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Cerrado perdeu 3.420 km² de vegetação em 2025 — mas o DF manteve sua cobertura
O Cerrado brasileiro perdeu 3.420 km² de vegetação nativa em 2025, área equivalente a mais de duas cidades de São Paulo. A destruição, porém, não se distribuiu igualmente pelo bioma: três estados concentraram 78% de tudo o que caiu. Entre as unidades federativas que compartilham o Cerrado, o Distrito Federal manteve sua cobertura praticamente intacta.
O Cerrado brasileiro perdeu 3.420 km² de vegetação nativa no exercício anterior, segundo o consolidado anual do MapBiomas Alerta divulgado em março de 2026 e corroborado pelos dados do sistema Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A área equivale a mais de duas vezes a mancha urbana da capital paulista e supera, em magnitude, a perda registrada pela Amazônia Legal no mesmo exercício — diferença que reitera um padrão observado nos últimos cinco anos: o Cerrado vem sendo, silenciosamente, o bioma mais desmatado do Brasil.
A destruição, porém, não se distribuiu igualmente pelo território de 2,04 milhões de km². Três estados concentraram 78% de tudo o que caiu.
Entre as 11 unidades federativas que compartilham o bioma, o Distrito Federal manteve sua cobertura nativa praticamente intacta — a perda no território distrital somou menos de 2 km² em todo o ano do ano anterior, número compatível com ruído estatístico.
O contraste é tão nítido que merece análise detalhada. Não se trata de comparar grandezas incomparáveis — o DF tem 5.780 km² enquanto o Mato Grosso tem 903 mil —, mas de observar como diferentes arranjos institucionais de proteção ambiental produzem resultados distintos sobre o mesmo bioma.
O mapa da perda
Os dados do MapBiomas, cruzados com o monitoramento oficial do PRODES Cerrado, permitem montar o seguinte quadro de distribuição do desmatamento do bioma no exercício anterior.
| Estado | Área desmatada no Cerrado (km²) | % do total | |--------|----------------------------------|------------| | Mato Grosso | 1.217 | 35,6% | | Bahia | 812 | 23,7% | | Maranhão | 635 | 18,6% | | Piauí | 298 | 8,7% | | Tocantins | 187 | 5,5% | | Goiás | 142 | 4,2% | | Minas Gerais | 98 | 2,9% | | Demais estados | 29 | 0,8% | | Distrito Federal | 2 | 0,06% |
A parte do leão — literal e figurativamente — coube à faixa conhecida como Matopiba, o arco de expansão agrícola que abrange sul do Maranhão, leste do Tocantins, sul do Piauí e oeste da Bahia. Somadas, essas regiões responderam por 51% da perda total do bioma no exercício anterior.
É nessa fronteira que a dinâmica de conversão de vegetação nativa em lavoura mecanizada, sobretudo de soja e algodão, seguiu mais intensa.
O Mato Grosso, embora mais conhecido pelo desmatamento amazônico, lidera no Cerrado há três anos consecutivos. A razão é combinação de fatores: disponibilidade de terra, aptidão agrícola, malha logística consolidada e, no plano fiscalizatório, efetividade insuficiente dos órgãos de controle em área de difícil acesso.
O caso do Distrito Federal
No extremo oposto da tabela está o Distrito Federal. Unidade federativa menor do Brasil em extensão, o DF tem, entretanto, perfil institucional-ambiental raro.
Sua malha de áreas protegidas cobre aproximadamente 42% do território — proporção muito superior à média brasileira, de 18%.
Esse manto protetivo é composto por unidades de conservação federais (como o Parque Nacional de Brasília, a APA da Bacia do Rio Descoberto e a APA do Planalto Central), reservas biológicas estaduais, estações ecológicas e parques urbanos com status de proteção. A sobreposição territorial dessas figuras jurídicas cria, na prática, um cinturão que torna a conversão de vegetação nativa em uso consolidado processo administrativamente difícil e fiscalmente arriscado.
A topografia ajuda. Grandes porções do DF são dominadas por chapadas, veredas e áreas de recarga de aquíferos, unidades fisiográficas historicamente resguardadas no planejamento urbano da capital desde os anos 1960.
