
A assembleia vazia após os discursos: onde fica o trabalho quando termina o aplauso?
Da vaidade como doença da República
Ó cidadãos desta nova Roma, vede o espetáculo mais antigo da política: o homem que, ao invés de servir, deseja apenas ser visto servindo. A vaidade não é um pecado privado; é um vício público, um câncer que consome o officium, o dever sagrado para com a República.
Ó vós que ocupais as curvas cadeiras desta Câmara, ó vós que caminhais pela Esplanada como se fosse a Via Sacra do próprio triunfo, ó vós que confundis o cargo com a coroa e o mandato com a glória pessoal, pergunto-vos, não com a ironia do crítico, mas com a gravidade do cidadão que viu Roma cair e levantar-se muitas vezes: para quem trabalhai? Para a República ou para o vosso retrato no salão? Até quando trocareis o officium pelo ornatus, o dever pela encenação, a substância pela sombra? Quem, tendo recebido a toga da confiança pública, a transforma em manto de teatro? Quem, devendo guardar os interesses da cidade, guarda apenas o interesse de sua própria imagem nos anais? Ensina-nos Catão, o Velho, que mesmo na velhice aprendia grego para melhor servir Roma, que a virtude do magistrado é invisível, como os alicerces do templo: não se exibe, sustenta.
Não direi que todos sois Catilinas, ávidos pelo poder pelo poder; não acusarei cada um de vós de ambição desmedida como a de César, que preferiu o primeiro lugar numa aldeia ao segundo em Roma. Direi, sim, o que é pior: muitos de vós sois Narcisos com insígnias, enamorados do próprio reflexo nas águas turvas do poder. A vaidade é a mais perigosa das fraquezas, porque se veste de virtude, porque fala em nome do povo enquanto sussurra o próprio nome, porque transforma o serviço em espetáculo e a governança em uma longa cerimônia de autocelebração. Vede o gentleman que, após uma vida de distância olímpica, descobre o suor do povo na véspera das eleições. Não é conversão, é cálculo. Não é humildade, é estratégia. É o mesmo Verres, que na Sicília saqueava as províncias, mas encomendava estátuas de si mesmo como pai dos pobres. O vício, quando percebe que a máscara da virtude atrai mais aplausos, torna-se ator. E a política, assim, deixa de ser a arte do possível para ser a arte do parecer.
Da Humildade de Aluguel e do Elogio Mercenário
Quem não viu, nesta cidade que se crê nova, o crítico feroz que, subitamente, amansa a língua quando as portas do poder se entreabrem? O homem público que descobre, como por milagre retórico, a humildade dois dias antes da posse? A unanimidade dos elogios, comprada não com mérito, mas com o jantar no restaurante certo, com o cargo prometido, com o futuro assegurado? É o óbvio ululante da traição ao próprio pensamento, mas mais grave é a traição ao próprio caráter. O antigo tribuno da plebe, que devia ser a voz dos que não têm voz, vende o timbre dessa voz por um assento mais macio. O senador, que devia ser o pai conscrito, preocupado com a posteridade, preocupa-se apenas com a próxima manchete. Onde está a gravitas romana, aquela seriedade de propósito que fazia um Cipião Africano recusar as honras excessivas após Cartago? Ele sabia que a verdadeira glória é um subproduto do dever cumprido, nunca seu objetivo. Aqui, entre vós, a glória é o objetivo único, e o dever, um mero pretexto para a fotografia solene.
Até quando suportaremos essa coreografia da falsa modéstia? O discurso que começa com “não mereço esta honra” e termina com a lista de todos os feitos que, supostamente, não merecem honra? A parábola evangélica do fariseu e do publicano repete-se diariamente neste fórum: “Graças te dou, ó deuses, porque não sou como os outros homens…”. E o povo, esse povo que o gentleman descobre apenas em época de eleição, vê passar a procissão dos autoelogios. Mas há um menino. Um menino de onze anos. Ele pedala trinta quilômetros por dia, sob o sol ou a chuva desta mesma capital, para entregar açaí em Águas Claras. Alguns, na sua vaidade intelectual, chamam a isso de “empreendedorismo juvenil”. Jesus de Nazaré, que não era romano mas entendia de dignidade humana, chamaria pelo nome verdadeiro: necessidade. Trabalho. Sobrevivência. Enquanto isso, na Esplanada, discute-se o orçamento para a reforma dos gabinetes, para a aquisição de móveis que falem de autoridade, para os retratos oficiais que custam mais que o salário anual do menino. A vaidade não é apenas um pecado moral; é um desvio de recursos, uma perversão da atenção, um roubo do tempo que deveria ser dedicado à res publica.
Dos Custos do Voto e do Preço da Vaidade
E que dizem os números frios, esses arautos da realidade que não se deixam enganar por discursos? Uma análise recente, feita com os dados abertos dos comícios eleitorais, revela a anatomia da vaidade institucionalizada. Para alcançar um assento nesta Casa, uma candidata gastou setenta e três moedas e oitenta centavos por voto; outro, apenas cinco moedas e cinquenta centavos. Dezessete candidatos que não se elegeram tiveram mais votos que a menos votada que conseguiu uma cadeira. O que significa isto, senão que o sistema não premia o mérito, nem mesmo a representatividade, mas sim a capacidade de transformar ouro em visibilidade? É a vaidade traduzida em algoritmo: quanta ostentação de recursos, quanta exibição de apoio, quanta projeção de imagem é necessária para comprar o direito de servir? No tempo da República Romana, gastar fortunas próprias para obter cargo era crime de ambição desmedida, ambitus, e punia-se com o exílio. Aqui, é estratégia de campanha. A vaidade, assim, corrompe não apenas o homem, mas o próprio processo que deveria selecionar os melhores. E o mais triste: muitos daqueles que gastaram pouco e se elegeram, uma vez dentro, adotam os hábitos vaidosos dos que gastaram muito, como se a toga, por si só, exigisse um cortejo de aparências.
