
Central de regulação do Samu-DF em operação durante plantão matutino. Foto: Secretaria de Saúde do DF/Divulgação.
O Samu do DF atende em 8 minutos — média menor que Londres e Nova York
Às 7h12 de uma terça-feira comum, o telefone toca pela vigésima sétima vez na central de regulação do Samu-DF, no Setor Médico Hospitalar Sul. Do outro lado, uma mulher diz que o marido caiu no banheiro. Quatro minutos depois, uma ambulância de suporte básico parte da base do Gama. Em oito minutos e vinte e sete segundos, está na porta da casa. É a média — e é uma das melhores do mundo.
Às 7h12 de uma terça-feira comum, o telefone toca pela vigésima sétima vez na central de regulação do Samu-DF, no Setor Médico Hospitalar Sul. Do outro lado, uma mulher diz que o marido caiu no banheiro, não responde direito e respira com dificuldade.
A operadora digita o endereço, pede que ela mantenha o homem deitado de lado e transfere a chamada para o médico regulador. Em menos de quatro minutos, uma ambulância de suporte básico parte da base do Gama.
Oito minutos e vinte e sete segundos depois do primeiro toque do telefone, a equipe encosta no portão da casa. Esse número — oito minutos e vinte e sete segundos — é a média do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência do Distrito Federal em 2025.
Poucas capitais do mundo conseguem o mesmo.
A central que nunca fecha
A sala da central de regulação ocupa o segundo andar de um prédio anexo ao Hospital de Base. São 32 posições de trabalho, nove médicos reguladores por turno, seis técnicos de regulação, três telefonistas dedicadas exclusivamente à triagem e um coordenador de plantão que circula entre as baias.
O sistema de despacho é o SAD-Samu, desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde, e mostra em tempo real a posição de cada uma das 86 ambulâncias espalhadas pelo Distrito Federal.
Quando a chamada entra, a triagem segue o protocolo de Manchester adaptado para pré-hospitalar. Vermelho: risco iminente de morte.
Amarelo: urgência sem risco imediato. Verde: não urgente.
Azul: orientação telefônica. O médico regulador decide, em média, em 92 segundos qual veículo vai e de qual base.
A cada ocorrência despachada, um cronômetro começa a correr na tela grande da sala.
O tempo-resposta do Samu-DF é contado da forma mais rigorosa possível: do momento em que o telefone é atendido até a hora em que a ambulância para em frente ao paciente. Não é da saída da base.
Não é só do deslocamento. É do começo ao fim.
Como se chega a oito minutos
O número não caiu do céu. Em 2014, a média do Samu-DF era de 17 minutos.
Em 2019, 12 minutos. A queda veio de três decisões combinadas.
A primeira foi geográfica. O DF foi dividido em 18 áreas de cobertura, cada uma com uma base fixa e pelo menos uma ambulância de suporte básico sempre disponível.
As bases de maior demanda — Ceilândia, Samambaia, Taguatinga, Plano Piloto — têm também uma unidade de suporte avançado com médico a bordo. A segunda foi logística.
As ambulâncias deixaram de voltar para a base após cada ocorrência e passaram a aguardar em pontos estratégicos escolhidos por algoritmo, com base em histórico de chamadas. A terceira foi tecnológica.
O sistema de despacho ganhou integração com o Waze corporativo e passou a recalcular rotas a cada 30 segundos.
O resultado aparece na tabela abaixo, montada a partir dos relatórios oficiais publicados pela Secretaria de Saúde do DF, do London Ambulance Service, do FDNY-EMS de Nova York e do Samu-192 em São Paulo.
| Cidade | Tempo médio de resposta | Ano de referência | |---|---|---| | Distrito Federal (Samu-DF) | 8min27s | 2025 | | Londres (LAS, Cat 2) | 11min40s | 2024 | | Nova York (FDNY-EMS, life-threatening) | 9min52s | 2024 | | São Paulo (Samu-192) | 14min10s | 2024 | | Rio de Janeiro (Samu-192) | 16min30s | 2024 | | Paris (Samu-75) | 10min15s | 2024 |
A comparação tem asteriscos, como toda comparação internacional. Londres conta só a partir do despacho, não do toque do telefone.
