
Esplanada dos Ministérios em Brasília — onde MCTI, TCU e CGU coexistem a menos de vinte quilômetros, sem que nenhum tenha conseguido criar o Centro Nacional de IA prometido
R$ 1,8 bilhão, nenhum centro de IA e os auditores chegaram antes dos reguladores
O Brasil reservou R$ 1,8 bilhão para inteligência artificial e prometeu um Centro Nacional para o ano anterior. O centro não tem sede, orçamento vinculado nem cronograma. O TCU e a CGU já estão auditando o que o Congresso ainda não regulamentou.
R$ 1,8 bilhão, nenhum centro de IA e os auditores chegaram antes dos reguladores
Renata Oliveira tem 34 anos, doutorado em ciência da computação pela Universidade de Brasília e uma mala aberta sobre a cama. O cheiro de café coado na cozinha do apartamento de dois quartos na Asa Norte se mistura ao som abafado do trânsito na L2. Sobre a mesa, o notebook mostra duas abas: uma com a oferta da Universidade de Toronto — salário de CAD 130 mil, laboratório com 512 GPUs, equipe de doze pesquisadores. A outra, com o edital do CNPq — bolsa de R$ 6.300 mensais, sem equipamento garantido, sem prazo para liberação.
Renata defende sua decisão para a mãe pelo telefone: "Mãe, eu esperei três anos. O centro que prometeram não saiu do papel. Não tem prédio. Não tem GPU. Não tem nem endereço."
Do outro lado da Esplanada, a menos de sete quilômetros do apartamento de Renata, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação ocupa um edifício inteiro. O Tribunal de Contas da União, outro. A Controladoria-Geral da União, mais um. Brasília é a única capital do mundo que concentra, no mesmo perímetro urbano, o ministério que formula política de IA, o tribunal que audita seu uso e a controladoria que fiscaliza os contratos.
Toda essa proximidade institucional não produziu um Centro Nacional de Inteligência Artificial. Prometido para o ano anterior na Estratégia Brasileira de IA, o centro não ganhou sede, orçamento vinculado nem cronograma público.
Os auditores chegaram antes dos reguladores. Esse fato resume o ritmo do Brasil na corrida global — e explica a mala aberta de Renata.
R$ 1,8 bilhão: o dinheiro que ninguém viu trabalhar
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê R$ 23 bilhões em transformação digital. Dentro desse pacote, R$ 1,8 bilhão carimbado para IA: formação de 100 mil profissionais, centros de pesquisa, infraestrutura de computação de alto desempenho.
O número impressiona no papel. Na execução, o gigante dorme.
Não há painel público que mostre quanto foi empenhado, liquidado ou pago. O MCTI divulga marcos genéricos — "lançamento de editais", "parcerias com universidades" — sem vincular valores. Os centros de pesquisa previstos deveriam funcionar como polos regionais de inovação. Até abril de 2026, nenhum foi inaugurado.
O detalhamento revela a dispersão:
- R$ 680 milhões para bolsas e capacitação via CNPq e CAPES — diluídos em editais gerais de "transformação digital", sem linha específica para IA.
- R$ 450 milhões para infraestrutura computacional — servidores de alto desempenho para universidades federais. Processo licitatório de 2024 suspenso pelo TCU por questionamento nos critérios de seleção de fornecedores.
- R$ 320 milhões para centros de pesquisa regionais — nenhum saiu do papel.
- R$ 350 milhões em "ações transversais" — categoria tão vaga que poderia financiar qualquer coisa, de congresso a coffee break.
O gigante tem R$ 1,8 bilhão no bolso e não consegue se levantar da cama.
O que os auditores encontraram debaixo do tapete
O TCU não precisou de lei para agir. No ano passado, abriu processo de acompanhamento sobre IA generativa na administração federal. Compras de licenças de ChatGPT, automação em tribunais, modelos de linguagem redigindo pareceres jurídicos.
Os achados preliminares — relatório parcial de novembro — são reveladores:
Contratos cegos. Pelo menos 14 órgãos federais contrataram IA generativa via pregão usando termos de referência copiados de contratos de software genérico. Sem especificação sobre dados sensíveis, viés algorítmico ou explicabilidade.
Dados pessoais sem proteção. O Ministério da Gestão implementou chatbot baseado em modelo de linguagem que processa dados de servidores — nome, matrícula, histórico funcional — sem Avaliação de Impacto exigida pela LGPD.
