
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola do Menino de Onze Anos que Entrega Comida de Bicicleta
A Parábola do Menino de Onze Anos que Entrega Comida de Bicicleta
Qualquer que receber uma destas crianças em meu nome a mim me recebe. E qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e se afogasse na profundeza do mar.
Ele se chama Kauã (personagem ficcional baseado em dados reais). Tem onze anos. Mede um metro e trinta e sete — baixo para a idade, porque a alimentação nunca foi o que deveria. Pesa trinta e dois quilos. Pedala uma bicicleta que era do tio e que tem o selim tão alto que ele precisa se inclinar para a frente e pedalar na ponta dos pés.
Kauã entrega açaí.
Todos os dias, das cinco da tarde às dez da noite, Kauã pega sua bicicleta — sem marcha, sem refletor, sem lanterna — e entrega potes de açaí, marmitas, lanches, o que vier. Trabalha para uma lanchonete de Taguatinga que não registrou nada, não assinou nada, não sabe a idade dele e não quer saber. Paga R$ 5 por entrega. Em uma noite boa, Kauã faz oito entregas. R$ 40. Numa noite ruim, três. R$ 15.
Ele pedala até Águas Claras — aqueles prédios de vinte, vinte e cinco andares que parecem uma muralha de concreto vista de longe. Sobe com a mochila térmica pelo elevador de serviço. Toca a campainha. Entrega o açaí. Recebe às vezes uma gorjeta de dois reais. Às vezes nada. Às vezes um olhar de surpresa: "mas você não é muito novo para isso?"
Kauã responde o que aprendeu a responder: "Estou ajudando minha mãe."
E o cliente fecha a porta. Come o açaí. Posta no Instagram. E Kauã desce pelo elevador de serviço e pedala para a próxima entrega.
O Que o Brasil Chama de Empreendedorismo
Eu preciso falar sobre essa palavra. Empreendedorismo.
Quando um menino de onze anos trabalha cinco horas por noite entregando comida de bicicleta, sem equipamento de segurança, sem vínculo empregatício, sem nenhuma proteção legal, por R$ 5 a entrega — isso não é empreendedorismo.
Isso é trabalho infantil.
O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe qualquer trabalho para menores de quatorze anos, exceto na condição de aprendiz a partir dessa idade. A Constituição Federal, artigo 7°, inciso XXXIII, é explícita. A Convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário, estabelece idade mínima para admissão ao emprego.
Kauã tem onze anos. Não é aprendiz. Não está em programa social. Não tem supervisor. Não tem carteira. Não tem nada — exceto uma bicicleta sem freio traseiro e uma mochila térmica que ele comprou por R$ 35 numa loja de usados.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE aponta que centenas de milhares de crianças entre 5 e 13 anos trabalham no Brasil. No Distrito Federal, apesar da renda média mais alta do país, os bolsões de pobreza nas regiões administrativas periféricas mantêm índices de trabalho infantil que desmentem a propaganda de capital modelo. Ceilândia, Samambaia, Recanto das Emas, Estrutural, Sol Nascente — são cidades dentro da cidade onde crianças trabalham porque a alternativa é não comer.
Segundo o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, as formas mais comuns de trabalho infantil no Brasil incluem comércio ambulante, trabalho doméstico e serviços informais de entrega e auxiliar. A economia de aplicativos e entregas criou uma nova categoria: o entregador-criança, invisível nas estatísticas porque não tem vínculo, não tem app no próprio nome, não aparece em nenhum cadastro.
Kauã não está no sistema. Kauã é um fantasma econômico. Ele produz, ele gera receita, ele move mercadorias pela cidade — e não existe em nenhuma planilha.
O Que Eu Disse sobre as Crianças
Os meus discípulos, um dia, tentaram impedir que crianças se aproximassem de mim. Achavam que eu tinha coisas mais sérias para fazer. Que crianças eram distração. Que assuntos de adulto eram prioridade.
Eu fiquei indignado.
"Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais, porque delas é o Reino dos Céus."
Não disse que delas seria o Reino. Disse que delas é. Presente. Agora. As crianças não são o futuro — são o presente. E o presente de Kauã é uma bicicleta sem freio, cinco reais por entrega e uma infância que terminou antes de começar.
E sobre aqueles que fazem crianças tropeçar, eu fui absolutamente claro. Não usei meias-palavras. Não fui diplomático. Não ponderei os dois lados.
"Qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e se afogasse na profundeza do mar."
Pedra de moinho. Afogamento. Eu, que preguei o amor ao próximo e a outra face, usei a imagem mais violenta que encontrei para falar de quem machuca crianças. Porque não existe moderação quando o assunto é criança.