Nova York mede apenas ocorrências classificadas como ameaçadoras à vida. Paris inclui o tempo do médico telefonar de volta.
Ainda assim, o cálculo do DF — que começa mais cedo e termina mais rígido — coloca Brasília num patamar que capitais europeias e americanas admiram quando descobrem.
O turno visto por dentro
Às 9h40, a reportagem acompanha o despacho de uma ambulância de suporte avançado para um acidente na DF-001, altura do Lago Sul. Uma moto bateu em um poste.
O médico regulador, Dr. Bruno Cavalcante, ortopedista de formação e regulador há sete anos, abre o vídeo da câmera do semáforo mais próximo em outra aba do sistema e pede à equipe para levar colar cervical e prancha longa.
A ambulância sai da base do Plano Piloto com sirene aberta. Seis minutos depois, chega ao local.
O motociclista está consciente, com fratura exposta na tíbia esquerda. Em 14 minutos, está no Hospital de Base, já com vaga no centro cirúrgico reservada pela regulação.
Às 11h20, uma criança de dois anos engasga com uma moeda em Santa Maria. A mãe liga, desesperada.
A telefonista orienta a manobra de Heimlich pediátrica pelo telefone enquanto uma unidade de suporte básico já sai da base. A moeda é expelida antes da ambulância chegar.
Quando a equipe encosta no portão, cinco minutos e quarenta segundos depois, a criança já está chorando — que é o melhor sinal possível.
Às 14h08, um homem de 58 anos tem dor no peito em Sobradinho. Chamada vermelha.
Ambulância de suporte avançado despachada imediatamente. ECG feito dentro da ambulância, transmitido em tempo real para o hospital.
Diagnóstico: infarto com supradesnivelamento de ST. O paciente chega ao Instituto de Cardiologia do DF com o cateterismo já preparado.
Porta-balão de 43 minutos — dentro da meta mundial de menos de 90.
O que ainda não funciona
O retrato não é só de conquista. O Samu-DF tem problemas concretos.
O maior é o envelhecimento da frota: 22 das 86 ambulâncias têm mais de oito anos de uso, e três quebraram em ocorrência no último trimestre de 2025. O segundo é a regulação de leitos.
Quando o paciente é estabilizado, muitas vezes demora até três horas para conseguir vaga em hospital de referência — tempo em que a ambulância fica parada e indisponível. O terceiro é o trote.
São cerca de 1.400 chamadas falsas por mês, o equivalente a um turno inteiro de trabalho desperdiçado.
O coordenador de plantão, o enfermeiro José Roberto da Silva, acompanha a reportagem durante seis horas e resume o sentimento da equipe sem ser perguntado. "O Samu do DF funciona porque foi construído para funcionar.
Não é sorte. É protocolo, treino e gente boa que fica aqui sentada olhando mapa enquanto todo mundo almoça."
O que acontece quando a chamada cai
Um detalhe pouco conhecido: se a ligação para o Samu-DF cai antes de a triagem terminar, o sistema automaticamente liga de volta para o número que chamou. Se ninguém atende, uma ambulância é despachada para o endereço cadastrado na operadora de telefonia.
no exercício anterior, esse protocolo salvou pelo menos 11 pessoas documentadas — a maioria idosos que desmaiaram durante a própria chamada. O procedimento existe no Samu-DF desde 2022 e ainda não foi adotado por nenhuma outra capital brasileira.
Uma métrica que não mente
No fim do plantão, o painel da central mostra o número do dia: média de 8min11s, 412 ocorrências atendidas, 97% dentro do tempo-alvo. O Dr.
Bruno assina o relatório, tira o jaleco e vai embora às 19h. A próxima equipe já está sentada.
A cada 14 segundos, em algum canto do Distrito Federal, alguém liga 192 e alguém atende.
É um número pequeno. Oito minutos.
Mas é o número mais importante que o serviço público de saúde do DF consegue medir — porque é medido em vidas que chegam vivas ao hospital.
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