
Encontro de famílias adotantes promovido por grupos de apoio em Brasília. Foto: Arquivo pessoal/cessão para a reportagem.
A adoção no DF dobrou em cinco anos — e as famílias cristãs aparecem nas estatísticas
Há uma estatística no Sistema Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça que merece mais atenção do que tem recebido: no Distrito Federal, o número de adoções efetivadas passou de 87 em 2020 para 178 em 2025. Dobrou. E dentro deste número, há um recorte que poucos querem ver.
Há uma estatística no Sistema Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça que merece mais atenção do que tem recebido: no Distrito Federal, o número de adoções efetivadas passou de 87 em 2020 para 178 em 2025. Dobrou.
E dentro deste número, há um recorte que poucos querem ver com calma.
Quando a pesquisadora Lúcia Marta, da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, analisou o perfil das 412 famílias que concluíram processos de adoção entre 2021 e 2025 na capital, encontrou um dado que não costuma aparecer em reportagens sobre o tema: 68% delas se declararam religiosas praticantes, sendo 41% evangélicas, 22% católicas, 3% espíritas e 2% de outras tradições. Apenas 32% se declararam sem religião ou não praticantes.
O que os números do CNJ mostram
A adoção no Brasil é um sistema estruturalmente desigual. Em média, segundo o Painel de Dados do SNA de março de 2026, há no país 4.967 crianças e adolescentes disponíveis para adoção e 35.128 pretendentes habilitados.
O problema não é falta de gente disposta a adotar. É que a maioria quer adotar crianças que, na prática, não estão disponíveis: bebês, brancas, saudáveis, de preferência sem irmãos.
O Distrito Federal reproduz o desenho nacional, mas com algumas particularidades que merecem atenção. Veja a evolução:
| Ano | Adoções concluídas no DF | Crianças maiores de 7 anos adotadas | Grupos de irmãos | |-----|--------------------------|-------------------------------------|------------------| | 2020 | 87 | 18 (20,7%) | 9 | | 2021 | 104 | 27 (25,9%) | 14 | | 2022 | 121 | 34 (28,1%) | 17 | | 2023 | 139 | 44 (31,6%) | 22 | | 2024 | 161 | 56 (34,8%) | 28 | | 2025 | 178 | 68 (38,2%) | 33 |
Olhe para a coluna do meio. Em 2020, apenas uma em cada cinco adoções no DF envolvia uma criança maior de sete anos — a faixa que o jargão jurídico chama de "adoção tardia" e que tem as maiores taxas de devolução, os maiores traumas e as menores filas de pretendentes.
no exercício anterior, essa proporção já era de quase dois em cada cinco.
A mesma curva aparece para grupos de irmãos. Em 2020, foram adotados nove grupos.
no exercício anterior, foram 33. Os serviços sociais chamam isso, com certa solenidade técnica, de "mudança de perfil".
Eu prefiro outra palavra.
A rede que não aparece na manchete
O aumento dos números não caiu do céu, e qualquer pessoa que frequente os grupos de apoio à adoção do Distrito Federal — o Grupo Aconchego, o Amor em Dobro, o Viva a Adoção, entre outros menores — sabe do que estou falando. Havia, no início do ano anterior, cerca de 840 famílias ativas nestes grupos, reunindo-se presencialmente pelo menos uma vez por mês em espaços cedidos por igrejas, salões paroquiais e centros comunitários.
Não é coincidência que boa parte das reuniões aconteça em templos. E não é coincidência que, quando a Vara da Infância faz oficinas preparatórias, os bancos estejam cheios de casais que chegaram até ali por um aviso no boletim de domingo, por uma mensagem no grupo de WhatsApp da célula, por um testemunho no culto da família.
"A rede religiosa funciona como um sistema de apoio afetivo, prático e espiritual que precede a chegada da criança e se mantém depois", disse-me uma assistente social da Vara da Infância, que pediu para não ser identificada porque ainda atua nos processos. "A família que chega pela igreja costuma ter irmãos de fé que fazem plantão nas primeiras semanas, que levam marmita, que cuidam dos outros filhos durante audiências, que oram quando o juiz nega um recurso.
Isso não existe na maioria das outras redes."
Não existe porque foi desmontado. A comunidade não-religiosa, no Brasil urbano do século XXI, é uma comunidade de indivíduos.
Famílias nucleares pequenas, vizinhança anônima, parentes espalhados pelo mapa. O tecido afetivo está rasgado.
Nas comunidades religiosas que ainda funcionam bem, ele continua inteiro — e a adoção, que é talvez o mais exigente dos projetos familiares, encontra ali terreno fértil.
A estatística que me incomoda
Preciso dizer também o que estes números não mostram.
Eles não mostram as devoluções. Em 2024, o Sistema Nacional de Adoção registrou no Distrito Federal 11 casos de devolução de crianças já em estágio de convivência — número pequeno em termos absolutos, enorme em termos humanos.
Destas 11 famílias, sete se declararam religiosas praticantes. A comunidade de fé não é imune ao fracasso, nem à fantasia de que o amor resolve tudo sem trabalho terapêutico, acompanhamento psicológico e humildade.
Os números também não mostram as crianças que continuam esperando. Em 1º de abril de 2026, havia 214 crianças e adolescentes aptos à adoção no DF.
Destes, 156 tinham mais de sete anos. Quarenta e sete tinham algum tipo de deficiência ou condição crônica de saúde.
Dezenove eram grupos de irmãos com três ou mais crianças. Eles esperam, em média, 4,2 anos entre a destituição do poder familiar e a adoção efetiva.
"O perfil das famílias que hoje acolhem mudou. Mas a fila dos que esperam continua enorme, e a composição dela não mudou nada", resume a relatora do relatório da Vara da Infância do ano anterior, em passagem que deveria estar em cartaz na porta de todas as nossas igrejas.
Sobre o que fazer com estes números
Escrevo como pastor, não como cientista. Mas aprendi, nos 22 anos de ministério em Brasília, que estatística sem ação pastoral é fofoca sofisticada.
Então, uma proposição: se as comunidades religiosas já estão produzindo quase dois terços das adoções do DF, talvez seja hora de elas também produzirem outra coisa — uma rede de acompanhamento pós-adotivo que reduza o número de devoluções, que sustente as famílias nos anos difíceis, que ofereça terapia subsidiada, grupos de pares, acompanhamento espiritual honesto sobre o que significa acolher uma criança com história prévia de dor.
Os números do CNJ são um retrato. Retratos não mudam realidade.
Quem muda realidade é gente que, depois de ver o retrato, faz alguma coisa.
E gente, graças a Deus, ainda existe por aqui.
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