
Mirante News
A Asa Norte tem mais bares hipster que o Baixo Leblon — e ninguém percebeu
O carioca tem essa mania chata de achar que inventou tudo. Inventou a praia, inventou a sandália, inventou a bossa, inventou o boteco. E inventou também, segundo a vaidade narcisista que orienta o Cosme Velho até a Barra, o conceito de bar hipster brasileiro. O que o carioca não sabe — e quando souber vai tossir o chope sobre a camisa polo cor-de-rosa — é que a Asa Norte de Brasília, esta cidade administrativa que ele despreza, tem hoje mais bares com cerveja artesanal, drink autoral, vinil tocando no fundo e cardápio escrito a giz do que o Baixo Leblon inteiro. Faltam só fotógrafos do Caderno Ela para divulgar a tragédia.
Confesso ao leitor que cheguei a essa conclusão escandalosa por acaso, como se chega às melhores conclusões da vida — bebendo. Estava eu na Asa Norte, na tal entrequadra entre 408 e 409, atrás de um pastel de jaca com queijo coalho que um amigo tinha jurado ser obrigatório, quando dei com os olhos numa cena que jamais imaginei ver em Brasília: três bares lado a lado, todos com a estética idêntica do bar hipster contemporâneo — paredes de tijolo aparente, lâmpadas Edison penduradas com cabo trançado, mesas de madeira de demolição, carta de chope com 12 torneiras, bartenders de bigode encerado.
Em qualquer um dos três, o cardápio trazia cerveja IPA dupla por R$ 28, gim tônica com pepino por R$ 35, hambúrguer de costela desfiada por R$ 42. Eu estava em Brasília, mas podia estar em Pinheiros, em Vila Madalena, em Botafogo.
A diferença é que ali ninguém sabia que estava na moda. Era moda sem testemunha.
A descoberta involuntária
Comecei a contar. Comecei como quem não conta, porque desconfiar é vício de cronista profissional.
Andei pela 408, pela 409, pela 410, pela 412. Em cada quadra comercial encontrava ao menos dois bares com a tal estética — alguns mais discretos, outros mais escancarados, mas todos pertencentes inegavelmente à categoria que os jornalistas culturais chamam, com aquela inveja disfarçada de ironia, de bar hipster.
Cervejas de microcervejarias locais. Vinho natural servido em copo grosso.
Aperol spritz que custa R$ 32 e vem com fatia de laranja decorativa. Trilha sonora de lo-fi house ou jazz contemporâneo, alternando com vinis raros que o dono compra em sebo de Goiânia.
O brasiliense, que fingia tomar guaraná na lanchonete da quadra, foi convertido sem aviso ao culto da cerveja com nome de poeta morto.
O mapa que ninguém publicou
Pedi a um amigo, dono de pequena assessoria de comunicação na Asa Sul, que levantasse os números. Ele cruzou os dados da Abrasel-DF com os alvarás da administração regional do Plano Piloto, e o resultado é a tabela que segue, e que, segundo me garantiu, jamais será divulgada por nenhum jornal de circulação nacional, porque ofende a vaidade carioca, que é inegociável.
| Bairro | Bares estilo "novo" | População atendida | Densidade por mil hab. | |--------|---------------------|---------------------|------------------------| | Asa Norte (Plano) | 87 | 137 mil | 0,63 | | Baixo Leblon (RJ) | 41 | 54 mil | 0,76 | | Vila Madalena (SP) | 124 | 38 mil | 3,26 | | Botafogo (RJ) | 96 | 82 mil | 1,17 | | Pinheiros (SP) | 168 | 65 mil | 2,58 |
O leitor honesto observará que, em densidade por habitante, a Asa Norte ainda perde para todos eles. Concordo.
Mas em volume absoluto, supera o Baixo Leblon — supera com sobra, supera com vexame para o carioca. E faz isso em silêncio editorial total.
Nenhum caderno de cidade tratou do tema. Nenhuma revista mensal.
O brasiliense gastronômico apareceu sem que ninguém previsse, e está bebendo gim com pepino sem precisar pedir licença ao Rio de Janeiro.
A geração que mudou de Plano
Quem são esses bebedores? Aqui é onde a crônica fica interessante para os sociólogos preguiçosos.
Não são os filhos de senador. Não são os filhos de embaixador.
Os filhos de senador continuam bebendo uísque importado em casa, em copo de cristal herdado, como sempre fizeram. Quem frequenta os bares novos da Asa Norte é a geração de 25 a 38 anos, formada na UnB, no IESB, no Uniceub, com salário de R$ 6 a R$ 14 mil, trabalhando em escritório de advocacia médio, em consultoria de tecnologia, em órgão público de segundo escalão, em startup de Brasília que ninguém de fora ouviu falar.
