
Queimada no Cerrado goiano em fevereiro de 2026 — o bioma perdeu 1,2 milhão de hectares só no primeiro trimestre
Cerrado perdeu 1,2 milhão de hectares para queimadas no primeiro trimestre de 2026
Dados do INPE mostram que o Cerrado queima mais rápido que a Amazônia — e com menos atenção da mídia e do governo.
O fogo começa sem aviso. Uma faísca no capim seco, uma brasa de cigarro jogada da estrada, um raio na madrugada — e em minutos a linha laranja corre pelo chão do Cerrado como cobra de luz, devorando tudo que encontra. Dona Aparecida Santos, 63 anos, pequena produtora de frutas na chapada dos Veadeiros, acordou às duas da manhã de um sábado de fevereiro com o som do estalar das árvores — o barulho que o Cerrado faz quando arde, seco como palha, quente como forja. O fogo chegou pela cerca do vizinho. O cheiro de fumaça grossa, misturado à resina dos buritis queimando, invadiu a casa antes que ela conseguisse vestir os sapatos. "Perdi oito pés de pequi que meu pai plantou", disse ao ICMBio na vistoria do dia seguinte, com as mãos negras de cinza. "Oito pés. Quarenta anos de sombra viraram carvão em uma hora."
Entre janeiro e março de 2026, o Cerrado registrou 18.742 focos de incêndio e perdeu 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa. Os focos cresceram 34% em relação ao mesmo trimestre de 2025. Enquanto isso, a Amazônia — que recebe cinco vezes mais verba de combate — registrou 11.204 focos no período.
O Cerrado queima mais. Queima mais rápido. Queima com menos câmeras apontadas. E o fogo, ao contrário das promessas de Brasília, não respeita discurso nem orçamento.
Os números da destruição
O sistema BDQueimadas do INPE rastreia focos de calor por satélite em tempo real. Os dados do primeiro trimestre confirmam uma tendência que se repete há três anos: o Cerrado concentra mais da metade dos focos do país e recebe uma fração dos recursos.
| Bioma | Focos (jan-mar 2026) | Focos (jan-mar 2025) | Variação | Área afetada | |-------|---------------------|---------------------|----------|--------------| | Cerrado | 18.742 | 13.986 | +34,0% | 1,2 mi ha | | Amazônia | 11.204 | 12.831 | -12,7% | 890 mil ha | | Mata Atlântica | 3.417 | 2.894 | +18,1% | 210 mil ha | | Caatinga | 2.186 | 1.903 | +14,9% | 340 mil ha | | Pantanal | 891 | 1.247 | -28,5% | 120 mil ha | | Pampa | 312 | 287 | +8,7% | 45 mil ha |
A Amazônia reduziu seus focos em 12,7% — resultado direto de R$ 2,8 bilhões em fiscalização, brigadas e tecnologia despejados no bioma ao longo do exercício anterior. O Cerrado, que recebeu R$ 540 milhões no mesmo exercício, queimou 34% mais. Observe a proporção: cinco vezes menos dinheiro, três vezes mais fogo.
Os estados que alimentam a fogueira
Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Tocantins e Bahia concentram 78% dos focos. O arco do desmatamento cruza exatamente as fronteiras agrícolas mais dinâmicas — onde a soja avança sobre a vegetação nativa com velocidade industrial e o fogo é ferramenta, não acidente.
| Estado | Focos no Cerrado (1ºtri 2026) | % do total | Variação vs 2025 | |--------|-------------------------------|-----------|------------------| | Goiás | 3.936 | 21,0% | +41,2% | | Mato Grosso | 3.186 | 17,0% | +28,7% | | Minas Gerais | 2.999 | 16,0% | +31,4% | | Tocantins | 2.624 | 14,0% | +38,9% | | Bahia | 1.874 | 10,0% | +27,3% | | Maranhão | 1.312 | 7,0% | +44,1% | | DF + Entorno (RIDE) | 1.499 | 8,0% | +36,8% | | Outros | 1.312 | 7,0% | +19,5% |
Goiás lidera com 3.936 focos — aumento de 41,2%. O Maranhão, na transição Cerrado-Amazônia, cresceu 44,1% e registra a expansão mais acelerada de desmatamento em área de Cerrado. Cada ponto percentual de crescimento é um pedaço de bioma que não volta — não na escala de uma vida humana, não na escala de um mandato.
