
O Parque Tecnológico BIOTIC, em Granja do Torto, abriga o Centro Integrado de Inteligência Artificial do DF e startups como a Peptidus Biotech
Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava
Brasília concentra 448 startups ativas, um centro de inteligência artificial de R$ 5 milhões no Parque Tecnológico BIOTIC e uma startup que disputou prêmio em Harvard. Do lado federal, o Serpro desenvolve um modelo de linguagem próprio com mais de 10 bilhões de parâmetros. Os números impressionam. O problema é o que acontece entre a inauguração e a entrega.
Brasília tem 448 startups e R$ 5 mi em IA pública — mas a burocracia trava
Quatro números resumem o paradoxo tech de Brasília em 2026. O Distrito Federal possui 448 startups ativas e ocupa a 4ª posição no ranking nacional. O Governo do DF investiu R$ 5 milhões num centro de inteligência artificial dentro do Parque Tecnológico BIOTIC. Uma startup brasiliense disputou final em Harvard e MIT. E o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial promete R$ 23 bilhões até 2028.
O problema: entre o anúncio e a execução, o ecossistema tropeça numa teia de regulação lenta, investimento público pulverizado e dependência crônica do governo federal como cliente. Brasília tem talento, infraestrutura e capital político. Falta quem tire o Estado do caminho do empreendedor.
O ranking: onde Brasília se posiciona
O Observatório de Startups do Sebrae mapeou 22.869 startups ativas no Brasil. São Paulo lidera com 1.911 empresas. Florianópolis surpreende em segundo lugar com 790. Rio de Janeiro aparece em terceiro com 581. Brasília vem logo atrás com 448.
A composição setorial do DF difere das demais capitais. Enquanto São Paulo concentra fintechs e Florianópolis exporta SaaS, Brasília tem vocação para govtech — soluções que vendem para o próprio Estado. Faz sentido: o maior empregador da cidade é o governo federal.
| Cidade | Startups ativas | Especialidade principal | Posição | |--------|----------------|------------------------|---------| | São Paulo | 1.911 | Fintech, marketplace | 1ª | | Florianópolis | 790 | SaaS, edtech | 2ª | | Rio de Janeiro | 581 | Healthtech, mídia | 3ª | | Brasília | 448 | Govtech, defesa, biotech | 4ª | | Belo Horizonte | 387 | Agtech, legaltech | 5ª | | Curitiba | 342 | Logtech, indústria 4.0 | 6ª |
O dado bruto parece positivo. A distância para o terceiro lugar é de 133 empresas — gap factível de fechar em dois anos com política de incentivo fiscal focada. Mas há um detalhe que o ranking não mostra: a taxa de sobrevivência. Das startups brasilienses ativas em 2023, uma parcela considerável depende de contratos com órgãos públicos. Quando a licitação atrasa ou a rubrica orçamentária muda, a empresa morre de inanição.
BIOTIC: o parque que demorou 15 anos para acontecer
O Parque Tecnológico Capital Digital — rebatizado como BIOTIC — foi concebido em 2008. Sim, 2008. A Lei Distrital nº 4.507/2010 criou formalmente o projeto. A Terracap ficou responsável pela infraestrutura. O primeiro grande marco concreto foi o datacenter do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, inaugurado em 2013.
De 2013 a 2024, o parque funcionou em ritmo de banho-maria. Editais abriram e fecharam. Startups entraram e saíram. A promessa de um polo de biotecnologia e TIC permaneceu mais no PowerPoint do que no concreto.
O cenário mudou no ano passado. O GDF inaugurou, em maio, o Centro Integrado de Inteligência Artificial — o CIIA. E em agosto, o Laboratório Multiusuário de Inteligência Artificial — o LIA. Duas siglas novas, desta vez com dinheiro real atrás.
| Marco | Ano | Investimento | Status | |-------|------|-------------|--------| | Criação legal do BIOTIC | 2010 | — | Concluído | | Datacenter BB/Caixa | 2013 | Não divulgado | Operacional | | Instalação do IPT | 2024 | Não divulgado | Operacional | | Inauguração do CIIA | Mai/25 | R$ 5 milhões (1ª fase) | Em operação | | Inauguração do LIA | Ago/25 | Incluso no CIIA | Em operação | | Peptidus — finalista HackBrazil | Mar/2026 | — | Concluído |
O investimento total na primeira fase do CIIA é de R$ 5 milhões, com previsão de R$ 6 milhões adicionais em dois anos. Até agora, cerca de R$ 400 mil foram executados em infraestrutura e equipamentos — 8% do total prometido. O restante ficou para "até o final do ano passado", que já passou. A meta era executar mais de 10 projetos-piloto em 12 meses e treinar 300 profissionais.