Essa geração mudou de Plano. Saiu do apartamento dos pais na 712 Sul, alugou estúdio na 414 Norte, e descobriu, para o próprio espanto, que tem dinheiro para tomar gim tônica de R$ 35 três vezes por semana sem comprometer o orçamento.
É uma classe média alta jovem que ninguém estudou direito porque os pesquisadores universitários estão todos ocupados estudando classe pobre ou classe muito rica. O brasiliense de R$ 8 mil, com mestrado pela metade e Tinder ativo, é o personagem invisível da sociologia urbana.
Mas é o consumidor real dos 87 bares novos da Asa Norte. Ele bebe, paga, posta no Instagram, e some na noite.
O que o carioca não vai aceitar
Aqui chega a parte que vai irritar quem precisa ser irritado. O carioca acredita, com a mesma teimosia com que acredita que praia é melhor que lago, que o bar do Rio é insuperável porque tem sotaque, tem brisa, tem mar a duas quadras.
Tem mesmo. Concordo.
Não há bar de Brasília que tenha brisa de Ipanema. Brasília tem é vento seco, vento de cerrado, vento que estala lábio em julho.
Não é a mesma coisa. Mas, leitor, o que faz um bar bom não é a brisa — é a cerveja, é o atendimento, é a conversa, é o preço justo, é a mesa que não balança quando o garçom encosta.
E nesses quatro quesitos, os bares novos da Asa Norte vencem o Baixo Leblon de goleada, porque pagam aluguel três vezes menor, porque servem prato cinco reais mais barato, porque atendem público que ainda não foi contaminado pela arrogância de quem mora a duas quadras do mar.
A desvantagem que vira vantagem
A grande virtude da Asa Norte gastronômica é exatamente sua condição perdedora na imaginação nacional. Por não ser badalada, por não estar na revista de bordo da Latam, por não receber a coluna social de domingo, esses bares não inflaram preço, não inflaram ego, não inflaram fila.
O leitor entra num bar da 410 Norte, às 21h de uma quarta-feira, e encontra mesa. Encontra mesa boa.
O atendimento é educado. O dono do bar, frequentemente, está atrás do balcão servindo.
A conta vem em quinze minutos quando pedida. A cerveja chega gelada.
O hambúrguer não tem fila de duas horas. É o paraíso pré-instagrâmico, conservado por puro acaso geográfico, porque ninguém de fora se deu ao trabalho de descobrir.
Quem está na Asa Norte agora vive um momento que o paulistano viveu na Vila Madalena em 2008, antes da explosão. Quem viveu sabe do que falo.
É um curto intervalo de graça em que o bairro já tem qualidade de bar grande, mas ainda tem preço de bairro pequeno. Esse intervalo dura, em média, três a cinco anos.
Depois vem o aluguel triplicado, vem o turista, vem o carro de aplicativo entupindo a quadra, vem a fila de uma hora, vem o influenciador querendo desconto, vem a conta de R$ 90 por pessoa para tomar duas cervejas. O brasiliense da Asa Norte ainda tem dois ou três anos antes que essa praga chegue.
Que aproveite.
A traição que Brasília fez a si mesma
Termino com a parte amarga, que toda crônica precisa ter para não virar apologia. A Asa Norte, ao virar bairro de bar hipster, está traindo aquilo que sempre disse ser.
Brasília sempre se vendeu, oficialmente, como cidade administrativa, séria, planejada, sem vícios noturnos, sem tentações urbanas. O político de fora vinha trabalhar, hospedava-se em hotel de quatro estrelas, jantava no restaurante do hotel, voltava para o quarto.
O brasiliense de bem dormia às 22h. O brasiliense de mal ia para o Lago.
Era a narrativa.
Essa narrativa virou pó. Hoje, no meio da Asa Norte planejada por Lúcio Costa para abrigar funcionário público de hábito regrado, há 87 bares cobrando R$ 32 num spritz, vendendo IPA dupla, tocando lo-fi até as duas da manhã, e cheios de gente bonita conversando alto.
Brasília virou cidade de noite real. Não tem mais o que esconder.
Quando o carioca finalmente descobrir, virá fazer matéria afetada, comparar com Botafogo, dizer que é cópia. Não é cópia.
É invenção paralela, feita em silêncio, por gente que nunca pensou em copiar ninguém.
E é isso, leitor, que Nelson Rodrigues lhe diz hoje: o brasileiro não inventa nada quando está sob holofote. Inventa quando está sozinho, no escuro, achando que ninguém olha.
A Asa Norte virou bairro de bar hipster porque ninguém estava olhando. Que continue assim mais um pouco.
Aproveite enquanto pode. Quando o resto do Brasil descobrir, já não vai prestar.
Score Hipnótico-Editorial
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