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O Paranoá que só existia no mapa virou bairro com 52 mil moradores e 3 shoppings
O Paranoá não estava no Plano Piloto de Lúcio Costa. Não estava na maquete de Niemeyer. Não estava no mapa que Juscelino apresentou aos jornalistas em 1957. Existia apenas como linha tracejada no projeto da barragem que represaria o lago. Hoje tem 52 mil moradores, três shoppings e um centro comercial que abre antes do sol.
A cidade que ninguém previu começou em 1957, quando os primeiros barrageiros da Companhia Construtora Nacional armaram barracos de madeira ao lado do canteiro de obras da represa. Eram duas mil pessoas.
Vinham do Piauí, do Maranhão, da Bahia. Levantaram a barragem, fecharam o lago, formaram o espelho d'água que daria nome a tudo — e ficaram.
Por décadas, o Paranoá foi tratado como provisório. O governo prometia reassentamento, traçava planos, marcava datas.
Os moradores não saíam. Em 1989, depois de 32 anos de espera, veio finalmente a fixação oficial: o terreno virou Região Administrativa, com lotes regularizados, ruas asfaltadas e o nome próprio inscrito no mapa.
Da invasão ao bairro
A regularização não foi o fim da disputa. Foi o começo de outra.
Os moradores que tinham construído suas casas com restos de tábuas precisaram refazer tudo em alvenaria, dentro do prazo dado pela Terracap. Quem não conseguia, perdia o lote para o vizinho.
Foi uma corrida silenciosa, que reorganizou a vizinhança em poucos meses.
O traçado do bairro novo manteve uma característica curiosa: as ruas seguem o desenho original do acampamento. Não há quadras comerciais como na Asa Sul, nem superquadras como no Plano Piloto.
As ruas são estreitas, irregulares, com nomes de cidades nordestinas — Petrolina, Caruaru, Mossoró — em homenagem aos lugares de onde vieram os primeiros moradores.
| Marco | Ano | Habitantes | |---|---|---| | Acampamento dos barrageiros | 1957 | 2.000 | | Primeira invasão consolidada | 1972 | 8.500 | | Fixação oficial (regularização) | 1989 | 24.000 | | Censo IBGE | 2010 | 45.500 | | PDAD Codeplan | 2024 | 52.300 | | Estimativa | 2026 | 52.800 |
O crescimento populacional desacelerou nos últimos quinze anos. O que cresce hoje é a renda.
A renda média domiciliar do Paranoá, que era de 1,8 salário-mínimo em 2010, chegou a 3,2 em 2024, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios.
Os três shoppings
Em 2008, quando o primeiro centro comercial fechado abriu na entrada do bairro, os corretores diziam que era cedo demais. O Paranoá Shopping começou com 32 lojas e 4 cinemas.
Hoje tem 88 lojas, praça de alimentação cheia em horário de almoço e fila no caixa eletrônico todo dia 5.
Em 2017, abriu o segundo, o Paranoá Plaza, voltado para serviços: clínicas, escritórios de advocacia, escolas de inglês, lan houses convertidas em coworking. Em 2023, veio o terceiro, o Itapoã Park, na divisa com Itapoã, mais voltado para o consumidor da região vizinha mas que absorve o final de semana do Paranoá inteiro.
Os três shoppings juntos faturam cerca de R$ 380 milhões por ano e empregam diretamente 1.900 pessoas. Para um bairro que vinte anos atrás não tinha sequer banco, é uma transformação que se mede em geração de uma vida.
A economia do meio-fio
Apesar dos shoppings, o comércio que define o Paranoá é o de rua. A Avenida Central, espinha dorsal do bairro, abriga 412 estabelecimentos cadastrados na Junta Comercial.
Mais 280 pontos funcionam sem registro formal, segundo levantamento da Administração Regional feito em 2025.
Padarias abrem às 5 da manhã. Salões de beleza ficam abertos até as 23h aos sábados.
Mecânicas dividem calçada com costureiras. Há 38 igrejas evangélicas, 4 católicas, 2 espíritas e 1 terreiro de candomblé registrado, segundo o cadastro religioso da Codeplan.
O ponto que melhor sintetiza a economia do bairro é a feira permanente, montada nas terças e sábados. São 320 boxes, 14 ramos diferentes, e um faturamento estimado em R$ 1,8 milhão por feira, segundo a associação dos feirantes.
O dinheiro circula no próprio bairro: 78% dos consumidores moram a menos de dois quilômetros de distância.
A memória que ninguém apagou
O que sobreviveu da era do acampamento foi o Cine Paranoá, único cinema de calçada do DF, fundado em 1962 pelos próprios moradores em forma de mutirão. Funcionou por 34 anos, fechou em 1996, reabriu como cineclube em 2015 e hoje exibe filmes três vezes por semana, com público gratuito.
A escola Centro de Ensino 01, primeira do bairro, mantém em uma sala fechada um arquivo com fotos dos primeiros anos do Paranoá. Há registros do dia em que o lago foi inundado, em 1959, vistos do alto do morro onde hoje fica a quadra 21.
A imagem mostra o que era — e ajuda a entender o que veio depois.
O Paranoá que vem
O bairro chegou perto do limite de adensamento. Quase todos os lotes estão ocupados.
O crescimento, dali em diante, será vertical. A primeira torre residencial de oito andares foi entregue em 2024.
Há mais quatro projetos aprovados para 2026 e 2027, todos na faixa de seis a dez pavimentos.
Para os moradores antigos, a chegada dos prédios é um sinal ambíguo. Significa valorização — o metro quadrado triplicou em dez anos.
Mas significa também o fim do desenho de cidade horizontal que sobreviveu desde os tempos do canteiro de obras. O Paranoá, que começou improvisado, vai virar planejado.
Tarde, mas vai.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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