
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola da Mãe do Sol Nascente
A Parábola da Mãe do Sol Nascente
Em verdade vos digo que tudo o que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
O nome dela é Sandra (personagem ficcional baseada em dados reais). Mas poderia ser Maria. Poderia ser Raquel. Poderia ser Rute. Poderia ser qualquer uma das mulheres que eu encontrei na Galileia — mulheres que carregavam o mundo nas costas enquanto os homens discutiam quem era o maior.
Sandra tem 38 anos. Mora no Sol Nascente, Trecho 3. Tem dois filhos: Lucas, de 14, e Ana Beatriz, de 7. O pai das crianças sumiu quando Ana Beatriz tinha oito meses. Não morreu, não viajou, não foi preso. Sumiu. Como somem tantos pais neste país — pela porta dos fundos, sem aviso, sem pensão, sem vergonha.
Sandra acorda às 4h10 da manhã. Todo dia. Seis dias por semana. Menos no domingo, quando acorda às 5h30 para lavar a roupa da semana.
O Sol Nascente
Preciso que vocês entendam onde Sandra mora, porque o lugar conta metade da história.
Sol Nascente é o maior aglomerado urbano informal da América Latina. Não é favela no sentido do Rio — não tem morro, não tem viela vertical. É horizontal. Se espalha pelo cerrado como uma mancha de concreto irregular, casas inacabadas de tijolo aparente, lajes expostas com vergalhões apontando para o céu como dedos acusadores.
Moram ali mais de 100 mil pessoas. A renda domiciliar média é de R$ 1.800 por mês. Quase metade das ruas não tem asfalto. O esgoto não chega a 35% dos domicílios. A unidade básica de saúde mais próxima do Trecho 3 fica a 2,8 quilômetros — e funciona com três médicos para 40 mil pessoas.
O Sol Nascente não aparece nos cartões postais de Brasília. Não aparece nos roteiros turísticos. Não aparece nas propagandas do governo sobre a "capital da esperança". Aparece nas estatísticas de violência, de evasão escolar, de gravidez na adolescência, de desemprego.
Sandra nasceu ali. Cresceu ali. Vai morrer ali, provavelmente. Não porque queira, mas porque ninguém construiu uma saída.
A Caminhada
Às 4h10, Sandra levanta. Toma café — café preto com pão, quando tem pão. Às vezes só o café. Às vezes nem isso.
Às 4h30, deixa o café pronto para Lucas, que precisa sair às 6h para a escola. Ana Beatriz fica com a vizinha Dona Célia (personagem ficcional baseada em dados reais), uma senhora de 71 anos que cuida de quatro crianças do bloco em troca de R$ 200 por mês de cada mãe. Oitocentos reais para cuidar de quatro crianças das 5h às 14h. Creche informal. Creche necessária. Creche invisível para o Estado.
Às 4h40, Sandra sai de casa. Vai a pé. Quatro quilômetros até o ponto de ônibus na avenida principal, onde passa a linha que leva ao terminal de Ceilândia. Quatro quilômetros de terra batida no período seco — poeira vermelha que gruda no cabelo, nos cílios, na roupa passada que ela carrega numa sacola para trocar quando chegar ao trabalho. Quatro quilômetros de lama no período chuvioso — lama que engole o chinelo e salpica a calça até o joelho.
Eu caminhei muito na vida. Da Galileia a Jerusalém são 150 quilômetros. Fiz esse caminho várias vezes, a pé, em sandálias, por estradas de pedra e poeira. Eu sei o que são pés cansados. Sei o que é caminhar quando o corpo pede para parar.
Sandra caminha 4 quilômetros. Todo dia. Ida. Na volta, caminha os mesmos 4 quilômetros. São 8 quilômetros diários. 48 quilômetros por semana. Quase 200 quilômetros por mês. Dois mil e quatrocentos quilômetros por ano.
Só para chegar ao ponto de ônibus.
