
Edifício Biotic no Setor Policial Militar, em Brasília: parque tecnológico fechou 2025 com 280 empresas e receita agregada de R$ 920 milhões
Biotic reúne 280 startups e fatura R$ 920 milhões em 2025: o silicon cerrado
Quem passa pela Estrada Parque Ceilândia, na altura do Setor Policial Militar, talvez não perceba — mas ali funciona o terceiro maior ecossistema de startups do Brasil em faturamento. O Parque Tecnológico Capital Digital, mais conhecido pela marca Biotic, fechou 2025 com 280 empresas instaladas, cerca de 6.400 empregos diretos de alta qualificação e receita agregada de R$ 920 milhões, segundo relatório de desempenho divulgado pela entidade gestora no fim de março.
Quem passa pela Estrada Parque Ceilândia, na altura do Setor Policial Militar, talvez não perceba — mas ali funciona o terceiro maior ecossistema de startups do Brasil em faturamento. O Parque Tecnológico Capital Digital, mais conhecido pela marca Biotic, fechou 2025 com 280 empresas instaladas, cerca de 6.400 empregos diretos de alta qualificação e receita agregada de R$ 920 milhões, segundo relatório de desempenho divulgado pela entidade gestora no fim de março.
O número coloca o parque atrás apenas do Porto Digital, em Recife, e do Tecnopuc, em Porto Alegre — e à frente do Sapiens Parque de Florianópolis, tradicional referência do setor. Para quem conhece a história do projeto, que ficou quase uma década em estágio embrionário depois da criação formal em 2012, o salto recente é notável.
O que é o Biotic e por que demorou
O Parque Tecnológico Capital Digital foi idealizado no início dos anos 2000 como resposta de Brasília à concentração de capital humano qualificado em órgãos públicos. A Universidade de Brasília forma, anualmente, cerca de 900 engenheiros e cientistas da computação; a demanda local absorvia apenas uma fração.
A ideia era criar um ambiente físico e regulatório para fixar esses profissionais no setor produtivo.
Entre 2012 e 2019, o projeto engatinhou. Problemas fundiários, mudança de governos distritais e dificuldade de atrair empresas-âncora mantiveram o parque como pouco mais do que uma placa.
O ponto de virada aconteceu em 2020, com a entrega do primeiro edifício e a chegada de três âncoras simultâneas: Stefanini, CI&T e uma unidade de P&D da Embraer ligada à divisão de defesa.
A partir daí, o ciclo se inverteu. Empresas menores passaram a buscar o endereço pelo efeito aglomeração, aceleradoras abriram espaço, e o governo federal publicou, em 2021, portaria credenciando o Biotic como elegível para os incentivos da Lei do Bem e da Lei de Informática — o que reduziu carga tributária de empresas de software instaladas ali.
Os números do ano anterior
O relatório de desempenho, que consolida dados fornecidos pelas próprias empresas residentes e cruza com a base da ABStartups e da Anprotec, apresenta o seguinte quadro:
| Indicador | 2023 | 2024 | 2025 | |-----------|-----:|-----:|-----:| | Empresas residentes | 164 | 223 | 280 | | Empregos diretos | 3.100 | 4.700 | 6.400 | | Faturamento agregado (R$ mi) | 410 | 672 | 920 | | Startups em estágio early | 97 | 138 | 172 | | Empresas em escala (>R$ 10 mi/ano) | 11 | 18 | 27 | | Ticket médio salarial (R$) | 8.900 | 10.200 | 11.400 | | Investimento captado no ano (R$ mi) | 78 | 142 | 214 |
Os R$ 920 milhões em receita colocam o Biotic em patamar intermediário — longe dos R$ 5,2 bilhões do Porto Digital, mas já comparável ao Tecnopuc gaúcho. O crescimento composto anual de cerca de 50% entre 2023 e 2025 é, porém, o mais acelerado entre os grandes parques tecnológicos brasileiros no período, segundo levantamento da Anprotec.
Quem está lá
A composição setorial do parque é peculiar. Diferentemente de Recife, onde software para varejo predomina, ou de Florianópolis, mais voltado a consumo digital, o Biotic concentra verticais ligadas ao cliente natural de Brasília: governo.
Cerca de 38% das empresas residentes atuam em govtech, fornecendo sistemas, inteligência artificial aplicada ao setor público, blockchain para registros e plataformas de dados abertos.
A segunda vertical relevante é defesa e dual-use, com 14% das empresas — reflexo da proximidade com a Embraer, o Ministério da Defesa e órgãos de inteligência. Startups como Akaer, Atmos Sistemas e uma série de empresas menores ligadas à cadeia de cibersegurança operam ali.
O terceiro bloco, com 22%, é fintech e regtech, aproveitando a proximidade com o Banco Central, a CVM e a infraestrutura regulatória do Plano Piloto.
O bloco restante se divide entre biotecnologia, agtech — dialogando com o agronegócio do Centro-Oeste — e serviços SaaS horizontais.
O financiamento e os incentivos
A equação financeira do Biotic combina três fontes. A primeira é a receita própria das empresas, que pagam aluguel dentro dos edifícios em regime competitivo.
A segunda é o repasse de recursos do Fundo Constitucional do Distrito Federal via Fundação de Apoio à Pesquisa, destinado a infraestrutura e programas de aceleração. A terceira, crescente, é o capital de risco — e aqui a mudança é significativa.
Em 2023, menos de R$ 80 milhões em investimento externo foram captados por empresas do parque. no exercício anterior, o número chegou a R$ 214 milhões, segundo a ABStartups, impulsionado por rodadas de empresas como Neoway Public (spinoff da Neoway dedicada a governo) e por um fundo semente específico para govtechs criado com participação do próprio BRB.
O efeito dos incentivos fiscais também pesa. Empresas enquadradas na Lei do Bem podem deduzir, do imposto de renda, até 200% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento — benefício que, somado à alíquota reduzida da Lei de Informática, torna o custo efetivo de operação no parque cerca de 18% menor que em polos comparáveis fora de área credenciada.
Os gargalos visíveis
Nem tudo é convergente. A infraestrutura física do parque segue limitada a quatro edifícios, e o quinto prédio, em construção desde 2023, está com entrega atrasada para o segundo semestre de 2026.
O transporte público para o local é precário — quase todo acesso se dá por carro particular, o que cria um gargalo para jovens profissionais que não dirigem. E a atração de talento senior esbarra no custo de vida do Plano Piloto, superior ao de Recife ou Porto Alegre.
A dependência do setor público como cliente, por outro lado, é simultaneamente força e fraqueza. Enquanto garante demanda estável, expõe as empresas a ciclos orçamentários da União e a mudanças regulatórias bruscas.
Em 2024, o contingenciamento de 15% nas compras públicas de tecnologia afetou diretamente parte das govtechs residentes.
O que esperar
A gestora do parque projeta chegar a 400 empresas residentes e faturamento agregado de R$ 1,5 bilhão até 2028. Para isso, conta com a entrega do quinto edifício, um novo programa de atração de empresas de inteligência artificial e o aprofundamento de parcerias com a Universidade de Brasília para transferência de tecnologia.
Se o plano se confirmar, Brasília terá consolidado, quase em silêncio, seu segundo grande ativo econômico pós-burocrático — depois do BRB. A cidade que até os anos 2010 era lida apenas como pólo de funcionários públicos começa a abrigar uma economia produtiva significativa, ainda dependente do cliente governo, mas cada vez mais capaz de exportar código e serviços para fora dos limites do quadradinho.
O silicon cerrado existe. Só precisava de tempo para ser visto.
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