O dono da lanchonete que paga R$ 5 por entrega a um menino de onze anos merece a pedra de moinho.
O cliente que abre a porta, vê uma criança de bicicleta, aceita a entrega e fecha a porta merece perguntar a si mesmo por que não ligou para o Conselho Tutelar.
A sociedade que chama isso de "menino trabalhador" e "exemplo de superação" merece olhar no espelho e ver o que realmente está aplaudindo: a normalização da exploração infantil.
A Mãe de Kauã
Ela se chama Adriana (personagem ficcional baseada em dados reais). Trinta e dois anos. Quatro filhos. Kauã é o mais velho. Mora em Taguatinga, num barraco de dois cômodos nos fundos da casa da sogra — uma sogra que cobra R$ 400 de aluguel e reclama do barulho das crianças.
Adriana trabalha como manicure a domicílio. Ganha entre R$ 800 e R$ 1.200 por mês, dependendo da clientela. Não tem carteira assinada. Não contribui para o INSS. Quando fica doente, não ganha nada. Quando chove e as clientes cancelam, não ganha nada. Quando o ônibus quebra e ela não consegue chegar, não ganha nada.
O pai de Kauã sumiu quando o menino tinha três anos. Sumiu — essa palavra que o Brasil usa para homens que abandonam filhos. Não está preso, não está morto, não está desaparecido. Está em outro estado, com outra mulher, com outros filhos. Não paga pensão porque nunca foi citado em processo. Adriana não tem dinheiro para advogado. A Defensoria Pública tem fila de meses.
Então Kauã trabalha.
Não porque Adriana quer. Adriana chora toda noite quando Kauã sai para pedalar. Chora em silêncio, no banheiro, para os outros três filhos não ouvirem. Ela sabe que é errado. Sabe que é ilegal. Sabe que é perigoso — Kauã pedala no meio do trânsito de Águas Claras, entre carros que custam mais do que ela vai ganhar na vida inteira.
Mas os R$ 40 de Kauã numa noite boa são a diferença entre ter leite amanhã ou não ter.
Eu conheço essa mãe. Conheci muitas iguais a ela. Minha própria mãe era uma adolescente pobre numa província ocupada por um império estrangeiro. Maria não tinha plano de saúde, não tinha berço, não tinha garantias. E mesmo assim, me protegeu com tudo que tinha.
Adriana protege Kauã com tudo que tem. Que é quase nada. E o quase nada de uma mãe vale mais do que todo o ouro dos que aplaudem o "menino trabalhador" sem mover um dedo para tirá-lo da rua.
O Açaí de R$ 32
Vou colocar os números na mesa, porque números não mentem — embora possam ser ignorados.
O pote de açaí que Kauã entrega custa R$ 32 no aplicativo. Com taxa de entrega, chega a R$ 38 ou R$ 40 para o cliente final. Desses R$ 32, a lanchonete fica com R$ 22 a R$ 25. O aplicativo, quando é por aplicativo, fica com R$ 5 a R$ 8. E Kauã — que pedalou dois, três quilômetros no escuro, que subiu com a mochila térmica pelo elevador de serviço, que tocou a campainha e sorriu para o cliente — recebe R$ 5.
Cinco reais.
O cliente que paga R$ 40 pelo açaí está gastando o valor de oito entregas de Kauã numa única sobremesa. Uma única.
E enquanto come o açaí, talvez assista a um vídeo no celular sobre "crianças empreendedoras que inspiram" e pense: "que bonito". E curta. E compartilhe. E vá dormir.
Kauã não vai dormir. Kauã ainda tem três entregas.
O Preço Real
Vamos falar sobre o que Kauã perde enquanto pedala.
Escola. O rendimento escolar de crianças que trabalham cai de forma mensurável. Dados do IBGE mostram que crianças e adolescentes em situação de trabalho têm taxas de defasagem idade-série significativamente maiores do que aquelas que não trabalham. Kauã está no sexto ano. Deveria estar lendo livros, fazendo experimentos de ciências, aprendendo a pensar. Em vez disso, ele decora os endereços dos prédios de Águas Claras e sabe de cor qual porteiro deixa subir sem perguntar.
Saúde. Kauã pedala sem capacete, sem luvas, sem nenhum equipamento. A bicicleta não tem sinalização. Ele pedala entre ônibus e carros em vias que foram projetadas para veículos de duas toneladas, não para um menino de trinta e dois quilos. Uma freada brusca, uma porta de carro que abre sem aviso, um motorista distraído com o celular — qualquer uma dessas coisas pode transformar Kauã numa estatística.
