As variedades CTC-9006 e RB-12-7895, lançadas em 2021 e 2022, têm rendimento de açúcar 11 por cento superior às anteriores e tolerância a 60 dias sem chuva.
A automação industrial completou o salto. Sete das dezesseis usinas exportadoras goianas operam com sistemas de inteligência computacional para controle de fermentação, ajustando temperatura e dosagem de levedura em tempo real.
O resultado prático foi aumento de 6,8 por cento no rendimento alcooleiro por tonelada moída entre 2022 e 2025.
O peso na balança comercial
A exportação de etanol goiano gerou US$ 2,93 bilhões no exercício anterior, contra US$ 1,07 bilhão em 2022. O valor representa 4,1 por cento de toda a balança comercial do estado e supera, pela primeira vez, a receita externa da soja em determinados meses do calendário.
A relação entre volume e valor tem dois fatores: o preço internacional do etanol subiu 38 por cento no período e o câmbio brasileiro favoreceu a margem do exportador.
A estrutura logística que viabilizou o crescimento se apoia em três corredores. O ferroviário, com a operação ampliada da Rumo entre Rio Verde e o Porto de Santos.
O rodoviário, pela BR-060 e BR-040 até o Porto de Tubarão, em Vitória. E o hidroviário, ainda incipiente, pelo rio Tocantins até o Porto de Itaqui, no Maranhão.
Os três caminhos compõem o que os operadores logísticos chamam de triângulo do etanol cerratense.
A próxima fronteira
A União da Indústria de Cana de Açúcar projeta para a safra 2026/2027 moagem goiana de 84,5 milhões de toneladas, com destino crescente à exportação. A expectativa do setor é fechar 2026 com 5,5 bilhões de litros embarcados — o que representaria mais do que o triplo do volume de 2022 em apenas quatro safras.
O limitador hoje não é a demanda externa nem a capacidade industrial instalada. É a infraestrutura de escoamento.
A ferrovia Norte-Sul, prevista para operar entre Anápolis e Estrela d'Oeste a partir de 2027, deve reduzir em 22 por cento o custo logístico do etanol exportado. Se a obra for entregue dentro do cronograma, o cerrado canavieiro goiano pode dobrar novamente o volume exportado até 2030 — e consolidar uma posição que há quatro anos era secundária no mapa global do biocombustível.
O recado dos números
O etanol do cerrado goiano deixou de ser commodity regional. Os 4,76 bilhões de litros exportados no exercício anterior atravessam três oceanos, atendem a regulamentações ambientais de seis países e geram receita externa equivalente a quase metade do que Goiás arrecadou de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços no ano.
A trajetória não é resultado de subsídio nem de política industrial pontual. É consequência de pesquisa agronômica de longo prazo, automação industrial e abertura coincidente de mercados externos.
Por enquanto, o caminhão-tanque que sai de Quirinópolis tem destino certo. E o destino, agora, fala português, inglês, coreano e holandês.
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