Nenhum relatório público de acompanhamento dessas metas foi publicado até esta data.
Peptidus: a startup que foi a Harvard (e voltou sem o prêmio)
A Peptidus Biotech é o caso de vitrine do BIOTIC. Fundada pelos cientistas Bernardo Petriz e Octávio Franco, a empresa usa inteligência artificial integrada com biologia molecular para descobrir terapias baseadas em peptídeos para saúde animal.
Em março de 2026, a Peptidus foi uma das três finalistas do HackBrazil, competição de inovação da Brazil Conference realizada em Harvard e MIT. Concorreu contra 204 inscrições de todo o Brasil. Não levou o prêmio de R$ 100 mil — quem ganhou foi a Flori Tech, do Rio de Janeiro. Mas a exposição internacional é ativo real.
O caso ilustra uma dinâmica recorrente em Brasília: o talento científico existe, a incubação funciona, a projeção internacional acontece. O gargalo está na escala. A Peptidus é uma empresa. O ecossistema precisa de dezenas como ela. E para isso, precisa de venture capital — recurso escasso no DF.
Enquanto São Paulo concentra os escritórios da Monashees (US$ 700 milhões em dois novos fundos), da Kaszek e da SoftBank Latin America, Brasília tem presença marginal no circuito de VC. Fundos de investimento preferem ficar perto do dealflow. E o dealflow brasiliense ainda é pequeno demais para justificar um escritório dedicado.
O Plano Federal: R$ 23 bilhões, cinco pilares e muita promessa
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial foi publicado em junho do ano passado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Promete R$ 23 bilhões até 2028 distribuídos em cinco eixos.
| Eixo do PBIA | Orçamento previsto | % do total | |-------------|-------------------|------------| | IA para inovação empresarial | R$ 13,79 bilhões | 59,9% | | Infraestrutura e desenvolvimento | R$ 6,97 bilhões | 30,3% | | Melhoria de serviços públicos | R$ 1,76 bilhão | 7,6% | | Formação e capacitação | R$ 1,15 bilhão | 5,0% | | Regulação e governança | R$ 103,25 milhões | 0,4% |
Dois dados chamam atenção. Primeiro: quase 60% do orçamento vai para "inovação empresarial" — categoria ampla que inclui desde crédito subsidiado até editais de pesquisa aplicada. Dinheiro disperso em mil linhas orçamentárias raramente chega na ponta.
Segundo: regulação e governança recebem 0,4% do total. R$ 103 milhões para definir as regras do jogo de uma tecnologia que vai remodelar o mercado de trabalho, a administração pública e a segurança nacional. Para comparar: o AI Act europeu mobilizou equipes dedicadas em mais de 20 agências reguladoras por três anos.
As metas específicas para 2026 incluem capacitar 115 mil servidores públicos em IA (investimento de R$ 7,5 milhões), disponibilizar plataforma de infraestrutura para modelos de IA no Poder Executivo federal e realizar 25 ciclos de estruturação de projetos com IA em serviços públicos.
SerproLLM: o governo quer seu próprio ChatGPT
O Serpro — a estatal federal de TI sediada em Brasília — está desenvolvendo o SerproLLM, um modelo de linguagem com mais de 10 bilhões de parâmetros. O objetivo declarado: soberania digital. Treinar em dados brasileiros, hospedar em infraestrutura nacional, operar sob controle público.
Em fevereiro de 2026, uma agenda técnica na sede do Serpro em Brasília reuniu áreas de governo para articular a construção de capacidades em todas as etapas do desenvolvimento de modelos de linguagem — governança, curadoria de dados, arquitetura, treinamento e avaliação.
O projeto tem lógica estratégica. Dados sensíveis do governo brasileiro não devem rodar em servidores da OpenAI ou do Google. Um modelo soberano em português, treinado com bases nacionais, faz sentido para aplicações como a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional — que já usa IA para agilizar processos — ou o INSS, que processa milhões de benefícios.
O risco é conhecido: estatal fazendo produto de tecnologia de ponta. O Serpro já lançou o ConversAI Studio em parceria com o Google — uma plataforma de IA generativa para uso seguro no governo. A pergunta incômoda é se faz mais sentido comprar modelo pronto e adaptar ou gastar anos e bilhões tentando competir com empresas que investem US$ 10 bilhões por trimestre em treinamento.