O fogo na porta de Brasília
O DF e os 33 municípios do Entorno registraram 1.499 focos no primeiro trimestre — aumento de 36,8%. Áreas de proteção ambiental que deveriam ser santuários arderam como qualquer pasto abandonado.
| Unidade de conservação (DF) | Focos (1ºtri 2026) | Focos (1ºtri 2025) | |----------------------------|--------------------|--------------------| | Estação Ecológica de Águas Emendadas | 23 | 9 | | Parque Nacional de Brasília | 18 | 12 | | APA do Descoberto | 31 | 19 | | APA de Cafuringa | 14 | 8 | | Reserva Biológica do Cerradão | 7 | 3 |
A APA do Descoberto — que protege o reservatório responsável por 65% do abastecimento de água do DF — registrou 31 focos, aumento de 63%. Queimadas nessa região comprometem a qualidade da água e aceleram o assoreamento do lago. O fogo que parece distante, nos chapadões de Goiás, já afeta a torneira de quem mora em Taguatinga. A fumaça que Dona Aparecida sentiu às duas da manhã em Veadeiros é a mesma que turva o céu de Brasília em setembro.
O bioma invisível: R$ 2,65 por hectare
O Cerrado alimenta 8 das 12 bacias hidrográficas do Brasil. Dele nascem os rios que abastecem o Pantanal, parte da Amazônia e quase todo o Nordeste via bacia do São Francisco. Sem Cerrado, não há água — para ninguém.
O governo sabe disso. O PPCerrado existe desde 2010. Em 15 anos de existência, nunca recebeu mais de R$ 600 milhões num único exercício. A Amazônia, no mesmo período, teve anos com R$ 3 bilhões ou mais.
| Bioma | Orçamento federal executado em 2025 | Área total | R$/hectare | |-------|------------------------------------------------|-----------|-----------| | Amazônia | R$ 2,8 bilhões | 420 mi ha | R$ 6,67 | | Cerrado | R$ 540 milhões | 204 mi ha | R$ 2,65 | | Mata Atlântica | R$ 320 milhões | 131 mi ha | R$ 2,44 | | Pantanal | R$ 280 milhões | 15 mi ha | R$ 18,67 | | Caatinga | R$ 180 milhões | 84 mi ha | R$ 2,14 |
A Amazônia recebe R$ 6,67 por hectare. O Cerrado, R$ 2,65. A diferença não reflete importância ecológica — reflete importância política. A Amazônia mobiliza opinião pública internacional, gera manchetes no New York Times, move protestos europeus. O Cerrado não aparece na capa de nenhuma revista. Não tem Leonardo DiCaprio postando foto. Não tem fundação bilionária dedicada à sua preservação.
Essa lógica é perversa e preguiçosa. O Cerrado detém 5% da biodiversidade mundial e concentra 70% dos mananciais que abastecem o país. Destruí-lo por falta de visibilidade midiática é decisão política travestida de limitação orçamentária.
Fiscalização pela metade — no melhor dos dias
O IBAMA opera no Cerrado com 412 fiscais para 204 milhões de hectares. Cada fiscal cobre, em média, 495 mil hectares — uma área maior que o Distrito Federal inteiro. Na Amazônia, a proporção é um fiscal para 280 mil hectares.
O ICMBio tem situação ainda mais grave. Das 67 unidades de conservação federais no Cerrado, 23 não possuem plano de manejo atualizado. Outras 11 operam com menos de dois servidores. A brigada contra incêndios do IBAMA no DF, que deveria contar com 120 brigadistas conforme o plano operacional do ano anterior, operou com 58 durante o pico de janeiro. Metade do efetivo. A justificativa: "contingenciamento de diárias."
O som do fogo avançando é mais alto que o som de um ofício de contingenciamento. Mas em Brasília, o papel fala mais alto que as chamas.
A hipocrisia da COP e o Cerrado de dois parágrafos
O Brasil levou à COP 30, em Belém, metas ambiciosas para a Amazônia: desmatamento zero até 2030, restauração de 12 milhões de hectares, R$ 15 bilhões em investimentos verdes. O Cerrado apareceu em dois parágrafos de um documento de 47 páginas.