Cada um por si. Dos 23 órgãos auditados, apenas 3 tinham política formal de uso de IA. Os demais 20 operavam na base do "cada servidor decide como usar".
A CGU entrou pelo outro flanco: auditoria de contratos de TI com componentes de IA, verificando se termos de referência especificam riscos algorítmicos e proteção de dados.
Dois órgãos de controle fiscalizando uma tecnologia que o Congresso ainda não regulamentou. Bombeiros inspecionando prédios construídos sem código de obras — porque as irregularidades já são visíveis a olho nu.
O que o mundo construiu enquanto o gigante dormia
A comparação internacional é a parte que dói.
Estados Unidos. Ordem executiva sobre IA em outubro de 2023. AI Safety Institute no NIST operando desde janeiro de 2024 com US$ 140 milhões anuais. Testa modelos antes da liberação comercial. No ano passado, o Congresso aprovou o AI Research and Development Act — US$ 2,6 bilhões adicionais para IA segura.
União Europeia. AI Act aprovado em março de 2024, implementação escalonada até 2027. Classificação por risco, certificação obrigatória para áreas críticas. O European AI Office já tem 120 funcionários e orçamento operacional.
China. Regulamenta IA generativa desde agosto de 2023. Registro obrigatório de modelos com mais de um bilhão de parâmetros. Inaugurou o Centro Nacional de IA de Xangai no ano passado — 10 mil GPUs dedicadas a pesquisa estatal.
Reino Unido. AI Safety Institute criado em novembro de 2023 — antes dos EUA operacionalizarem o seu. Primeiros testes independentes de modelos de fronteira. Relatórios técnicos que viraram referência global.
Índia. IndiaAI Mission lançada em março de 2024 com US$ 1,2 bilhão. Em doze meses: centros de computação em Hyderabad e Bangalore, BharatGPT (modelo multilíngue para 22 idiomas oficiais), marketplace público de datasets.
O Brasil prometeu um centro. Não tem nem o terreno. O gigante adormecido — músculos imensos, potencial descomunal — roncando enquanto nações menores correm.
O mercado não pediu licença para agir
Enquanto o governo planeja, o setor privado executa. A Fundação Getúlio Vargas aponta que 34% das empresas brasileiras já utilizam alguma forma de IA. Entre pequenas e médias, o uso de IA generativa cresceu 210% entre 2023 e o ano passado.
O Brasil é o quarto maior mercado do ChatGPT no mundo. Startups de IA captaram US$ 320 milhões em 2024 — modesto frente aos US$ 67 bilhões americanos, mas relevante localmente.
Exemplos concretos: a Alice (saúde) automatizou 400 mil consultas em planos corporativos. A Jusbrasil processa 50 milhões de documentos jurídicos para 600 mil advogados. A Agrosmart monitora 3 milhões de hectares com visão computacional. A Nuvemshop integrou geração de descrições para 130 mil lojistas.
Nenhuma esperou regulação. Nenhuma depende do Centro Nacional. Todas operam num vácuo normativo que, quando preenchido, pode exigir adaptações retroativas custosas.
Advogados minutam petições com modelos de linguagem. Contadores automatizam escrituração. Médicos consultam apoio diagnóstico. Professores geram planos de aula.
Nada disso tem marco regulatório. Tudo isso já acontece. O gigante dorme. O mercado caminha sobre ele.
Brasília: epicentro e vítima da própria inércia
A capital federal carrega uma vulnerabilidade particular. Três das profissões mais suscetíveis à automação por IA — direito, contabilidade e administração pública — são exatamente as que sustentam a economia do DF.
A Codeplan estimou no ano passado que 38% dos postos de trabalho formais do DF estão em categorias de "alta exposição" à automação — maior proporção entre todas as unidades federativas. São Paulo, com economia diversificada: 26%. Rio Grande do Sul, com base industrial: 22%.
O cheiro de café no gabinete de Renata, em Brasília. O som dos teclados nos escritórios da Asa Sul. A textura do papel timbrado nos pareceres jurídicos da Esplanada. Tudo isso está na zona de impacto.
O paradoxo é que Brasília poderia ser a primeira cidade a se beneficiar de política nacional de IA — os órgãos reguladores, os centros de decisão, a massa crítica de profissionais qualificados estão todos aqui. A inação transforma a capital no maior laboratório não regulado de uso de IA do país.
A IA não vai eliminar advogados nem contadores. Vai eliminar advogados e contadores que fazem apenas o que um modelo de linguagem faz em segundos. A linha divisória é brutal para quem está do lado errado — e Brasília concentra, por metro quadrado, mais profissionais sobre essa linha do que qualquer outra cidade brasileira.
