
Assis Chateaubriand em pé diante de quadro do MASP, fim dos anos 50. O magnata que provou ao Brasil que arte não é luxo de europeu — é dever de Estado de qualquer república que se leve a sério.
Do museu como dever de Estado — sobre por que uma capital sem grande arte é apenas uma cidade administrativa
Vou começar esta coluna, ó cidadãos, recuperando uma frase que tantas vezes me ouviram pronunciar nos bares de São Paulo entre 1946 e 1947, quando andava de paletó e chapéu pelo centro velho convencendo industrial após industrial a contribuir para a fundação de um museu de arte que muitos achavam ideia esquisita. A frase é a seguinte, e peço que a guardem na memória pelo resto destas linhas: nação que não tem arte à vista do povo não é nação. É território administrado. Território administrado é qualquer lugar onde há bandeira e carimbo. Nação é onde há memória, beleza e palavra livre, as três cousas ao mesmo tempo.
A hora é grave, ó pais conscritos da nova capital, e por isso escrevo com o coração e com a impaciência de quem já viveu a batalha cultural de outras décadas.
Brasília tem monumentos. Disso ninguém duvida. Tem o eixo monumental, tem a catedral, tem a esplanada dos ministérios, tem o palácio da alvorada, tem o congresso. Tem a obra arquitetônica de Niemeyer, que é, nas palavras de muitos visitantes estrangeiros que conheci nas últimas décadas, a mais ambiciosa construção urbanística do século vinte fora do bloco soviético.
Mas Brasília não tem, ainda hoje, depois de quase setenta anos de existência, um museu de arte que esteja à altura dos seus monumentos. E essa lacuna, ó cidadãos, é mais reveladora do que parece à primeira vista.
Do que separa cidade administrada de pátria
Vou erguer aqui uma distinção que talvez vos pareça filosófica demais para o gosto contemporâneo, mas que é, no fundo, uma distinção profundamente prática.
Há cidades, espalhadas pelo mundo, que existem apenas para abrigar a máquina administrativa de um Estado. Têm prédios oficiais, têm funcionários públicos, têm protocolo. Mas quando o turista informado chega nelas, sente, no segundo dia de visita, que não há ali alma específica — há apenas escritório. Canberra, na Austrália, é o exemplo clássico. Otava, no Canadá, é outro. São cidades excelentes para morar, ótimas para trabalhar, mas culturalmente vazias por construção.
Há outras cidades, ao contrário, que, mesmo quando inventadas recentemente, conseguem desenvolver uma alma própria. Washington, nos Estados Unidos, é exemplo disso — fundada em brejo malsão no fim do século dezoito como cidade puramente administrativa, e que, ao longo de duzentos anos, foi sendo preenchida com museus, com bibliotecas, com galerias, com estátuas, com toda a parafernália material da civilização que ela resolveu, em algum momento, decidir ser. Hoje, quem visita Washington encontra mais de vinte museus do Smithsonian abertos gratuitamente ao público — vinte museus —, além da National Gallery of Art, da Library of Congress, do Holocaust Memorial Museum, do Newseum, do African American History Museum. A cidade do pântano virou capital cultural do hemisfério norte.
A diferença entre Canberra e Washington não é arquitetônica. É de decisão política.
E Brasília, ó cidadãos, está hoje no caminho de ser uma Canberra, quando podia, com decisão correta, virar uma Washington.
Do precedente que eu próprio criei
Vou contar-vos brevemente como nasceu o MASP, porque o caso ilustra exatamente o tipo de gesto que esta capital precisa agora.
Era 1946. O Brasil saía da Segunda Guerra com a economia ainda em reestruturação, com indústria nascente, com elite empresarial preocupada com mil outras urgências mais práticas do que quadros europeus do século dezesseis. Eu próprio dirigia, na época, o maior conglomerado de mídia da América Latina — trinta e quatro jornais, trinta e seis emissoras de rádio, dezoito de televisão. Tinha problemas concretos para resolver todos os dias.
