
Reservatório do Descoberto em março de 2026 — paredões de terra exposta marcam o nível mais baixo de fim de período chuvoso desde 2010
Água de Brasília vem do Descoberto — e o reservatório está em seu nível mais baixo em 15 anos
O reservatório do Descoberto, que abastece dois terços da população do Distrito Federal, fechou o mês de março de 2026 com 41,3 por cento de sua capacidade volumétrica útil. É o nível mais baixo registrado para o final do período chuvoso desde 2010.
O reservatório do Descoberto, que abastece dois terços da população do Distrito Federal, fechou o mês de março de 2026 com 41,3 por cento de sua capacidade volumétrica útil. É o nível mais baixo registrado para o final do período chuvoso desde 2010, segundo a série histórica da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, a Caesb.
O dado é técnico, mas tem consequências práticas: começamos o período seco do Cerrado, que vai de abril a setembro, com menos água armazenada do que em qualquer outro ano da última década e meia.
O Sistema Descoberto não é o único reservatório do DF, mas é o principal. Ele abastece aproximadamente 1,9 milhão de pessoas, ou 65 por cento da população atendida pela Caesb.
O Sistema Santa Maria, segundo em importância, atende cerca de 25 por cento. Os 10 por cento restantes vêm de captações menores no Lago Paranoá, no Corumbá e em mananciais subterrâneos.
A geografia do problema
O Descoberto é um reservatório artificial criado em 1974 com a inundação do vale do Rio Descoberto, na divisa com Goiás. Sua bacia hidrográfica drena 437 quilômetros quadrados, dos quais 56 por cento estão em território goiano e 44 por cento em território do DF.
O volume total da represa é de 102 milhões de metros cúbicos. O volume útil — aquele que pode efetivamente ser extraído sem comprometer a estrutura — é de 86 milhões.
Em março de 2026, o volume armazenado era de aproximadamente 35,5 milhões de metros cúbicos. Para efeito de comparação, em março de 2017 — auge da crise hídrica que levou ao racionamento — o reservatório chegou a 5,3 por cento.
Em março de 2022, ano de boa pluviosidade, fechou com 91 por cento. A média histórica para o mês é de 78 por cento.
| Ano | Nível em março | Status | |---|---|---| | 2017 | 5,3% | Crise — racionamento | | 2020 | 64,1% | Recuperação | | 2022 | 91,0% | Acima da média | | 2024 | 58,7% | Abaixo da média | | 2026 | 41,3% | Pior fim de chuva desde 2010 |
A chuva que não veio
A explicação imediata está na pluviometria. O Instituto Nacional de Meteorologia, o INMET, registrou na bacia do Descoberto uma precipitação acumulada de 902 milímetros entre outubro de 2025 e março de 2026.
A média histórica para o mesmo período é de 1.247 milímetros. O déficit foi de 27,7 por cento — o quarto pior em vinte anos.
A distribuição também foi ruim. Janeiro de 2026, normalmente o mês mais chuvoso, recebeu apenas 184 milímetros contra média de 312.
Fevereiro veio dentro da média. Março, esperado como mês de chuvas regulares de despedida, fechou com 71 milímetros contra média de 198.
Os dois meses mais críticos do enchimento do reservatório foram justamente os mais secos.
A causa atribuída pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é a presença de um bloqueio atmosférico no centro do continente sul-americano associado a uma fase neutra-tendente-a-La-Niña no Pacífico equatorial. O fenômeno deslocou a Zona de Convergência do Atlântico Sul para o norte, retirando umidade do Cerrado central durante semanas críticas do enchimento dos mananciais.
O uso que cresceu
A segunda camada do problema está no consumo. Em 2010, o DF tinha 2,57 milhões de habitantes.
Em 2025, segundo estimativa do IBGE, chegou a 2,90 milhões — crescimento de 12,8 por cento. O consumo per capita médio é de 154 litros por habitante por dia, segundo a Caesb.
O volume diário extraído do Descoberto saltou de 6,2 metros cúbicos por segundo em 2010 para 7,8 no exercício anterior — crescimento de 26 por cento.