Proteger a Amazônia enquanto se abandona o Cerrado é como trancar a porta da frente e deixar a janela dos fundos aberta. Os rios que alimentam a Amazônia nascem no Cerrado. Se as nascentes secarem — e elas estão secando —, a floresta sofre por tabela.
O MapBiomas mostrou que entre 2000 e 2025 o Cerrado perdeu 28% de sua cobertura vegetal original. A Amazônia, 17%. O bioma que mais perdeu área nativa nesse quarto de século é justamente o que menos recebe atenção. O fogo não discrimina entre biomas. A política, sim.
A fauna que arde em silêncio
O Cerrado abriga 12.356 espécies de plantas catalogadas — 35% delas endêmicas, ou seja, não existem em nenhum outro lugar do planeta. A fauna soma 1.268 espécies de vertebrados, incluindo o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o pato-mergulhão, este último com menos de 250 indivíduos em vida livre. O fogo não discrimina entre espécies comuns e ameaçadas — consome tudo na mesma velocidade, com a mesma indiferença.
O ICMBio documentou que incêndios no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros entre janeiro e março de 2026 destruíram 4.200 hectares de veredas — ecossistema úmido que funciona como refúgio para espécies durante a seca. As veredas concentram buritis, que levam 30 anos para atingir maturidade reprodutiva. Uma vereda queimada leva entre 15 e 20 anos para se regenerar parcialmente — se não for queimada de novo nesse intervalo. Pesquisadores do Instituto Chico Mendes resgataram 23 tamanduás-bandeira com queimaduras de segundo e terceiro grau nas patas só no primeiro trimestre. A taxa de sobrevivência pós-resgate é de 40%. Os outros 60% morrem de infecção, desidratação ou estresse — o som do animal em sofrimento, descrito pelos veterinários como um gemido longo e grave, é algo que não se esquece.
O lobo-guará, símbolo da nota de R$ 200, perdeu 18% de seu habitat nos últimos dez anos. A população estimada caiu de 24 mil para 17 mil indivíduos. Cada queimada empurra a espécie para fragmentos menores de vegetação, onde a consanguinidade reduz a viabilidade genética. A ironia amarga: o animal estampado no dinheiro brasileiro está desaparecendo porque o Brasil não gasta dinheiro suficiente para protegê-lo.
O Jardim Botânico de Brasília mantém um banco de sementes com 2.800 espécies do Cerrado — uma arca de Noé vegetal que preserva o material genético contra a extinção. Mas o banco opera com orçamento de R$ 1,2 milhão por ano e equipe de nove pesquisadores. A capacidade de armazenamento está em 78%. Se o ritmo de destruição se mantiver, o banco se tornará não um complemento à conservação in situ, mas o único registro de espécies que existiram — um museu de sementes de um bioma que decidimos deixar queimar.
A ironia que queima o agronegócio
A destruição do Cerrado atinge frontalmente o setor que mais pressiona por flexibilização ambiental. O bioma regula o ciclo de chuvas que alimenta a agricultura do Centro-Oeste. Estudos da Embrapa publicados no ano passado estimaram que a perda de cobertura nativa já reduz a precipitação média na região em 8% a 12% durante o período seco.
Menos chuva é menos produtividade. Cada hectare de vegetação nativa eliminado compromete entre 6 mil e 10 mil litros de água por dia que deixam de retornar ao ciclo hidrológico por evapotranspiração. Produtores de Goiás já registraram queda de 5% a 7% na produtividade de safras irrigadas em áreas próximas a grandes desmatamentos, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento.
A conta é paradoxal: desmatar o Cerrado para plantar soja reduz, no médio prazo, a viabilidade da própria soja. O agronegócio exportou US$ 166 bilhões nos últimos doze meses. Menos de 1% seria suficiente para financiar restauração e corredores ecológicos. A destruição não é só problema ambiental — é risco econômico para o próprio setor que a promove. O fogo que limpa a terra para o plantio é o mesmo fogo que seca a chuva que o plantio precisa.