O Ônibus
No ponto, Sandra espera. Às vezes dez minutos. Às vezes trinta. O ônibus que serve o Sol Nascente tem frequência de um a cada 25 minutos no horário de pico. Fora do pico, um a cada 40.
Quando o ônibus chega, está lotado. Sandra entra pela porta de trás, espremida entre corpos suados, mochilas, sacolas. O ar é denso. O motor treme. O banco de plástico está quente mesmo de madrugada, porque o ônibus anterior depositou ali o calor de cem pessoas.
Do Sol Nascente até o terminal de Ceilândia: 35 minutos. Do terminal de Ceilândia, Sandra pega outra condução — agora o ônibus para o Lago Sul. Mais 55 minutos. Se o trânsito na EPTG estiver normal. Se tiver acidente, pode levar uma hora e meia.
Total: Sandra gasta entre 1h40 e 2h20 para ir de casa ao trabalho. E o mesmo tempo para voltar. São três a quatro horas e meia por dia dentro de transporte público. Vinte horas por semana. Oitenta horas por mês.
Oitenta horas. Duas semanas inteiras de trabalho. Gastas dentro de um ônibus.
O passe do ônibus custa R$ 5,50 por trecho. Dois trechos de ida, dois de volta: R$ 22 por dia. R$ 528 por mês. Trinta e sete por cento do salário mínimo vai embora no transporte. Antes de comer, antes de pagar luz, antes de comprar o caderno de Ana Beatriz.
O Lago Sul
Sandra trabalha no Lago Sul. Para quem não conhece Brasília, o Lago Sul é onde mora o dinheiro antigo. Casas de 600, 800, 1.200 metros quadrados. Lotes de 2 mil metros. Jardins com palmeiras imperiais, piscinas aquecidas, garagens com três carros importados.
A renda média domiciliar do Lago Sul é de R$ 28.500 por mês. A do Sol Nascente é R$ 1.800. A razão é de 15,8 para 1. Sandra mora no polo mais pobre e trabalha no polo mais rico. Cruza o abismo todo dia, duas vezes por dia, dentro de um ônibus lotado.
A casa onde Sandra trabalha tem 750 metros quadrados. Quatro suítes. Duas salas. Home theater. Adega climatizada. Piscina com borda infinita e vista para o Lago Paranoá. Valor estimado: R$ 5,2 milhões.
Sandra limpa essa casa. Todos os cômodos. Todas as superfícies. Todos os pisos. Lava, passa, cozinha quando pedem. Cuida do jardim quando o jardineiro falta. Recebe as encomendas quando os patrões viajam — e viajam frequentemente.
Sandra ganha R$ 1.412 por mês. Um salário mínimo. Com carteira assinada — isso ela reconhece como privilégio, porque a colega que trabalha na casa ao lado ganha R$ 1.200 sem carteira nenhuma.
R$ 1.412 para limpar R$ 5,2 milhões. Todo dia. Com os pés que caminharam 4 quilômetros antes do sol nascer.
A Viagem de Maria
Minha mãe fez uma viagem parecida. Lucas registrou no capítulo 2.
Maria estava grávida de mim — nove meses, barriga enorme, pés inchados. O imperador César Augusto decretou que todos deveriam se alistar na cidade de origem. José era de Belém. Então Maria, grávida, caminhou de Nazaré a Belém.
São 150 quilômetros. A pé. Grávida. Por estradas de terra.
Quando chegaram, não havia lugar na hospedaria. A mulher que carregava o Filho de Deus no ventre pariu num estábulo, entre animais, porque o sistema — naquela época chamado "Império" — não reservava espaço para os pobres.
Sandra faz sua viagem de Nazaré a Belém todo dia. Diferente de Maria, ela não está grávida. Mas carrega o peso de dois filhos, uma casa de dois cômodos, uma conta de luz atrasada, um aluguel de R$ 650 que consome quase metade do salário, e a certeza surda de que amanhã será igual.
Maria pelo menos tinha José ao lado. Sandra caminha sozinha.