Há um descompasso entre as duas curvas. A população cresceu 12,8 por cento.
A demanda hídrica cresceu 26 por cento. A diferença está na expansão de áreas urbanas com padrão de consumo mais alto, no aumento do uso comercial e industrial e nas perdas físicas do sistema de distribuição, que ainda chegam a 33 por cento — uma das maiores entre as capitais brasileiras.
A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF, a Adasa, publicou no exercício anterior um plano para reduzir as perdas para 22 por cento até 2030. O cumprimento da meta liberaria aproximadamente 1,1 metro cúbico por segundo de água — equivalente a abastecer Taguatinga inteira sem nova captação.
A bacia que perdeu cobertura vegetal
A terceira camada é a menos visível e talvez a mais determinante no horizonte de décadas. A bacia hidrográfica do Descoberto perdeu 38 por cento da cobertura vegetal nativa de Cerrado entre 1985 e 2024, segundo o MapBiomas.
As áreas convertidas viraram sobretudo agricultura, pastagem e expansão urbana, principalmente do lado goiano da bacia.
A vegetação nativa do Cerrado tem papel hídrico específico. As raízes profundas — algumas árvores chegam a 18 metros — funcionam como bombas que captam água do lençol freático no período seco e a liberam por evapotranspiração.
As folhas e a serapilheira aumentam a infiltração e reduzem o escoamento superficial. Cada hectare de Cerrado preservado entrega aos mananciais uma vazão média entre 2 e 4 litros por segundo a mais do que um hectare de pastagem ou agricultura.
A Embrapa Cerrados estima que a perda de cobertura nativa na bacia do Descoberto reduziu a vazão regularizada do reservatório em aproximadamente 14 por cento ao longo de quatro décadas. É um efeito que não aparece em uma estação seca específica, mas que se acumula como uma dívida hidrológica que o sistema paga todos os anos.
A operação do sistema
A Caesb opera hoje uma estratégia integrada entre Descoberto, Santa Maria e Lago Paranoá. Quando um reservatório está abaixo da curva de operação, parte da demanda é transferida para os outros.
Em março de 2026, a Caesb aumentou em 0,8 metro cúbico por segundo a captação no Santa Maria e em 0,3 no Lago Paranoá para reduzir a pressão sobre o Descoberto.
A Adasa autorizou em fevereiro a instalação de bombas flutuantes no Descoberto, que permitem captação mesmo em níveis abaixo de 25 por cento. O equipamento entra em operação como contingência se o reservatório cair para esse patamar até o fim do período seco.
O custo da medida é de R$ 12 milhões, financiado pela tarifa.
O cenário até setembro
A previsão da Caesb, baseada em modelos hidrológicos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, indica que o Descoberto deve atingir entre 22 e 28 por cento ao final de setembro de 2026, na entrada do próximo período chuvoso. O cenário considera consumo médio histórico, sem racionamento e sem chuvas extraordinárias.
Se a próxima estação chuvosa, de outubro de 2026 a março de 2027, vier dentro da média, a recuperação acontece e o sistema volta a operar acima de 60 por cento até o fim do verão. Se vier abaixo da média pelo segundo ano consecutivo — cenário que os modelos climáticos estimam em probabilidade de 28 por cento —, o DF entra em 2027 com risco real de racionamento.
O recado da hidrologia
O nível do Descoberto em março de 2026 é a soma de três fatores: uma estação chuvosa ruim, um consumo crescente e uma bacia hidrográfica que perde cobertura vegetal há quatro décadas. Cada um desses fatores tem temporalidade própria.
A chuva vai e vem em ciclos anuais. O consumo responde a políticas de eficiência.
A cobertura vegetal demora décadas para se recuperar — quando se recupera.
A torneira de Brasília está aberta. A pergunta hidrológica é até quando.
E a resposta não está só no céu. Está também nas decisões sobre uso do solo, perdas no sistema, eficiência hídrica e proteção das nascentes.
O Cerrado avisa há tempos. Os números do Descoberto, em março de 2026, são o aviso mais alto.
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