O custo hídrico: 9,6 bilhões de litros perdidos
Cada hectare de Cerrado queimado compromete em média 8 mil litros de recarga hídrica por ano, segundo a Embrapa Cerrados. Os 1,2 milhão de hectares perdidos no primeiro trimestre representam 9,6 bilhões de litros de água que deixarão de alimentar lençóis freáticos, nascentes e reservatórios.
O reservatório do Descoberto, que abastece 65% de Brasília, está hoje em 72% de capacidade — nível de atenção pela CAESB. Em 2017, chegou a 19% e o DF enfrentou racionamento durante cinco meses. As queimadas na APA do Descoberto aceleram o assoreamento e reduzem a capacidade de recarga. A temperatura da água sobe. O nível desce. E o brasiliense que abre a torneira não conecta os dois eventos — mas deveria.
O ar que Brasília respira
O morador do Plano Piloto que acompanha as queimadas pelo noticiário pode acreditar que o problema é distante — coisa de chapada, de fronteira agrícola, de interior profundo. A ilusão dura até setembro, quando a fumaça das queimadas do Entorno transforma o céu de Brasília numa abóbada cinza e a umidade relativa do ar despenca para níveis de deserto.
Em setembro de 2024, estações de monitoramento da qualidade do ar da Universidade de Brasília registraram concentração de material particulado fino (PM2.5) de 89 microgramas por metro cúbico — quase quatro vezes acima do limite de 25 recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O Hospital de Base registrou aumento de 42% nos atendimentos de emergência por crises asmáticas e 28% por infecções respiratórias em crianças menores de cinco anos durante aquele mês. O custo estimado para a rede pública de saúde do DF: R$ 18 milhões em internações e atendimentos diretamente atribuíveis à poluição por queimadas.
As projeções para setembro de 2026 são piores. Com 34% mais focos no primeiro trimestre e previsão de seca prolongada pelo fenômeno La Niña, a Defesa Civil do DF classificou o risco de incêndios florestais como "muito alto" para o segundo semestre. O Corpo de Bombeiros Militar do DF opera com 180 militares treinados para combate a incêndios florestais — contra 320 recomendados pelo próprio plano operacional da corporação. A diferença entre o efetivo real e o necessário se traduz em hectares que ardem sem resposta, em nascentes que secam sem testemunha, em ar que adoece sem culpado identificável. O Cerrado queima no Entorno. Brasília tosse no Plano Piloto. A distância entre os dois é menor do que parece — e se mede em partículas de fumaça por metro cúbico de ar.
O que o Cerrado precisa — e o que recebe
Não precisa de discursos na COP. Precisa de três coisas concretas.
Orçamento proporcional. Se o critério for importância hídrica, o Cerrado deveria receber mais que a Amazônia. Um aumento de R$ 540 milhões para R$ 1,5 bilhão cobriria fiscalização adequada, brigadas completas e monitoramento por satélite em tempo real.
Fiscais em número suficiente. Os 412 atuais são incapazes de cobrir 204 milhões de hectares. O mínimo operacional estimado pelo TCU é de 800. O IBAMA não abriu concurso para fiscal desde 2021.
Penalização efetiva. O valor médio das multas aplicadas pelo IBAMA por queimada ilegal no Cerrado é de R$ 5.200 por hectare. A receita bruta de um hectare de soja no primeiro ano pós-desmatamento gira entre R$ 4.500 e R$ 6.800. A multa, quando cobrada — e a taxa de cobrança efetiva é de apenas 4,7% —, é menor que o lucro da atividade que motivou o fogo. Queimar compensa. Enquanto a equação econômica favorecer a destruição, nenhum discurso ambientalista mudará o comportamento de quem acende o fósforo. O cálculo é frio, racional e devastador: o fogo é investimento, não crime. Mudar essa lógica exige multas que doam de verdade e cobrança que funcione de fato.
Integração com estados. Goiás, Mato Grosso e Tocantins têm estruturas de fiscalização estadual, mas a integração com o IBAMA é precária. Bases de dados não conversam. Operações conjuntas são raras. O fogo não respeita fronteira administrativa — a fiscalização, sim.
