
Estação Ecológica de Águas Emendadas, em Planaltina: 10.547 hectares de cerrado nativo preservado, núcleo da única tríplice divisão de águas do continente.
O cerrado nativo do DF tem 28% de cobertura — e isso é melhor que Mato Grosso
Em meio ao avanço da soja sobre o cerrado no Matopiba e à pressão imobiliária sobre o entorno de Brasília, um dado contraintuitivo emerge da Coleção 9 do MapBiomas, divulgada em março: o Distrito Federal preservou 28,4% de cerrado nativo até 2024 — proporção superior à de Mato Grosso, Goiás e Tocantins. O resultado, segundo pesquisadores, é fruto de uma rede de unidades de conservação que cobre 42% do território distrital.
O Distrito Federal carrega a fama de cidade-planejada-cercada-de-condomínios. A geografia do automóvel e a expansão das regiões administrativas alimentam, há décadas, a percepção de que pouco sobrou do cerrado original.
Os dados da Coleção 9 do MapBiomas, divulgada em março de 2026 e referente ao ano-base 2024, contam outra história. O território distrital preservou 28,4% de cerrado nativo — uma proporção que chama atenção quando comparada a outros estados do bioma.
Mato Grosso, gigante agropecuário do Brasil central, conserva hoje 21,6% do cerrado original dentro de seus limites. Goiás, vizinho imediato e principal produtor de grãos do Centro-Oeste, ficou em 19,8%.
Tocantins, fronteira do Matopiba, em 24,1%. O Distrito Federal supera todos.
E o faz em um território de 5.802 quilômetros quadrados, contra os 903 mil quilômetros quadrados de Mato Grosso.
A geometria das unidades de conservação
A explicação para o desempenho distrital, segundo o pesquisador Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília e ex-coordenadora do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, está na arquitetura de proteção criada nas três décadas seguintes à inauguração da capital.
O Distrito Federal possui hoje 91 unidades de conservação, entre federais, distritais e particulares. Juntas, ocupam 244,8 mil hectares — equivalente a 42,2% do território.
Apenas três unidades — o Parque Nacional de Brasília, a Estação Ecológica de Águas Emendadas e a Área de Proteção Ambiental do Planalto Central — concentram mais de 60% dessa área protegida.
| Unidade de conservação | Hectares | Categoria | |---|---|---| | APA do Planalto Central | 504.500 | Uso sustentável | | Parque Nacional de Brasília | 42.355 | Proteção integral | | Estação Ecológica de Águas Emendadas | 10.547 | Proteção integral | | Reserva Biológica da Contagem | 3.426 | Proteção integral | | APA do Lago Paranoá | 16.075 | Uso sustentável | | Parque Olhos D'Água | 692 | Proteção integral |
Fonte: ICMBio, Instituto Brasília Ambiental, Coleção 9 do MapBiomas.
Vale uma observação: parte da Área de Proteção Ambiental do Planalto Central extrapola os limites do Distrito Federal e se estende para Goiás. A contabilidade de área protegida considera apenas a fração interna ao território distrital.
O que sobrou e o que se perdeu
A Coleção 9 do MapBiomas permite comparar o cerrado original ao que restou em 2024. Em 1985, primeiro ano da série histórica, o Distrito Federal tinha 41,3% de cobertura nativa.
A perda em quase quatro décadas foi de 12,9 pontos percentuais — significativa, mas menor do que a observada nos estados vizinhos no mesmo período. Goiás perdeu 19 pontos.
Mato Grosso, 23. Tocantins, 17.
A maior parte da perda distrital concentrou-se entre 1985 e 2005, período de expansão das regiões administrativas e dos primeiros condomínios horizontais no Lago Sul, Lago Norte e Sobradinho. A partir de 2008, com a consolidação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial e a maior fiscalização do Instituto Brasília Ambiental, o ritmo de desmatamento caiu drasticamente.
Entre 2015 e 2024, a perda anual média foi de apenas 0,18% — uma das menores do bioma.
As três faces do cerrado preservado
O cerrado distrital não é homogêneo. Os pesquisadores identificam três grandes formações dentro do território, todas representadas no que sobrou.
O cerrado sentido restrito, com árvores de 3 a 8 metros, ocupa cerca de 60% da área nativa. O cerradão, formação mais densa e arbórea, aparece em manchas no sul do Parque Nacional e em remanescentes de Sobradinho.
Por fim, as veredas, com seus buritis característicos, marcam as cabeceiras dos rios — especialmente nas bacias do Maranhão, do Descoberto e do São Bartolomeu.
A diversidade biológica do cerrado distrital é notável. Levantamentos da Embrapa Cerrados catalogaram, dentro dos limites do Distrito Federal, mais de 2.300 espécies de plantas vasculares, 300 espécies de aves, 100 espécies de mamíferos e 70 espécies de répteis.
A Estação Ecológica de Águas Emendadas, em Planaltina, abriga a única tríplice divisão de águas do continente sul-americano, alimentando ao mesmo tempo as bacias do Tocantins-Araguaia, do São Francisco e do Paraná.
A pressão que continua
Apesar do bom desempenho relativo, ambientalistas alertam que a preservação não pode ser tomada como ponto pacífico. Três frentes de pressão persistem: o avanço de loteamentos clandestinos no entorno do Lago Paranoá e em Sobradinho; queimadas sazonais durante o período seco, que entre julho e outubro concentram a maior parte dos focos detectados; e a invasão de espécies exóticas, especialmente a braquiária, que coloniza áreas degradadas e dificulta a regeneração natural.
Em 2025, foram registrados 1.840 focos de queimada dentro do território distrital — número 11% menor do que em 2024, mas ainda alto. As maiores ocorrências aconteceram justamente na borda do Parque Nacional de Brasília e nas áreas adjacentes à BR-080, em Brazlândia.
A conta que poucos fazem
Há um cálculo silencioso na comparação. Mato Grosso e Goiás respondem por uma parte central do PIB agropecuário nacional.
O Distrito Federal não tem essa pressão produtiva sobre o solo: a agricultura responde por menos de 0,4% do PIB local. É mais fácil preservar quando não há soja para plantar.
O reconhecimento dessa assimetria não diminui o mérito da preservação distrital — apenas o contextualiza dentro de uma lógica econômica que precisa, em algum momento, ser enfrentada também nos estados produtores.
Mercedes Bustamante encerra a conversa com uma observação técnica que vale como advertência. "Conservar 28% é uma conquista.
Mas o cerrado precisa, segundo o próprio Código Florestal, manter pelo menos 35% de reserva legal nas propriedades rurais. O Distrito Federal está abaixo desse mínimo nas terras privadas.
Os números bons vêm das unidades públicas. Sem elas, a história seria muito diferente."
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.