
Plantão da Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos, em Águas Claras: dois terços das ocorrências de 2025 envolveram engenharia social.
O golpe do Pix no DF: R$ 180 milhões roubados em 2025 — o crime que cresceu 240%
O golpe do Pix consolidou-se como o crime patrimonial que mais cresce no Distrito Federal. Em três anos, o número de ocorrências triplicou, o prejuízo às vítimas ultrapassou R$ 180 milhões e a Polícia Civil reconhece que apenas 9% dos casos resultam em recuperação parcial dos valores. A Delegada Patrícia Campos, titular da Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos, conduz a reportagem pelos números, pelos modus operandi e pelos limites da investigação.
A boletinagem da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal do ano anterior, consolidada em janeiro, traz uma estatística que assombra os investigadores: os crimes envolvendo fraudes via Pix saltaram de 8.420 ocorrências em 2023 para 28.640 no exercício anterior. Um crescimento de 240% em dois anos, em um período em que os crimes patrimoniais tradicionais — furto e roubo a transeuntes — caíram 14% no mesmo recorte.
Convertido em prejuízo, o número assusta ainda mais. O Banco Central, que monitora as transações por meio do Sistema de Prevenção a Fraudes, calcula que as vítimas do Distrito Federal perderam R$ 181,4 milhões em transferências fraudulentas durante 2025.
A média por ocorrência foi de R$ 6.330 — um valor que, contextualizado, representa cerca de 4,2 salários mínimos vigentes em janeiro daquele ano.
Os cinco golpes que dominam a estatística
A Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos, instalada em Águas Claras, classifica as fraudes em cinco grandes categorias. A engenharia social, em todas as suas variantes, responde por 67% das ocorrências.
| Modalidade | Participação (%) | Prejuízo médio (R$) | |---|---|---| | Falso funcionário de banco | 28 | 8.420 | | Falsa central de atendimento | 17 | 5.180 | | Golpe da maquininha clonada | 14 | 3.640 | | Falso parente em emergência | 11 | 4.920 | | Phishing por SMS / WhatsApp | 9 | 2.380 | | Outros | 21 | 6.110 |
Fonte: Secretaria de Segurança Pública do DF, Banco Central, Delegacia de Crimes Cibernéticos.
O golpe do falso funcionário de banco continua sendo o mais lucrativo. O criminoso liga para a vítima dizendo ter detectado uma "movimentação suspeita" e, em poucos minutos, convence a pessoa a transferir os valores para uma "conta segura" — que, na prática, é uma conta laranja aberta com documentos roubados.
A delegada Patrícia Campos, há dezoito anos na Polícia Civil e há quatro à frente da delegacia especializada, descreve o perfil das vítimas: "Ao contrário do que o senso comum sugere, não são apenas idosos. no exercício anterior, 41% das vítimas tinham entre 25 e 49 anos.
Profissionais com curso superior, contas bancárias movimentadas e, no momento do golpe, estavam distraídos — no trânsito, no trabalho, em meio a uma reunião."
Por que a recuperação é tão baixa
O Mecanismo Especial de Devolução, criado pelo Banco Central em 2021, permite que bancos bloqueiem valores transferidos por engano ou fraude até oito dias após a transação. Na prática, o tempo médio entre a transferência e a denúncia da vítima no Distrito Federal é de 19 horas.
Em 73% dos casos, o dinheiro já foi pulverizado em até quatro contas intermediárias antes do bloqueio.
no exercício anterior, do total de R$ 181,4 milhões fraudados, apenas R$ 16,8 milhões foram recuperados — uma taxa de 9,2%. A Federação Brasileira de Bancos reconhece o gargalo: a maioria das contas usadas como ponte é aberta em fintechs com cadastro simplificado, e a integração entre instituições para rastrear o dinheiro depende de cooperação que nem sempre é ágil.
"O criminoso escolhe a fintech porque sabe que o tempo de resposta é maior", afirma a delegada. "Existe uma competição entre velocidade do golpe e velocidade da contraordem.
E o golpe está ganhando."
A geografia do crime
Cruzando os endereços de IP usados nos ataques com as contas de destino, a Polícia Civil mapeia um fenômeno curioso. Apenas 18% das ocorrências têm origem provável dentro do Distrito Federal.
O restante é distribuído entre Goiás (24%), São Paulo (16%), Pernambuco (11%), Rio de Janeiro (9%) e outros estados. Há ainda 6% de tráfego cuja origem foi mascarada por VPN, parte deles supostamente vindo de fora do país.
As contas de destino, no entanto, concentram-se em regiões específicas: Águas Lindas, Valparaíso de Goiás e Santo Antônio do Descoberto, na divisa com o Distrito Federal, aparecem com frequência três vezes maior do que sua proporção populacional sugeriria.
O que a vítima pode fazer
A delegada Patrícia Campos lista quatro passos imediatos para quem caiu no golpe. Primeiro, ligar para o banco e bloquear a conta.
Segundo, registrar boletim de ocorrência preferencialmente na delegacia eletrônica. Terceiro, solicitar formalmente o Mecanismo Especial de Devolução.
Quarto, guardar todas as evidências — capturas de tela, gravações, números de telefone, mensagens.
A Polícia Civil também recomenda atenção a sinais clássicos: nenhum banco liga pedindo senha; nenhum gerente solicita transferência para "conta de segurança"; nenhuma central da empresa exige confirmação de dados por SMS com link.
A reação institucional
Em fevereiro deste ano, a Secretaria de Segurança Pública assinou um termo de cooperação com a Federação Brasileira de Bancos para criar uma sala de situação que opera 24 horas, em tempo real, para bloquear transferências suspeitas. O projeto-piloto, batizado de Pix Seguro DF, conseguiu interromper R$ 4,2 milhões em transações fraudulentas nos primeiros 60 dias de operação — um sinal de que a arquitetura institucional pode encurtar a janela de prejuízo.
O Banco Central, por sua vez, prepara para o segundo semestre de 2026 uma atualização do Mecanismo Especial de Devolução que ampliará para 30 dias o prazo de bloqueio em casos comprovados de fraude. A medida, ainda em consulta pública, depende da aprovação de uma resolução conjunta com a Receita Federal.
A delegada Patrícia Campos resume o que considera o desafio central: "O Pix é uma das melhores invenções financeiras das últimas décadas. Trouxe inclusão, agilidade, gratuidade.
O preço é uma vulnerabilidade que não conhecíamos antes — a velocidade. E é a velocidade da resposta institucional, não a do criminoso, que vai definir os números dos próximos anos."
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