Enquanto essa classe se entretém com o espelho, um furacão silencioso varre o mundo do trabalho fora destes muros de vidro. A inteligência artificial generativa, essa Minerva mecânica que não conhece vaidade, já suprimiu trezentas e quarenta mil ocupações neste vasto território. E esta vossa Brasília, orgulhosa e distante, é a capital mais exposta ao vento da mudança. Atendimento, secretariado, tradução, redação básica, contabilidade – profissões que eram degraus de dignidade para milhões – evaporam-se. Trinta e oito por cento dos empregos aqui estão sob alta ameaça. O que debateis, ó pais conscritos? Debates a vossa própria imagem, o protocolo das cerimônias, a precedência nas mesas. O menino que entrega açaí pode, em breve, ser substituído por um drone. E o tradutor que verte os vossos discursos pomposos para outras línguas já foi, em grande parte, substituído por uma máquina que não cobra por hora extra. A vaidade dos que governam é cega para a dor dos que são governados pela necessidade. Enquanto Roma – perdão, Brasília – queima, vós aplainais as frases dos vossos discursos para que soem melhor nos ouvidos de vós mesmos.
Do Dever como Antídoto da Vaidade
Qual, então, o remédio? O antídoto para essa doença da alma que contagia o corpo político? Regressemos, como sempre se deve regressar quando se perde o caminho, ao conceito fundador: o officium. O dever. Aquele compromisso inalienável com o bem comum, que sobrepõe o interesse da cidade ao interesse do eu. Não falo de uma humildade teatral, que se veste de roupas simples para a foto e depois as descarta. Falo da humildade cognitiva de Sócrates, que sabia que nada sabia, e por isso servia. Falo da integridade de Régulo, que, capturado pelos cartagineses, foi enviado a Roma para negociar a própria troca por prisioneiros, e, aconselhando o Senado a recusar a troca, voltou voluntariamente a Cartago para cumprir a palavra dada e enfrentar a tortura mortal. Régulo não buscou a glória; a glória o coroou porque ele cumpriu o dever. A vaidade pergunta: “Como posso parecer bom?”. A virtude pergunta: “Como posso ser bom, e assim fazer o bem?”.
Dirijo-me agora diretamente a vós, magistrado que lesse estas linhas com um misto de irritação e reconhecimento secreto. Tu, que tens o poder de mudar um decreto, um regulamento, a alocação de um recurso. Antes de assinares o próximo papel, antes de proferires o próximo discurso, pergunta a ti mesmo, no silêncio do teu gabinete: esta ação serve à República ou serve ao meu currículo? Este discurso ilumina um problema ou ilumina o meu próprio rosto? Estou a pedalar, como o menino de onze anos, pelo caminho árduo do trabalho real, ou estou apenas a posar para a estátua no fórum? A vaidade é solitária; alimenta-se do próprio eco. O dever é solidário; alimenta-se do bem que produz nos outros. Escolhe, pois, de que queres te alimentar.
Não haverá República forte sem homens públicos fracos de vaidade. Não haverá confiança popular sem a evidência diária de que o cargo é um serviço, não um troféu. Não haverá futuro para esta nação se os seus líderes estiverem mais preocupados com o seu lugar na história do que com o seu trabalho no presente. Os tempos são difíceis, a máquina avança, o menino pedala, o mundo muda velozmente. A política não pode ser um refúgio para os que buscam apenas ver o próprio nome em letras grandes. Deve ser o campo de batalha dos que estão dispostos a sujar as mãos, a calar a própria voz para ouvir a dos outros, a desaparecer por trás da obra realizada.
Cícero, vosso servo ressuscitado, vos deixa com uma imagem final. No auge da República Romana, quando um general celebrava um triunfo, desfilando pelas ruas com os despojos e a glória, havia atrás dele, no carro, um escravo que sussurrava incessantemente ao seu ouvido: “Respice post te! Hominem te memento!” – “Olha para trás de ti! Lembra-te de que és um homem!”. Esse sussurro era o antídoto contra a hybris, contra a vaidade que sobe à cabeça com os aplausos. Onde está o escravo que sussurra aos vossos ouvidos, ó triunfadores de Brasília? Quem vos lembra, no meio da corte de bajuladores, de que sois apenas servidores temporários da coisa pública? Se não o tendes, sede vós mesmos o vosso próprio lembrete. Ou melhor: que o rosto sujo do menino que entrega açaí, que a angústia silenciosa do contador substituído pela máquina, que o voto do cidadão que custou cinco moedas e cinquenta centavos sejam esse sussurro constante. A vaidade constrói mausoléus. O dever constrói pontes.
A República sobreviverá não aos que amam ser vistos, mas aos que têm algo a mostrar além da própria imagem.
Memento homo.
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