
Fiéis lotam o Templo da Boa Vontade, na 915 Sul, em uma manhã de domingo de março. Foto: Pastor Josué/Mirante News.
As 12 maiores igrejas de Brasília reúnem mais gente num domingo do que o Mané Garrincha em final de campeonato
Vou começar com um número desconfortável, e desconfortável para os dois lados. Os 12 maiores templos religiosos de Brasília reúnem, num domingo médio, cerca de 78 mil fiéis. O estádio Mané Garrincha tem capacidade para 72.788 pessoas. A conta é simples: a fé semanal lota o estádio mais um pedacinho. E faz isso toda semana, sem ingresso, sem segurança terceirizada e sem cobertura da imprensa esportiva.
Vou começar com um número desconfortável, e desconfortável para os dois lados. Os 12 maiores templos religiosos de Brasília reúnem, num domingo médio, cerca de 78 mil fiéis.
O estádio Mané Garrincha tem capacidade para 72.788 pessoas. A conta é simples: a fé semanal lota o estádio mais um pedacinho.
E faz isso toda semana, sem ingresso, sem segurança terceirizada e sem cobertura da imprensa esportiva.
Trago essa comparação não para vangloriar igreja, nem para diminuir futebol, atividade humana das mais nobres. Trago porque ela é fato, e fato bem documentado.
O Censo de 2022 do IBGE, divulgado em sua leitura sobre religião no fim de 2025, e a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan, publicada em janeiro deste ano, permitem montar o quadro.
A foto religiosa do Distrito Federal
O DF tem 2,98 milhões de habitantes. Desses, 53% se declaram católicos, 33% evangélicos de diversas denominações, 6% espíritas, 2% de matriz africana, 1% praticantes de outras religiões e 5% sem religião.
A proporção de evangélicos é a maior entre as capitais do Centro-Oeste e supera a média nacional, que ficou em 31%.
| Religião | % no DF | População estimada | |---|---|---| | Católica | 53% | 1.580 mil | | Evangélica (todas denominações) | 33% | 985 mil | | Espírita kardecista | 6% | 179 mil | | Matriz africana e umbanda | 2% | 60 mil | | Outras (judaísmo, islã, budismo etc.) | 1% | 30 mil | | Sem religião | 5% | 149 mil |
Esses 985 mil evangélicos do DF não estão concentrados numa única denominação. Pertencem à Assembleia de Deus, à Igreja Universal, à Mundial do Poder de Deus, à Batista Nacional, à Católica Carismática (que estatisticamente entra como católica, mas na prática vive próxima do mundo pentecostal), à Renascer, à Sara Nossa Terra, e a dezenas de comunidades menores espalhadas por Ceilândia, Samambaia, Taguatinga e Sobradinho.
A diversidade é grande, e desconhecê-la é desconhecer a cidade.
Os 12 maiores templos por frequência dominical
A pedido desta reportagem, e baseado em dados de capacidade declarados pelas próprias instituições e em estimativa de ocupação cruzada com a Secretaria de Turismo do DF, chegamos à seguinte lista:
| Templo | Localização | Frequência média/domingo | |---|---|---| | Catedral Metropolitana de Brasília | Esplanada | 12.000 | | Templo da Boa Vontade (LBV) | 915 Sul | 9.500 | | Igreja Universal Catedral da Fé | Setor Hoteleiro | 8.200 | | Assembleia de Deus Madureira (sede) | Taguatinga | 7.800 | | Igreja Mundial do Poder de Deus | Ceilândia | 6.500 | | Sara Nossa Terra (Asa Sul) | 612 Sul | 5.800 | | Renascer em Cristo | Taguatinga Sul | 5.400 | | Batista Central de Brasília | 707 Sul | 5.200 | | Catedral Militar Rainha da Paz | Setor Militar | 4.900 | | Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra Sudoeste | Sudoeste | 4.700 | | Santuário Dom Bosco | 702 Sul | 4.300 | | Igreja Adventista Central | Asa Norte | 3.900 | | Total | | 78.200 |
A capacidade do Estádio Mané Garrincha, construído para a Copa de 2014, é de 72.788 lugares. A diferença, 5.412 pessoas, equivale ao público que costuma assistir a uma final do Candangão num domingo qualquer.
Os 78 mil fiéis dos 12 templos comparecem todo fim de semana. O estádio só lota em finais e jogos de seleção, não mais de quatro ou cinco vezes por ano.
