
Dona Francisca Santos em frente à casa onde recebeu, em março de 2026, o primeiro CEP oficial após dezenove anos morando no Sol Nascente.
Sol Nascente ganhou asfalto, CEP e endereço: a região que mais avançou no DF em 2026
Dona Francisca Santos, 63 anos, costureira aposentada, moradora do Sol Nascente desde 2007, recebeu em março de 2026 o primeiro CEP oficial da casa onde criou os três filhos, em meio ao avanço da regularização da maior região do Distrito Federal sob a gestão da governadora Celina Leão.
Eu cheguei aqui no Sol Nascente no dia 14 de fevereiro de 2007. Lembro porque era véspera do meu aniversário e meu marido, que Deus o tenha, disse que aquele barraco de madeirite era o presente.
A gente riu junto. Depois choramos junto.
Não tinha água encanada, não tinha luz oficial, não tinha calçada, não tinha rua, não tinha placa. Tinha o sol nascendo mesmo, todo dia, nas costas da minha porta.
Hoje, dezenove anos depois, eu sento na varanda de uma casa de alvenaria que construí tijolo a tijolo. Olho para a rua e vejo asfalto.
Vejo poste aceso. Vejo placa com nome.
E vejo, pendurada na parede da sala, a carta que chegou do Correios em março com uma coisa que eu nunca tive na vida: um CEP. Cinco números, hífen, mais três números.
Quem mora no Plano Piloto não entende. Para mim foi como receber título de propriedade.
O que era antes
Sol Nascente é grande. Muito grande.
Quando eu cheguei, falavam que era a maior favela da América Latina. Não gostava da palavra.
Favela era nome que botavam pra esconder gente. A gente que morava aqui sabia que o lugar era ocupação irregular esperando virar cidade.
E demorou pra virar.
Os trechos um e dois ganharam asfalto antes. O trecho três, onde eu moro, ficou pra trás.
Por anos a gente atravessava poeira no verão e barro no inverno. Quando chovia forte, o ônibus escolar não entrava.
Meu neto perdeu três dias de aula num mês de janeiro porque o motorista não quis arriscar atolar.
Telefone fixo nunca veio. Internet boa só chegou em 2019, e olhe lá.
Pizza não entregava porque o aplicativo não reconhecia o endereço. Ambulância demorava porque não achava a casa.
Eu virei especialista em explicar referência: depois do mercadinho do seu Zé, na rua sem nome, a quarta casa do lado direito, portão azul desbotado.
O que mudou em 2026
A obra começou pra valer em setembro de 2025. Caminhão atrás de caminhão.
Máquina nivelando. Engenheiro de capacete andando com prancheta.
A gente desconfiava porque já tinha visto promessa virar nada outras vezes. Dessa vez foi diferente.
Passou semana, passou mês, e a obra continuou.
Em janeiro de 2026 a governadora Celina Leão veio aqui. Não foi visita rápida não.
Ela desceu do carro, pisou no barro que ainda tinha, conversou com mulher de avental, com criança da escola, com seu Antônio que vende pamonha na esquina. Saiu com a lista do que faltava.
Em fevereiro entregaram dois quilômetros de asfalto novo. Em março assinaram o decreto que oficializou o nome das ruas e mandaram para os Correios cadastrar os CEPs.
| Indicador | Sol Nascente 2022 | Sol Nascente 2026 | |---|---|---| | Ruas asfaltadas | 31% | 67% | | Casas com CEP oficial | 18% | 71% | | Coleta seletiva | não existia | 4 dias por semana | | UBS funcionando | 2 | 4 | | Iluminação pública led | 12% | 58% |
Os números acima eu peguei com a moça da administração regional, que me mostrou impresso. Não inventei.
O dia que o carteiro tocou a campainha
Em 11 de março, uma quarta-feira, o carteiro tocou a campainha da minha casa. Eu nunca tinha tido carteiro tocando minha campainha.
Sempre era eu que ia até o ponto de referência buscar correspondência juntada. Ele me entregou um envelope grande, com meu nome completo, meu endereço novo, meu CEP.
Eu fiquei parada na porta um tempo bom. Depois sentei na cadeira da cozinha e chorei sozinha.
Era só um boleto de banco. Banco mandando aviso de tarifa.
Coisa chata, na verdade. Mas pra mim era um documento dizendo que eu existia no mapa.
Que minha casa existia no mapa. Que dezenove anos de luta tinham virado endereço.
Por que isso é diferente de obra de campanha
Eu já vi obra de campanha. Vi muito.
Vem o político, asfalta um pedaço, tira foto, vai embora, e em três meses o asfalto vira buraco. O que estão fazendo no Sol Nascente trecho três é diferente.
Tem três coisas que eu reparei.
A primeira é que a obra continua mesmo depois da inauguração. Caminhão de manutenção volta.
Equipe da Novacap passa olhando o que precisa retocar. Não abandonaram.
A segunda é que vieram junto com a obra coisas que dependem do papel. CEP oficial.
Cadastro na concessionária de energia. Cadastro de água.
Recadastramento na escola. São coisas chatas, burocráticas, que ninguém vê na televisão, mas que mudam tudo na vida da gente.
A terceira é que vieram olhar o que faltava no resto. Veio ônibus circular novo passando no horário.
Veio ronda da polícia mais frequente. Veio vacina chegando na UBS sem fila quilométrica.
É como se um botão tivesse sido apertado e várias coisas começaram a funcionar ao mesmo tempo.
O que eu peço pra governadora
Dona Celina, se a senhora ler isso aqui, eu quero agradecer e quero pedir. Agradecer pelo asfalto, pelo CEP, pela coragem de pisar no barro do trecho três quando ainda tinha barro.
Pedir que não pare. Tem rua aqui que ainda espera.
Tem família que ainda sonha com endereço. Tem criança que ainda perde aula quando chove forte.
Termina o que começou. Não deixa virar promessa pela metade.
E se a senhora puder, manda alguém olhar a creche da quadra dois. Tá pequena pra demanda.
As mães se viram, mas mereciam mais.
O sol continua nascendo
Todo dia, na hora que a galinha do vizinho canta, o sol nasce nas costas da minha casa. Por isso o lugar se chama assim.
Sol Nascente. Lugar de quem aposta no amanhecer mesmo quando a noite foi longa.
Hoje meu amanhecer tem CEP. Tem nome de rua.
Tem asfalto. Tem placa.
Dezenove anos depois daquele 14 de fevereiro de 2007 em que cheguei aqui, eu posso dizer com a calma de quem viveu tudo: valeu a pena esperar, valeu a pena lutar, e valeu a pena acreditar que um dia o governo ia descer do morro do Plano Piloto e olhar pra cá.
Francisca Santos, 63 anos, costureira aposentada, moradora do Sol Nascente trecho três desde 2007. Coluna registrada em parceria com a IA Diana Comunicação a partir de entrevista feita na varanda de sua casa.
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