O custo total estimado para implementar as três medidas — orçamento de R$ 1,5 bilhão, 800 fiscais e sistema integrado com estados — é de R$ 2,1 bilhões por ano. É menos da metade do que o governo federal gasta anualmente com publicidade institucional (R$ 4,8 bilhões em 2024, segundo o Tribunal de Contas da União). A diferença entre proteger o Cerrado e abandoná-lo não é de recursos — é de escolha.
O satélite que vê tudo — e o governo que não age
O Brasil dispõe de um dos sistemas de monitoramento por satélite mais avançados do mundo. O INPE opera o DETER (Detecção de Desmatamento em Tempo Real) e o BDQueimadas com resolução temporal de 12 horas. Cada foco de calor é georreferenciado, datado e classificado por bioma em menos de 24 horas. O MapBiomas cruza imagens de satélite com cadastros fundiários e identifica o proprietário do terreno onde o fogo começou.
A tecnologia existe. A informação está disponível. O IBAMA recebe alertas automáticos toda vez que um foco de calor é detectado em área protegida. O problema não é detecção — é ação. Entre o alerta do satélite e a chegada de uma equipe de fiscalização ao local, o intervalo médio é de 72 horas no Cerrado. Em 72 horas, um incêndio em vegetação seca pode consumir 3 mil hectares. O satélite vê o fogo em tempo real. O fiscal chega três dias depois para constatar as cinzas. A distância entre ver e agir é a distância entre ter tecnologia e ter vontade política de usá-la.
O custo anual de operação do BDQueimadas e do DETER é de R$ 28 milhões — menos de 0,5% do orçamento destinado à Amazônia. O sistema funciona para os dois biomas. O que muda é o que acontece depois do alerta.
Em setembro de 2024, o DF registrou níveis de poluição atmosférica comparáveis aos de São Paulo. A umidade relativa do ar chegou a 8% — nível de deserto. Hospitais da rede pública tiveram aumento de 35% nos atendimentos por doenças respiratórias. Cada hectare queimado no Entorno contribui para essa realidade. O morador de Águas Claras que sente a garganta arranhar em julho não está gripado — está respirando o Cerrado que virou cinza.
Dona Aparecida replantou dois pés de pequi em março, nas primeiras chuvas. São mudas finas, frágeis, que levarão quinze anos para dar frutos — se o fogo não voltar antes. Ela as rega toda manhã, descalça na terra escura que ainda cheira a carvão. O Cerrado tem essa capacidade: renasce das cinzas, brota do chão queimado, insiste em viver apesar de tudo. Mas a resiliência do bioma não é infinita. O MapBiomas documentou que áreas queimadas três vezes em uma década não se regeneram naturalmente — o solo perde a capacidade de sustentar as raízes profundas que buscam água a quinze metros. A regeneração depende de tempo, e o tempo é exatamente o que o Cerrado está perdendo. O bioma que abastece as torneiras de Brasília, que alimenta o São Francisco, que regula as chuvas do Centro-Oeste — esse bioma queima enquanto o governo debate jurisdição, enquanto o orçamento contingencia diárias e enquanto a fiscalização chega três dias depois do satélite ver o fogo. A cada trimestre que os números sobem e o orçamento não acompanha, o bioma que sustenta a água de 80 milhões de brasileiros se aproxima de um ponto sem retorno — não por catástrofe, mas por negligência calculada, repetida, confortável.
O Cerrado não tem porta-voz em Davos. Não tem hashtag viral. Não tem celebridade internacional pedindo doações. Tem apenas raízes profundas, nascentes silenciosas e uma capacidade de regeneração que diminui a cada queimada. O bioma resiste como pode. A pergunta é quanto tempo o "pode" ainda dura — e se o Brasil decidirá protegê-lo antes que a resposta chegue em forma de torneira seca, colheita perdida e ar irrespirável.
Focos de incêndio: BDQueimadas/INPE, dados extraídos em 01/04/2026. Áreas queimadas: estimativa MapBiomas Fogo com base em imagens Landsat e Sentinel-2. Orçamentos federais: LOA 2025 + créditos suplementares (SIOP/SOF). Dados hídricos: Embrapa Cerrados (Boletim Técnico 391) e CAESB (Relatório de Monitoramento Hídrico, março/2026). Unidades de conservação: ICMBio/CNUC.
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