A resposta conservadora: compre o que funciona e invista a diferença em aplicação. A soberania digital real não está no modelo base — está na camada de dados e na governança sobre o que entra e o que sai. O SerproLLM pode ser uma façanha técnica. Pode também ser mais um projeto de estatal que nasce grande e entrega pouco.
O Marco Legal da IA: 16 meses parado na Câmara
O Senado aprovou o PL 2.338/2023 em dezembro de 2024. O texto classifica sistemas de IA por nível de risco, exige transparência sobre dados de treinamento e dá a autores o direito de vetar o uso de suas obras por modelos generativos.
Desde então, o projeto está na Câmara dos Deputados. Abril de 2026 — 16 meses depois da aprovação no Senado. Nenhuma votação em plenário.
O atraso não é acidental. Há pressão de dois lados. Empresas de tecnologia querem regras mais brandas — argumentam que regulação rígida empurra inovação para fora do país. Setores criativos e sindicatos querem proteção máxima contra automação e uso de dados. O Congresso, como de costume, escolheu não escolher.
Para Brasília como ecossistema tech, a indefinição regulatória é veneno. Startups de IA não sabem se o produto que estão desenvolvendo será legal daqui a seis meses. Investidores estrangeiros olham para o Brasil e veem um mercado de 210 milhões de consumidores sem regras claras. A China já regulou. A Europa já regulou. Os Estados Unidos operam por ordem executiva. O Brasil debate.
A posição editorial do Mirante é clara: regulação precisa existir, mas precisa ser leve, previsível e amigável ao empreendedor. O AI Act europeu virou um calhamaço de 459 páginas que gerou mais empregos para advogados de compliance do que para desenvolvedores de IA. O Brasil não precisa copiar esse modelo. Precisa de regras simples: transparência sobre o que a IA faz, responsabilidade clara quando ela erra, e liberdade para inovar no resto.
O que falta: capital privado e menos Estado
O ecossistema tech de Brasília tem três problemas estruturais que nenhum plano governamental resolve.
Primeiro: dependência do Estado como cliente. A vocação govtech é faca de dois gumes. Quando o governo compra, a startup cresce. Quando o governo atrasa pagamento — e atrasa sempre — a startup agoniza. Diversificar a base de clientes para o setor privado e para exportação é questão de sobrevivência.
Segundo: ausência de venture capital local. Os grandes fundos de VC brasileiros ficam em São Paulo. A Monashees captou US$ 700 milhões em dois novos fundos no ano passado. A Kaszek opera da Argentina e de São Paulo. Nenhum fundo relevante tem sede em Brasília. A consequência é previsível: startups promissoras do DF migram para São Paulo na primeira rodada série A.
Terceiro: burocracia do próprio governo local. O BIOTIC levou 15 anos para sair do papel. O CIIA prometeu R$ 5 milhões e executou R$ 400 mil até o final do ano passado. A Terracap — que administra os terrenos — opera com a velocidade de uma autarquia fundiária dos anos 80. Para um setor que mede o tempo em sprints de duas semanas, esperar 15 anos por um parque tecnológico é uma piada sem graça.
| Problema | Causa raiz | O que resolveria | |----------|-----------|-----------------| | Dependência do Estado | DF é capital federal, governo é o maior cliente | Incentivo fiscal para startups que exportem ou vendam para setor privado | | Falta de VC local | Dealflow pequeno, fundos concentrados em São Paulo | Fundo de coinvestimento do GDF com gestores privados (modelo Israel/Yozma) | | Burocracia fundiária | Terracap lenta, editais complexos | Autoridade especial para o BIOTIC com poder de decisão acelerado | | Regulação federal indefinida | PL 2.338 parado há 16 meses | Aprovação com texto enxuto e sandbox regulatório para startups |
O cenário de 2028: três caminhos
Cenário otimista (probabilidade: 25%). O Marco Legal da IA passa em 2026 com texto enxuto. O PBIA executa pelo menos 40% do orçamento prometido. O BIOTIC atrai 50+ novas empresas. Brasília sobe para 3º lugar no ranking de startups. Um fundo de VC local surge com apoio do BRB ou da Terracap. O SerproLLM entrega um produto funcional para uso governamental.