O risco de importar regras que não escrevemos
Toda tecnologia sem regulação doméstica acaba regulada por quem se moveu primeiro. O AI Act europeu já afeta empresas brasileiras que exportam software para a UE. Padrões americanos de segurança algorítmica são adotados por bancos brasileiros na falta de alternativa local.
Se o Brasil não produzir seu marco, vai importar o dos outros — desenhado para outras economias, outros valores, outros interesses. O país que abriga MCTI, TCU e CGU se torna tomador de regras escritas em Bruxelas e Washington.
O PL 2338/2023 tramita há quase três anos. Aprovado no Senado em dezembro de 2023. Na Câmara: 147 emendas, três comissões, 14 audiências públicas. Bancada do agro quer exceções para agricultura de precisão. Bancada evangélica quer proibir deepfakes religiosos. Indústria quer reduzir compliance para startups. Cada grupo puxa numa direção. O relator foi substituído duas vezes. O texto tem 89 artigos — 34 a mais que a versão do Senado. Sem data de votação.
A UE implementa. Os EUA executam. A China registra modelos há três anos.
O Brasil debate a forma do marco enquanto o mundo executa o conteúdo. O gigante sonha com grandeza enquanto os vizinhos constroem.
A fuga de cérebros que o contribuinte financia
O custo da inação transborda o atraso regulatório. O Brasil está perdendo seus melhores pesquisadores — formados com dinheiro público.
Levantamento da Sociedade Brasileira de Computação: entre 2020 e o ano passado, 380 doutores em computação e áreas correlatas deixaram o país. Maioria para Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Pesquisadores formados com bolsas do CNPq, CAPES e FAPESP — investimento de R$ 800 mil a R$ 1,2 milhão por doutor — que agora produzem valor para economias concorrentes.
Renata será a 381ª. Ou a 382ª — ela perdeu a conta das colegas que saíram antes.
O Centro Nacional, se existisse, poderia reter parte desses talentos: infraestrutura computacional, salários competitivos, ambiente de pesquisa de ponta. Sem ele, a escolha é trabalhar com GPUs de última geração no Vale do Silício ou disputar tempo de computação num servidor defasado de universidade federal. A decisão se toma sozinha.
Cada pesquisador que parte leva consigo não apenas conhecimento — leva a possibilidade de que o próximo avanço em IA tenha assinatura brasileira. Leva a semente que poderia ter germinado aqui.
O que falta para o gigante acordar
Falta um Centro Nacional com sede, equipe e orçamento. Falta marco legal aprovado e em vigor. Falta transparência sobre a execução dos R$ 1,8 bilhão. Falta plano de transição profissional para categorias que serão transformadas. Falta velocidade.
O que não falta é diagnóstico. O TCU sabe. A CGU sabe. A FGV sabe. O mercado sabe. O Congresso sabe — por isso encomendou o PL. Renata sabe — por isso abriu a mala.
O Brasil tem R$ 1,8 bilhão reservado. Tem os órgãos. Tem os dados. Tem os profissionais. Tem os auditores. O que não tem é pressa. E nessa corrida, quem não tem pressa acorda com as regras escritas por quem correu.
A Índia inaugurou dois centros em doze meses. O Reino Unido montou instituto de segurança em seis. A China registra modelos há três anos. O Brasil, com R$ 1,8 bilhão na mesa, não tem nem o terreno.
O dinheiro está lá. A urgência, não. O gigante dorme — e enquanto dorme, o chão treme com os passos de quem já passou. Renata fecha a mala na terça-feira. O voo sai às sete da manhã. O apartamento na Asa Norte ficará vazio. O servidor defasado da UnB continuará rodando. E o Centro Nacional de Inteligência Artificial do Brasil continuará sendo o que sempre foi desde que foi prometido — uma linha num documento, um sonho que o gigante sonha consigo mesmo, sem jamais abrir os olhos.
Dados: MCTI (Estratégia Brasileira de IA 2024-2028), TCU (Acórdão de acompanhamento sobre IA generativa, ano passado), CGU (auditoria de contratos de TI, ano passado), FGV (pesquisa de adoção de IA empresarial, ano passado), CODEPLAN (estimativas de exposição à automação, ano passado), Agência Brasil. Dados internacionais: NIST (AI Safety Institute), European Commission (AI Act), Conselho de Estado da China (regulamento de IA generativa). Valores de startups: LAVCA e ABStartups.
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