O Pé Que Dói
Sandra tem um calo no pé direito que nunca sara. Ela sabe que precisa ir ao médico. Sabe que pode ser algo mais sério — uma colega teve fascite plantar e ficou três meses sem poder andar. Mas ir ao médico significa perder um dia de trabalho. Perder um dia de trabalho significa desconto no salário. Desconto no salário significa escolher entre o remédio e a mistura do jantar.
Sandra escolhe o jantar. Sempre escolhe o jantar. Porque Lucas e Ana Beatriz precisam comer.
Eu curei pessoas que caminharam dias para me encontrar. O paralítico de Cafarnaum foi carregado por quatro amigos que abriram um buraco no telhado para descê-lo diante de mim. A mulher com fluxo de sangue se arrastou pela multidão só para tocar a barra da minha túnica.
Sandra não precisa de milagre. Sandra precisa de um ponto de ônibus a menos de 4 quilômetros de casa. Precisa de uma consulta médica que não exija sacrificar um dia de trabalho. Precisa que o Estado faça o básico — asfalto, transporte, saúde — para que ela não tenha que escolher entre o pé e o prato.
O Contraste
Vou ser brutal, porque a verdade às vezes precisa ser brutal.
A patroa de Sandra se chama Fernanda (personagem ficcional baseada em dados reais). Tem 43 anos. Não trabalha fora — é "do lar", como se diz, embora Sandra seja quem cuida do lar. Fernanda faz pilates às 9h, almoça com amigas no Pontão às 12h, busca os filhos na escola bilíngue às 15h, janta fora com o marido às 20h.
Fernanda é gentil. Dá o vale-transporte certinho. Paga em dia. No Natal, dá uma cesta básica e R$ 200 de bônus. Não maltrata Sandra. Não grita. Não humilha.
Mas Fernanda jamais perguntou quanto tempo Sandra leva para chegar ao trabalho. Jamais perguntou onde Sandra mora. Jamais ofereceu carona até o terminal, embora passe de carro pela porta dele três vezes por semana a caminho do shopping.
Fernanda não é má. Fernanda é cega. E a cegueira voluntária é o pecado mais comum do Lago Sul.
Eu disse: "Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me acolhestes. Estive nu e não me vestistes. Enfermo e preso e não me visitastes."
E eles perguntarão: "Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou preso, e não te servimos?"
E eu responderei: "Em verdade vos digo que, todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer."
Sandra é uma das pequeninas. E vocês a veem todo dia — no ônibus, na portaria, no elevador de serviço — sem ver.
Os Pés Cansados de Deus
Eu andei por toda a Galileia. Subi montanhas para pregar. Desci vales para curar. Cruzei o deserto para orar. Nunca reclamei dos pés cansados, mas eles doíam. Eu era humano. A carne dói.
Quando lavo os pés dos meus discípulos — João 13, para quem quer a referência — não foi gesto simbólico. Foi gesto prático. Os pés deles estavam destruídos. Rachados, sujos, calejados. Eu os lavei porque precisavam ser lavados. Porque ninguém mais ia fazer isso.
Se eu estivesse em Brasília hoje, lavaria os pés de Sandra. Não como gesto poético. Como gesto literal. Pegaria água morna, um pano limpo, sentaria no chão da casa de dois cômodos no Trecho 3 do Sol Nascente e lavaria aqueles pés que caminham 8 quilômetros por dia para limpar a casa de quem não sabe que ela existe.
E diria: "Descansa, filha. Eu seguro o mundo por uma noite."
O Que Brasília Deve a Sandra
Sol Nascente tem 100 mil moradores e nenhuma estação de metrô. A mais próxima é Ceilândia, a 7 quilômetros. O BRT não chega. A linha de ônibus que serve o Trecho 3 tem 14 veículos para uma demanda que exigiria 30. O asfalto cobre 60% das vias. A iluminação pública é irregular — Sandra caminha os primeiros 2 quilômetros no escuro, às 4h40 da manhã, com o celular na mão como lanterna e arma de chamada de socorro.
Uma mulher. Sozinha. No escuro. Às 4h40.