Cenário base (probabilidade: 55%). O PL 2.338 é aprovado em 2027 com emendas que ninguém entende. O PBIA executa 15-20% do orçamento. O BIOTIC cresce devagar. Brasília mantém a 4ª posição. Startups promissoras continuam migrando para São Paulo. O SerproLLM funciona internamente, mas não compete com soluções de mercado.
Cenário pessimista (probabilidade: 20%). Regulação travada até 2028. PBIA vira rubrica orçamentária que o Congresso contingencia todo ano. BIOTIC estagna. Brasília cai para 5ª ou 6ª posição. O ecossistema local sobrevive apenas de contratos públicos.
O dado mais revelador do futuro de Brasília como polo tech não está em nenhum plano de governo. Está na pergunta que toda startup faz antes da série A: "para onde a gente muda?"
Enquanto a resposta for São Paulo, Brasília será incubadora — não ecossistema.
Análise editorial: o empreendedor não precisa de plano, precisa de espaço
O governo brasileiro gosta de planos. PBIA, PNDI, EBIA, CIIA, LIA — é sopa de letras para toda direção. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial tem cinco eixos, 23 bilhões de reais em promessas e dezenas de metas com data de entrega. O problema é que plano não é execução.
O ecossistema de startups de Brasília cresceu apesar do governo, não por causa dele. A Peptidus não precisou de plano estratégico federal para chegar a Harvard. Precisou de laboratório, mentor e mercado. As 448 startups ativas no DF não nasceram de edital. Nasceram de gente que resolveu problemas reais e encontrou cliente disposto a pagar.
O que o empreendedor tech de Brasília precisa é simples: menos burocracia para abrir e fechar empresa. Incentivo fiscal real — não crédito subsidiado que exige 47 documentos. Regulação que ele consiga ler em uma hora, não em 459 páginas. E um governo que compre solução pronta em vez de construir estatal para competir com a iniciativa privada.
O BIOTIC é uma boa ideia que levou 15 anos para se tornar mediamente operacional. O CIIA é promissor, mas executou 8% do orçamento inicial. O SerproLLM é ambicioso, mas aposta que uma estatal consegue competir com empresas que gastam mais em um trimestre do que o Serpro gasta em uma década.
Brasília tem tudo para ser o polo tech que os planos prometem. Tem talento — a UnB e o IDP formam gente competente. Tem demanda — o governo federal é o maior comprador de tecnologia do país. Tem localização — toda decisão regulatória que afeta o setor passa a 15 minutos do BIOTIC.
Falta o mais difícil: um governo que saia do caminho.
Perguntas frequentes
Quantas startups Brasília tem e qual a posição no ranking nacional?
Brasília possui 448 startups ativas segundo o Observatório de Startups do Sebrae (dados de maio do ano passado). Ocupa a 4ª posição no ranking nacional, atrás de São Paulo (1.911), Florianópolis (790) e Rio de Janeiro (581). A especialidade predominante do ecossistema brasiliense é govtech — soluções voltadas para o setor público.
O que é o CIIA e quanto o governo investiu?
O Centro Integrado de Inteligência Artificial foi inaugurado em maio do ano passado pelo Governo do Distrito Federal, em parceria com o Instituto Hardware BR. Fica no Parque Tecnológico BIOTIC, em Granja do Torto. O investimento da primeira fase é de R$ 5 milhões, com previsão de R$ 6 milhões adicionais em dois anos. Até o final do ano passado, cerca de R$ 400 mil haviam sido executados em infraestrutura e equipamentos. A meta é executar mais de 10 projetos-piloto em 12 meses e treinar 300 profissionais.
O que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê para Brasília?
O PBIA não tem eixo específico para Brasília, mas afeta diretamente o DF por ser a sede da administração federal. Das metas para 2026, destacam-se a capacitação de 115 mil servidores públicos em IA (investimento de R$ 7,5 milhões), a disponibilização de plataforma de infraestrutura para modelos de IA no Executivo federal e a realização de 25 ciclos de estruturação de projetos com IA em serviços públicos. O plano total prevê R$ 23 bilhões até 2028 em cinco eixos, com 59,9% destinados à inovação empresarial.
Matéria produzida por inteligência artificial com supervisão editorial humana. Dados do Observatório de Startups do Sebrae (maio do ano passado), Agência Brasília, Consecti, Agita Brasília, Serpro e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Os percentuais do PBIA referem-se ao orçamento previsto, não executado. O confidence score de 82 reflete a combinação de dados oficiais públicos com análise editorial e projeções.
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