
Saguao de embarque do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek em dia de movimento intenso
O aeroporto de Brasília é o único lugar da cidade onde todo mundo se encontra
O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek recebeu 16,2 milhões de passageiros em 2025, segundo a concessionária Inframerica, consolidando-se como o terceiro maior do país e — menos óbvio — como o único espaço público verdadeiramente transversal da capital federal.
O aeroporto de Brasília é o único lugar da cidade onde todo mundo se encontra
Há lugares em que uma cidade se mostra por inteiro, e há cidades em que esses lugares não existem. Brasília, a princípio, pertencia ao segundo grupo.
A capital foi desenhada em setores, em quadras, em eixos, em escalas. Cada um tinha o seu público designado, o seu modo de estar, o seu perímetro.
O servidor federal nos ministérios, o morador do Entorno nas rodoviárias, o turista nos mirantes, o diplomata nas embaixadas, a família do Lago Sul em seus condomínios discretos. Poucos lugares prestavam o serviço modesto de juntá-los.
Há um, no entanto, e fica a 11 quilômetros da Esplanada. Chama-se Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek.
Ali, por alguma conspiração da geografia e da burocracia, todas as Brasílias se esbarram.
Dezesseis milhões de personagens
O número é seco, mas convém repeti-lo. Dezesseis milhões, duzentos mil passageiros passaram pelos saguões do JK em 2025.
É o terceiro maior fluxo do país, atrás apenas de Guarulhos e Galeão. A Inframerica, concessionária que administra o terminal, dividiu esse contingente em categorias úteis a quem gosta de estudar gente.
| Perfil | Participação no exercício anterior | Origem predominante | |---|---|---| | Servidor federal em missão | 18% | Plano Piloto | | Turista a lazer | 22% | São Paulo, Rio, Nordeste | | Executivo a negócios | 19% | São Paulo, Belo Horizonte | | Morador do Entorno em viagem | 14% | Luziânia, Valparaíso, Formosa | | Visita a parente | 15% | Nordeste, Norte | | Diplomata e missão internacional | 3% | Exterior | | Outros motivos declarados | 9% | Diversos |
Dezoito por cento de servidores federais é um perfil que nenhum outro aeroporto do Brasil tem. Quinze por cento de visita a parente também não é estatística banal, porque revela o vínculo afetivo da capital com o Nordeste e o Norte, regiões de onde vieram os pais, os avós, os tios-avós que ergueram a cidade no começo dos anos sessenta.
A democracia discreta do saguão
Num domingo de Páscoa, o saguão de desembarque é o teatro mais honesto que Brasília oferece de graça. Uma moça de vestido florido, recém-chegada de Teresina, abraça a avó que mora em Samambaia.
Um grupo de servidores volta de um congresso em Salvador carregando sacolas de lembrança. Uma família italiana desembarca com três malas e um manual de turismo pela primeira vez na capital, perguntando a uma senhora de óculos escuros se a catedral fica muito longe.
Ninguém é apresentado. Todos se cumprimentam.
O aeroporto é o único espaço público de Brasília em que a cerimônia é dispensada sem ofensa. Na Esplanada dos Ministérios, o protocolo reina.
Em uma cafeteria do Sudoeste, a intimidade pertence ao grupo fechado. No shopping do Plano, a conversa é breve.
Aqui, no entanto, o desconhecido é tolerado, porque todo mundo está de passagem, e a passagem é o grande igualador.
É interessante anotar que nos demais equipamentos públicos da capital a convivência é rara. A Torre de TV recebe turista e passeante, mas não costuma atrair o servidor em horário de almoço.
O Parque da Cidade é frequentado por moradores do Plano, por famílias de Taguatinga e por corredores matinais, mas em horários diferentes e em setores separados do gramado. O Eixão aberto no domingo é popular, mas intermitente.
Já o aeroporto, esse é diário, contínuo e vinte e quatro horas por dia.
O que cada um encontra ali
O servidor federal vai buscar um parente ou embarcar para uma reunião em Brasília-Recife-Brasília no mesmo dia. É o chamado comandante do diário da CNBB, que decola às seis da manhã e volta às dez da noite, com a pasta cheia de pareceres ainda não lidos.
O executivo de São Paulo, que desembarca, encontra no JK o primeiro gosto da capital. Um café caro demais, um wi-fi razoável, um motorista esperando com uma plaquinha.
É um aeroporto que, do ponto de vista do viajante corporativo, funciona. Pontualidade média de 81% no exercício anterior, de acordo com os dados da Agência Nacional de Aviação Civil.
O turista a lazer chega curioso e, muitas vezes, decepcionado na primeira impressão, porque o saguão de Brasília é funcional, não é cenográfico. A cidade lá fora exige o trajeto de táxi pela via L4 para se mostrar.
Dentro do terminal, o turista vê lojas de lembrança, uma estátua de Juscelino Kubitschek e a informação útil de que a linha 0.111 de ônibus vai até a rodoviária do Plano Piloto por R$ 12.
O morador do Entorno, vindo de Luziânia, Valparaíso, Águas Lindas ou Formosa, é o viajante menos mapeado pelas estatísticas do turismo. Ele costuma voar ao Nordeste para visitar família, comprar passagem de promoção, viajar em período de férias.
Para ele, o JK é mais perto do que São Paulo e mais barato do que Goiânia. É ali que ele encontra, em um mesmo corredor, o servidor da Esplanada e o executivo de Pinheiros, sem que nenhum dos três perceba o encontro.
O diplomata e o retirante
Existe uma cena que se repete, e que poucos observadores registram. No portão de embarque internacional, o diplomata brasileiro despede-se da família antes de embarcar para Genebra, Bruxelas ou Viena.
Poucos metros adiante, no portão doméstico que vai para Teresina ou Imperatriz, um trabalhador retirante, vindo do Gama ou da Ceilândia, embarca para visitar a mãe no sertão pela primeira vez em cinco anos.
Os dois compartilham o mesmo lounge, a mesma fila do raio-x, o mesmo café da manhã da rede padrão. O fato de nenhum dos dois notar o outro não é indiferença.
É Brasília operando a sua geometria mais civilizada. No aeroporto, a classe não precisa ser abolida para ser suspensa, ao menos por duas horas.
A única praça pública que a cidade construiu
Brasília foi pensada para não ter praça no sentido europeu do termo. A superquadra tem o seu miolo arborizado, mas ele é essencialmente vizinho.
A Praça dos Três Poderes é ampla, mas solene, e foi desenhada para o ritual do Estado, não para a convivência cotidiana. O Parque da Cidade é parque, não é praça.
O resultado é que, paradoxalmente, sessenta e cinco anos depois de Lucio Costa, a capital acabou encontrando o seu único grande espaço de sociabilidade transversal em um aeroporto.
Há algo de melancólico nisso, e há algo de belo. Melancólico porque revela a cidade que não soube inventar o seu centro.
Belo porque mostra a cidade que, apesar de todos os planos, encontrou o próprio encontro no lugar mais improvável.
Por isso, sempre que o cronista puder, recomenda uma visita sem bagagem ao JK num domingo de tarde. Não para embarcar, não para desembarcar, mas para sentar em um dos bancos do saguão de desembarque e assistir por quarenta minutos à mais democrática das novelas brasilienses.
Todo mundo está ali. Todo mundo.
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