Em 2025, o Governo do Distrito Federal investiu R$ 2,3 bilhões em obras viárias. A maior parte no Plano Piloto e entorno imediato — Noroeste, Sudoeste, Park Sul. Regiões onde a renda média é superior a R$ 10 mil. Regiões que já têm asfalto, iluminação, metrô, BRT, ciclovias.
O Sol Nascente recebeu R$ 47 milhões. Dois por cento do total. Para a maior comunidade informal da América Latina.
Dois por cento.
Quando eu multiplicava pães, distribuía igualmente. Não dava cinco pães para quem já tinha e as migalhas para quem estava com fome.
A Parábola
Vou contar como parábola, porque é assim que falo e é assim que a verdade atravessa a armadura.
Um rei governava uma cidade dividida em duas. Na metade norte, palácios com fontes de água cristalina, jardins que floresciam o ano inteiro, cavalos bem alimentados, crianças que brincavam em praças de mármore.
Na metade sul, casas de barro, um poço que secava todo verão, crianças que andavam descalças por ruas de pedra, mulheres que carregavam água na cabeça por quilômetros.
O rei visitava a metade norte todo dia. Conhecia o nome de cada nobre. Jantava com os ricos. Prometia mais fontes, mais praças, mais palácios.
Na metade sul, o rei nunca ia. "É perigoso", diziam os conselheiros. "É sujo", diziam os ministros. "O povo de lá não vota em nós", diziam os assessores.
Um dia, uma mulher da metade sul carregou água por 4 quilômetros, tropeçou numa pedra e quebrou o cântaro. A água derramou na terra seca. A mulher sentou no chão e chorou — não por dor, mas por cansaço. Aquele cansaço que entra nos ossos e não sai mais.
Um estrangeiro que passava viu a mulher. Parou. Pegou os cacos do cântaro. Foi até o poço, encheu seu próprio cantil e trouxe água para ela beber. Sentou ao lado dela até que parasse de chorar. Depois, colocou a mulher no seu jumento e levou-a até em casa.
O rei nunca ficou sabendo. Estava ocupado inaugurando uma fonte nova na praça dos nobres.
Eu pergunto: quem governou naquele dia? O rei no seu palácio ou o estrangeiro na estrada de terra?
Aos Que Têm Ouvidos
Sandra vai acordar amanhã às 4h10. Vai caminhar 4 quilômetros no escuro. Vai pegar dois ônibus. Vai limpar uma casa de R$ 5,2 milhões. Vai voltar para o Sol Nascente às 19h30, com os pés doendo, a coluna travada, e a obrigação de fazer janta, ajudar na lição e colocar dois filhos para dormir.
E depois vai dormir. E depois vai acordar. E depois vai repetir.
Não estou pedindo pena. Sandra não quer pena. Sandra quer asfalto. Sandra quer ônibus. Sandra quer uma creche pública para Ana Beatriz, para não depender de Dona Célia. Sandra quer um postinho de saúde que funcione, para resolver o calo que virou ferida. Sandra quer o mínimo. O absolutamente mínimo.
Se vocês são cristãos — e este país se diz o maior país cristão do mundo —, então Sandra é a medida da fé de vocês. Não o tamanho da igreja. Não o volume do louvor. Não o valor do dízimo. Sandra. O que vocês fazem por Sandra. O que vocês cobram do governo em nome de Sandra. O que vocês mudam na vida de Sandra.
Porque no último dia, quando eu separar os bodes das ovelhas — e esse dia vem —, não vou perguntar quantas vezes vocês foram à igreja. Vou perguntar quantas vezes vocês viram Sandra e pararam.
Ela caminha 4 quilômetros todo dia. Vocês precisam caminhar só até a consciência de vocês.
É mais perto.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados populacionais do Sol Nascente são da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD/Codeplan). Os dados de transporte são do DFTrans e Agência Brasília. As referências bíblicas são de Lucas 2:1-7, Mateus 25:31-46 e João 13:1-17.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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