O DataSUS registra milhares de internações anuais de crianças e adolescentes por acidentes de trânsito envolvendo bicicletas no Brasil. Kauã não usa capacete porque capacete custa R$ 60 — quinze entregas — e ele precisa do dinheiro para a mãe.
Infância. Essa é a perda que não entra em estatística. Kauã não joga bola à noite. Não assiste desenho. Não brinca com os irmãos. Não faz as coisas que crianças de onze anos fazem porque são crianças e deveriam estar protegidas pelo simples fato de existirem.
Kauã é velho aos onze. Tem olheiras. Tem calos nas mãos. Tem uma seriedade no olhar que não deveria existir nessa idade. Quando ri — e ri pouco — parece pedir permissão.
Os Fariseus do Empreendedorismo
Existem pessoas neste país — pessoas com microfone, com seguidores, com influência — que olham para um Kauã e dizem: "Viu? Esse é o espírito brasileiro. Guerreiro. Trabalhador. Não espera do governo."
Eu conheço essa retórica. Os fariseus do meu tempo faziam a mesma coisa. Impunham cargas pesadas sobre os ombros dos outros e não moviam um dedo para ajudá-los. Faziam longas orações em público sobre a importância da responsabilidade pessoal — e não davam um centavo à viúva.
Chamar trabalho infantil de empreendedorismo é a versão moderna de impor cargas pesadas. É pegar a vítima e transformá-la em herói para que ninguém precise resolver o problema que a criou. Se Kauã é empreendedor, então não é explorado. Se não é explorado, ninguém é culpado. Se ninguém é culpado, tudo segue como está.
Mas eu vos digo: alguém é culpado.
O pai que sumiu é culpado. A lanchonete que contrata criança é culpada. O Estado que não fiscaliza é culpado. O cliente que aceita a entrega de uma criança às dez da noite e não faz nada é culpado. A sociedade que glorifica pobreza e chama sofrimento de virtude é culpada.
E todos vão prestar contas. Não a um tribunal de Brasília — a esse, eles sabem como escapar. A um tribunal onde não existe recurso, não existe habeas corpus, não existe prescrição.
O Que Eu Faria
Se eu estivesse em Águas Claras numa noite qualquer e a campainha tocasse e eu abrisse a porta e visse Kauã — onze anos, sem capacete, com a mochila térmica maior que ele, ofegante de ter subido vinte andares porque o elevador de serviço estava quebrado — eu não aceitaria o açaí.
Eu desceria com ele. Colocaria a bicicleta no meu ombro. Levaria ele de volta para casa. E no caminho, falaria com ele. Não sobre trabalho, não sobre dinheiro, não sobre responsabilidade. Falaria sobre o que ele quer ser quando crescer. Sobre os sonhos que ele ainda tem e que ninguém perguntou. Sobre o fato de que ele não deveria estar ali.
Depois, eu iria à lanchonete. E eu não viraria mesas — embora a tentação existisse. Eu olharia nos olhos do dono e diria, com a voz que fez os mercadores do Templo recuarem: "Esse menino tem onze anos. Você sabia?"
E ele diria que sim. Porque todo mundo sabe. Todo mundo vê. Ninguém faz nada.
Depois, eu iria ao Conselho Tutelar. À Defensoria Pública. Ao Ministério Público do Trabalho. E eu ficaria lá até alguém agir. Porque eu sou paciente — esperei três dias dentro de um túmulo — mas com crianças, minha paciência acaba.
A Pedra de Moinho
Eu não costumo repetir minhas palavras. Mas esta merece repetição.
"Qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e se afogasse na profundeza do mar."
Eu não disse "seria bom que refletisse sobre suas ações". Não disse "deveria considerar os impactos de sua conduta". Não disse "talvez fosse o caso de repensar".
Disse pedra. Disse pescoço. Disse mar.
Porque quando o assunto é criança, eu sou absolutamente intolerante com a omissão.
Kauã tem onze anos. Deveria estar dormindo às dez da noite. Deveria ter um capacete, uma bicicleta que funciona, e a certeza de que amanhã vai ter leite. Deveria ter um pai. Deveria ter uma mãe que não precisa chorar no banheiro. Deveria ter uma infância.
Ele não tem nenhuma dessas coisas. E vocês aplaudem.
A próxima vez que alguém postar um vídeo de criança "empreendedora" e vocês sentirem vontade de curtir, lembrem-se da pedra de moinho.
Lembrem-se de Kauã.
E lembrem-se de que eu estou olhando.
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados de trabalho infantil são da PNAD Contínua/IBGE e do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil. As referências bíblicas são de Mateus 18:1-6, Marcos 10:13-16 e Isaías 10:1-2.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
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