
A Torre de TV vista da altura da 508 Norte, no fim da tarde: caminhantes ocupam o que já foi o corredor comercial mais movimentado do Plano Piloto.
O W3 Norte perdeu 40 lojas em dez anos — e a Torre de TV virou ponto de caminhada
No fim da tarde, quando a luz baixa desce pelo gramado da Torre, a W3 Norte respira de um jeito que ninguém previu. Onde havia vitrines acesas até as dez da noite, há agora persianas descidas e placas desbotadas de 'aluga-se'. Onde havia fila de ônibus despejando gente na calçada, há tênis batendo no asfalto e bicicletas passando de lado.
No fim da tarde, quando a luz baixa desce pelo gramado da Torre, a W3 Norte respira de um jeito que ninguém previu. Onde havia vitrines acesas até as dez da noite, há agora persianas descidas e placas desbotadas de "aluga-se".
Onde havia fila de ônibus despejando gente na calçada, há tênis batendo no asfalto e bicicletas passando de lado.
O corredor que ligava as quadras 500 da Asa Norte de ponta a ponta — e que chegou a ser chamado, sem ironia, de a "Rua 25 de Março de Brasília" — perdeu cerca de 40 pontos comerciais ativos entre 2015 e 2025. É um número que o varejo sente, mas que ninguém grita.
O declínio foi lento, como costumam ser os declínios de coisas que parecem eternas.
A conta que a rua faz sozinha
Um levantamento do Sindivarejista do DF, cruzado com dados do cadastro de inscrição estadual, aponta queda de 32% no número de lojas operantes na faixa comercial da W3 Norte entre as quadras 502 e 516 ao longo da última década. A Companhia Imobiliária de Brasília registrou, no mesmo período, aumento de 58% na vacância dos blocos comerciais do eixo.
| Indicador | 2015 | 2020 | 2025 | |-----------|------|------|------| | Lojas operantes (502 a 516) | 187 | 161 | 127 | | Vacância comercial (blocos) | 11% | 19% | 28% | | Fluxo médio de pedestres (dias úteis) | 18.400 | 14.200 | 9.800 | | Linhas de ônibus no corredor | 74 | 61 | 49 |
Os números contam uma história que qualquer morador do Plano Piloto conhece de memória. A farmácia virou igreja.
A livraria virou estacionamento. A lanchonete com placa de neon virou lava-rápido.
E três vizinhos, seguidos, viraram nada.
O que matou a W3 não foi uma coisa só
Quem viveu a W3 dos anos 1980 e 1990 lembra de um eixo que concentrava quase tudo o que Brasília tinha para oferecer fora dos shoppings. Lojas de som, sapatarias, cinemas, o Conic do outro lado.
Era ali que o morador do Plano Piloto comprava, esperava ônibus, encontrava amigo por acaso.
O fim disso não foi um acidente, mas uma soma de pequenas gravidades. A primeira foi o shopping.
Conjunto Nacional, Pátio Brasil, Iguatemi, Boulevard, ParkShopping Brasília. O Distrito Federal tem hoje a maior relação de metros quadrados de shopping por habitante do país, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers.
Cada metro aberto foi um cliente que deixou de caminhar na W3.
A segunda gravidade foi o comércio eletrônico. Dados da Câmara Brasileira da Economia Digital mostram que o Distrito Federal tem uma das três maiores taxas per capita de compra online do país.
Quando a vitrine fica no celular, a vitrine de vidro da calçada perde função.
A terceira, mais surda, foi a mudança do eixo de transporte. Com a expansão do Metrô e a reorganização das linhas de ônibus a partir do BRT Sul, parte do fluxo que atravessava a W3 simplesmente deixou de atravessar.
O pedestre que descia do ônibus e entrava na farmácia do caminho não existe mais porque o ônibus não para mais na porta.
A Torre observou tudo
A Torre de TV, aquela que tantos brasilienses aprenderam a ignorar por estar sempre lá, virou o termômetro discreto desse rearranjo. A Secretaria de Esporte e Lazer do Distrito Federal estima que o gramado da Torre recebe hoje, entre segunda e domingo, uma média de 22 mil frequentadores por semana em atividade física.
Há dez anos, esse número era menos da metade.
Corredores saem da 508 Norte, cruzam a avenida, dão a volta na base da Torre, voltam pela outra entrequadra. Não é evento, não é programado.
É rotina. As academias ao ar livre instaladas pela administração regional enchem ao amanhecer e ao entardecer.
Os food trucks que antes se concentravam só no fim de semana passaram a abrir em dias úteis.
O que aconteceu, em termos simples, é que o eixo perdeu função comercial e ganhou função de convívio. O pedestre não foi embora.
Ele trocou de motivo.
O bloco que virou residência, o bloco que virou nada
A Terracap e a Secretaria de Desenvolvimento Urbano estudam, há pelo menos cinco anos, fórmulas para reconverter parte dos blocos comerciais da W3 Norte em uso misto com habitação. A ideia, defendida por urbanistas como Frederico de Holanda, é simples: trazer moradores para onde havia só lojas, criar massa crítica de rua, reanimar o térreo com serviços de bairro em vez de comércio de escala.
Algumas conversões já aconteceram, de forma pontual, em quadras como a 512 e a 514. Outros blocos continuam vazios, com placa e poeira.
O processo é lento porque envolve matrícula, uso do solo, discussão de gabarito, acordo com proprietários que compraram aquilo como imóvel comercial décadas atrás.
O fato é que a rua, enquanto o debate de gabinete anda no seu ritmo, segue se reinventando por conta própria. Pet shop no lugar de banco.
Estúdio de pilates no lugar de papelaria. Consultório odontológico no lugar de livraria.
A cidade escolhe por atrito, não por plano diretor.
O que a W3 conta sobre Brasília
Há uma leitura melancólica desse declínio, e ela não é injusta. Uma rua que já foi símbolo de vitalidade comercial virou um corredor meio esvaziado, com buracos de vitrine que lembram dentes faltando.
Para quem viu a W3 cheia, é difícil passar ali e não sentir alguma coisa.
Mas há outra leitura, mais fria, que também é verdadeira. Cidades mudam de vocação.
O que era comércio virou convívio. O que era vitrine virou caminhada.
O pedestre que antes ia comprar sapato agora vai correr cinco quilômetros e comer um pastel no trailer do gramado. Ninguém planejou isso e, no entanto, aconteceu.
Brasília foi desenhada como uma cidade de escalas: monumental, residencial, gregária, bucólica. A W3 era gregária por excelência.
Talvez esteja virando outra coisa — algo entre residencial e bucólico, com o gramado da Torre como espinha dorsal. Não é o que Lucio Costa imaginou.
Mas é o que os pés dos moradores estão escrevendo, todo dia, no asfalto que ainda tem a numeração das antigas lojas pintada na calçada.
No fim da tarde, quando a luz desce na Torre, a rua continua lá. Só que, agora, ela é ouvida pelos passos, não pelas vitrines.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
Saiba mais →Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.