
Bloco cirúrgico do HRAN durante plantão matutino. Foto: Secretaria de Saúde do DF/Divulgação.
O HRAN faz 120 cirurgias ortopédicas por semana — e virou o maior centro do Centro-Oeste
São 6h05 quando o primeiro paciente entra no bloco cirúrgico do quinto andar do Hospital Regional da Asa Norte. Até o fim do dia, outros 23 passarão pela mesma porta. Em uma semana comum, são 120 cirurgias ortopédicas — número que faz do HRAN o maior centro público do gênero no Centro-Oeste.
São 6h05 quando o primeiro paciente entra no bloco cirúrgico do quinto andar do Hospital Regional da Asa Norte. Chama-se Raimundo, tem 62 anos, é pedreiro aposentado de Planaltina de Goiás e fraturou o fêmur depois de escorregar da laje que construía para o neto.
Esperou 11 dias por esta manhã. Até o fim do plantão, outros 23 pacientes passarão pela mesma porta automática.
Em uma semana comum, são 120 cirurgias ortopédicas — número que transformou o HRAN, quase por acidente, no maior centro público do gênero no Centro-Oeste.
O corredor das 120 cirurgias
O serviço de ortopedia e traumatologia do HRAN ocupa dois andares e opera com 18 leitos de enfermaria masculina, 14 femininos e uma unidade de estabilização pré-cirúrgica com seis leitos. São cinco salas de bloco dedicadas exclusivamente a procedimentos osteomusculares, funcionando das 6h às 22h de segunda a sábado, com plantão de urgência 24 horas.
A equipe é composta por 42 médicos ortopedistas efetivos, 11 residentes do programa reconhecido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 28 enfermeiros especializados em centro cirúrgico e um número que impressiona quem visita pela primeira vez: 9 instrumentadores cirúrgicos treinados apenas em traumatologia complexa.
A distribuição semanal, segundo dados internos do serviço consultados pela reportagem, segue um padrão previsível:
| Procedimento | Média semanal | % do total | |--------------|---------------|------------| | Osteossíntese de fêmur | 28 | 23,3% | | Artroplastia de quadril | 14 | 11,7% | | Fixação de rádio distal | 22 | 18,3% | | Tornozelo e pé | 19 | 15,8% | | Artroplastia de joelho | 11 | 9,2% | | Coluna (urgência) | 8 | 6,7% | | Outros | 18 | 15,0% |
O chefe do serviço, que pediu para não ser identificado por questões administrativas, resume assim: "A gente não escolheu ser o maior. A gente virou o maior porque os outros hospitais da região pararam de operar trauma complexo.
Então tudo converge para cá."
De onde vêm os pacientes
Um levantamento conduzido pela própria direção do HRAN entre janeiro e março de 2026 mostra um dado que explica a pressão permanente sobre o bloco: apenas 41% dos pacientes atendidos no serviço de ortopedia residem no Distrito Federal. Os demais chegam de 73 municípios diferentes.
Os maiores fluxos vêm de Águas Lindas de Goiás, Luziânia, Valparaíso, Formosa, Planaltina de Goiás, Unaí (Minas Gerais) e até cidades do Tocantins como Gurupi e Paraíso. Há registro de pacientes transferidos de Palmas pelo serviço aéreo da SAMU.
"Recebemos três transferências por dia, em média, só da regional de Luziânia", afirma uma enfermeira do setor de regulação, que trabalha ali há oito anos. "Quando é sexta-feira, o número dobra.
Trauma de moto não tem fim de semana."
Os dados do DATASUS confirmam o que o corredor já sabia: o HRAN responde por 34% de todas as internações ortopédicas do Sistema Único de Saúde no Distrito Federal e por aproximadamente 19% das cirurgias osteomusculares realizadas no SUS em toda a macrorregião Centro-Oeste, quando considerados os dados consolidados de 2025.
O gargalo da prótese
Nem tudo é eficiência. A lista de espera por artroplastia eletiva — o procedimento em que uma articulação desgastada é substituída por prótese — era de 1.317 pacientes em 1º de abril deste ano, segundo o painel público da Secretaria de Saúde.
A espera média atingiu 14 meses para quadril e 19 meses para joelho.
"A urgência é absorvida, mas a eletiva sangra", diz um dos ortopedistas que conversou com a reportagem na sala de descanso, entre uma cirurgia e outra. "Eu opero em quatro horas uma senhora de 78 anos que quebrou o colo do fêmur porque se ela esperar mais de 48 horas ela morre.
Mas a outra senhora, de 71 anos, que está esperando prótese de quadril há 17 meses, vai continuar esperando porque não tem sala livre, não tem instrumental disponível, não tem prótese no estoque."
Em 2025, o serviço realizou 741 artroplastias. A demanda represada, calculada pelo próprio hospital, é de 2.400 procedimentos por ano.
A conta não fecha.
O que mudou em três anos
Em 2022, o HRAN realizava, segundo relatórios internos, uma média de 72 cirurgias ortopédicas por semana. A marca dos 120 foi atingida em outubro do ano anterior, depois de três mudanças concretas.
A primeira foi a reforma do quinto andar, concluída em julho de 2024, que adicionou duas salas de bloco ao serviço. A segunda foi a criação do protocolo de fast-track para fratura de fêmur proximal em idosos, que reduziu o tempo médio entre internação e cirurgia de 72 horas para 38 horas — dado que o próprio serviço apresentou no Congresso Brasileiro de Ortopedia em novembro passado.
A terceira foi menos visível, mas decisiva: a contratação, por concurso, de 14 novos ortopedistas em 2024 e mais 8 no exercício anterior. A folha do serviço cresceu 52% em dois anos.
"A gente tinha as salas, tinha os pacientes, não tinha gente para operar", resume o diretor-adjunto do hospital. "Quando a Secretaria abriu o concurso, mudou tudo."
O paciente que veio de Paranã
Dos 24 pacientes operados no turno que a reportagem acompanhou, um chegou de mais longe: João Batista, 54 anos, lavrador de Paranã, interior do Tocantins, a 727 quilômetros de Brasília. Fraturou a tíbia ao cair de um cavalo em fevereiro.
Foi atendido primeiro em Dianópolis, transferido para Porto Nacional, depois para Palmas e, por fim, regulado para o HRAN no dia 14 de março.
"Lá no hospital de Palmas falaram que não tinha como operar do jeito que precisava. Que era pra mandar pra Brasília", conta a esposa dele, Maria do Socorro, esperando no corredor do sexto andar com um saco plástico contendo três mudas de roupa e uma toalha.
Ela dormiu três noites na rodoviária antes de conseguir uma vaga na casa de apoio da Pastoral da Saúde.
Às 14h32, João Batista saiu da sala. A cirurgia — uma osteossíntese com placa bloqueada — durou duas horas e 11 minutos.
O prognóstico, segundo o cirurgião, é de recuperação completa em quatro meses.
Às 14h34, a próxima paciente entrou. O HRAN tinha mais seis cirurgias programadas para aquele dia.
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