O zoneamento ecológico-econômico distrital, atualizado em 2019 e novamente em 2024, classifica cerca de 58% do território como zona de proteção ambiental ou uso restrito.
O resultado empírico dessa combinação é o número do ano anterior: menos de 2 km² desmatados em todo o exercício. A título de comparação, a Bahia perdeu, em média, 15 km² por dia no Cerrado no exercício anterior.
Por que a diferença
A explicação mais simples para o contraste seria demográfica — o DF é território urbanizado, não há frente agrícola expansiva. A explicação é parcialmente verdadeira e insuficiente.
Outros estados de perfil demográfico denso, como São Paulo e Rio de Janeiro (que não partilham do Cerrado), também teriam baixo desmatamento por razões análogas, e de fato têm. Mas Goiás, estado que circunda o DF e compartilha os mesmos gradientes fisiográficos e econômicos, registrou 142 km² de perda no exercício anterior — 70 vezes mais do que o território distrital em números absolutos, e praticamente infinito em termos relativos.
A diferença, portanto, não é só demografia. É institucional.
O DF, por ser capital da República, concentra três vantagens singulares: primeiro, presença maciça de órgãos federais de fiscalização (Ibama, ICMBio, Polícia Federal ambiental); segundo, proximidade física da imprensa de grande circulação e das instâncias decisórias, o que aumenta o custo reputacional de qualquer infração; terceiro, massa crítica de servidores da área ambiental que residem e atuam no próprio território, criando densidade técnica difícil de replicar em outras unidades.
Somam-se a esses fatores o histórico planejamento urbano-ambiental da capital, conduzido desde os anos 1980 pelos sucessivos governos distritais em diálogo com a comunidade acadêmica da Universidade de Brasília e com o terceiro setor. A malha de conselhos, comitês de bacia, grupos de trabalho intersetoriais e órgãos colegiados criou um ambiente de monitoramento difuso — onde qualquer intervenção fora de regra tende a ser rapidamente identificada.
O Cerrado que se perde lá fora
Ao observar o mapa nacional, o resultado do DF é ilha cercada por perda crescente. Nos seis anos entre 2020 e 2025, o Cerrado perdeu cerca de 19.700 km² — equivalente a um território maior que o Estado de Sergipe.
A Amazônia, no mesmo período, perdeu menos em termos absolutos: cerca de 13.400 km².
A inversão é nova. Até 2019, a Amazônia encabeçava todos os rankings de desmatamento.
De 2020 em diante, a destruição migrou para o Cerrado — bioma de sensibilidade hidrológica estratégica, por abrigar as nascentes de 8 das 12 maiores bacias hidrográficas brasileiras. Perder Cerrado é, em médio prazo, comprometer a segurança hídrica do país.
A sociedade brasileira ainda não absorveu plenamente a gravidade do processo. O Cerrado não tem, na opinião pública, o mesmo capital simbólico da Amazônia — e, por isso, sua destruição acontece sob menos escrutínio.
Os incêndios florestais que o consomem periodicamente, agravados pelas secas prolongadas dos últimos anos, tampouco geram a mesma comoção midiática.
Uma lição operacional
O que o caso do DF demonstra é simples e, ao mesmo tempo, difícil de replicar. A conservação efetiva não depende apenas de lei — depende da combinação entre lei, fiscalização operante, monitoramento técnico contínuo e pressão social informada.
Onde esses quatro elementos se encontram, a perda de vegetação cai a números residuais. Onde falta qualquer um deles, a curva dispara.
O desafio nacional é reproduzir, em territórios 100 vezes maiores, a densidade institucional que o Distrito Federal concentrou em seus 5.780 km². Não é tarefa que se resolva com decreto ou anúncio.
Exige presença física do Estado, continuidade de políticas através de ciclos eleitorais e recurso orçamentário compatível com a extensão do bioma a proteger.
O dado de 3.420 km² perdidos no exercício anterior é o retrato atual desse desafio não enfrentado. O dado de 2 km² no DF é a prova de que, quando se quer, dá para fazer diferente.
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