O que o número diz e o que o número não diz
O número diz que a religião em Brasília é fenômeno de massa, organizado, semanal, persistente. Diz também que esse fenômeno não está concentrado em Ceilândia ou em Samambaia, como o estereótipo costuma sugerir.
Está distribuído pela cidade. Há templos lotados na Asa Sul, na Asa Norte, no Sudoeste e no Setor Militar tanto quanto na periferia.
O número não diz, contudo, que Brasília é cidade religiosa no sentido devocional integral. Comparecer ao culto não é o mesmo que viver a fé sete dias por semana.
Pesquisa Datafolha de dezembro mostrou que 38% dos brasileiros que se declaram religiosos confessam não rezar diariamente, e 22% afirmam não ler livro sagrado nenhum no último ano. A frequência ao templo é parte da religião, não toda ela.
E talvez nem a parte mais importante.
O número também não diz quanto desse comparecimento é espiritualidade autêntica, quanto é hábito familiar, quanto é busca por comunidade num mundo solitário, e quanto é, francamente, busca por conforto emocional num país que distribui ansiedade aos seus habitantes em doses generosas. Cada uma dessas motivações é legítima.
Nenhuma delas é desprezível.
A economia silenciosa da fé
A Secretaria de Turismo do DF estima que o turismo religioso movimentou R$ 142 milhões na capital em 2025. O valor inclui visitas ao Templo da Boa Vontade, à Catedral, ao Santuário Dom Bosco, e a eventos como a Marcha para Jesus, que reuniu 320 mil pessoas no Eixo Monumental em junho do ano passado.
Para efeito de comparação, o Brasília Open de tênis, evento esportivo de 2024, movimentou R$ 18 milhões. A fé, como economia, pesa mais.
Os templos também empregam. Estima-se que as 12 maiores comunidades religiosas listadas mantenham juntas cerca de 1.400 funcionários diretos, entre pastores, padres, sacerdotes, secretárias, recepcionistas, equipes de limpeza, técnicos de som e seguranças.
Não é Petrobras, mas é mais que muito comércio formal do Plano Piloto.
Por que isto deveria interessar a quem não vai à igreja
Se você não frequenta culto, missa, terreiro ou centro espírita, talvez tudo isso pareça irrelevante. Não é.
A pessoa que senta ao seu lado no metrô na segunda-feira passou o domingo num desses templos. O motorista do Uber que te levou ontem provavelmente é evangélico.
A faxineira do seu prédio reza terço. O médico do plano de saúde foi à missa.
O síndico é espírita. O policial militar é Assembleia de Deus.
A juíza federal é católica praticante.
Isto não é juízo. É descrição.
Em Brasília, ignorar a religião é ignorar a maioria silenciosa que constrói a cidade nos dias úteis e descansa, em comunidade, nos dias santos. Quando 78 mil pessoas se sentam para ouvir alguém falar sobre Deus enquanto o estádio fica vazio, está se dizendo algo sobre o que essas pessoas precisam.
O sociólogo que ignora isso escreve análises ruins. O político que ignora isso perde eleições.
O jornalista que ignora isso escreve reportagens incompletas.
Uma palavra final, pessoal
Sou pastor. Não escondo.
Mas escrevo aqui como observador, não como pregador. Não vou dizer que a fé resolve tudo, porque seria mentira.
Não vou dizer que igreja é melhor que estádio, porque seria pretensão. Vou dizer apenas que, num país tão dado a ironias contra a fé, vale a pena olhar para as 78 mil cadeiras ocupadas todo domingo e perguntar, com humildade: o que eles encontram lá dentro que vocês ainda não souberam oferecer?
Talvez não seja Deus a resposta para todos. Mas é, para muitos, comunidade.
E comunidade, em cidade construída no meio do Cerrado por gente desenraizada de meio Brasil, é coisa que vale ouro. Em qualquer denominação.
Inclusive na denominação dos que não creem em nada e ainda assim, por hábito ou nostalgia, vão à missa de Natal.
Brasília reza mais do que torce. Os números estão aí.
O que cada um faz com essa informação é escolha pessoal. Eu, da minha parte, continuo no púlpito de domingo.
E volto na segunda para escrever no jornal, porque jornalismo também é, à sua maneira, uma forma de esperança.
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