E mesmo assim, eu sentei à mesa com os homens mais ricos de São Paulo e disse-lhes, sem rodeios, que queria comprar uma coleção europeia de primeiríssima linha — coisa de Rafael, de Tintoretto, de Velázquez, de Cézanne, de Manet, de Van Gogh — para abrir um museu público no centro da cidade.
Disseram-me que era ideia maluca. Disseram que o povo paulistano não saberia apreciar Rafael. Disseram que o dinheiro faria mais falta noutros lugares. Disseram que, se eu queria mostrar arte ao povo, era melhor importar uma exposição itinerante e cobrar entrada barata. Tudo isso me disseram, com ar de quem está sendo prático.
Eu insisti. Bati na mesa. Comprei os quadros, com dinheiro próprio e de doadores que convenci um a um, em Paris, em Nova York, em Londres, em Roma. Trouxe a coleção para o Brasil dentro de caixas que pareciam embalagens de eletrodomésticos para ludibriar a alfândega. Abri o MASP em 1947 num andar emprestado. Em 1968, quando o museu mudou para o prédio da Lina Bo Bardi na Avenida Paulista, já era um dos cinco museus de arte importantes do hemisfério sul.
Vinte e um anos. Foi o tempo entre a decisão e a maturidade.
E o povo paulistano, contra o que os pessimistas previam, fez fila aos sábados para ver Rafael, fez fila para ver Velázquez, fez fila para ver Van Gogh. Fez fila porque estava sedento do que ninguém antes dele se dera ao trabalho de oferecer.
Da fila brasiliense que ainda não se formou
Volto a Brasília, ó pais conscritos, com o caso paulistano fresco na memória.
Esta capital tem, hoje, museus pequenos, museus específicos, museus institucionais. Tem o Museu Nacional da República, desenhado por Niemeyer, belo por fora, modesto por dentro. Tem o Museu Vivo da Memória Candanga. Tem espaços expositivos dispersos pelos ministérios e pelas embaixadas. Tem alguma iniciativa privada esforçada.
Mas não tem, ó cidadãos, um único museu capaz de mostrar ao brasiliense — e ao visitante estrangeiro que vem ao Brasil apenas para conhecer a capital — uma coleção de primeira linha de arte universal, exposta de forma permanente, em prédio à altura do que se expõe, com curadoria séria, com programa educativo robusto, com ingresso acessível.
Não tem. E essa ausência, ó cidadãos, é responsabilidade de gerações sucessivas de governadores, ministros da cultura, empresários locais, mecenas potenciais e formadores de opinião que não acharam, em sessenta e cinco anos, que o assunto merecesse investimento sério.
A ausência é tão antiga que virou paisagem. E paisagem, em qualquer cidade, é coisa que ninguém mais nota — porque naturalizou-se.
Da objeção que vou desarmar antes que ela apareça
Sei o que alguns leitores vão dizer ao chegarem a este ponto da coluna. Vão dizer que Brasília tem outras prioridades. Que saúde vem antes de arte. Que educação básica vem antes de museu. Que segurança vem antes de Tintoretto. Que arte é luxo de país desenvolvido.
Não, ó cidadãos. Não.
Saúde, educação, segurança e arte não estão em concorrência hierárquica. Estão num sistema único cuja saúde mútua produz República adulta. Quem sacrifica a arte em nome das outras três não obtém, em troca, nem a quarta nem as outras três fortalecidas. Obtém apenas uma sociedade administrada que melhora, na média, vagarosamente, em todos esses indicadores, sem nunca conseguir alcançar a forma adulta de existência nacional.
A arte, ó cidadãos, é o que torna possível, no longo prazo, a formação de cidadãos que entendem o tamanho da própria herança. Sem essa compreensão, todos os outros investimentos públicos viram gestão de manutenção. Com essa compreensão, viram, devagar, cultura cívica.
Foi por isso que insisti, em 1946, contra todas as objeções práticas, em fundar o MASP. Sabia, no fundo, que o meu retorno financeiro pessoal seria zero. Sabia que estava arriscando a reputação. Sabia que estava distraindo capital e atenção de problemas mais imediatos. E mesmo assim segui adiante, porque percebi que se São Paulo entrasse no século vinte e um sem um museu à altura, jamais entraria como cidade adulta — entraria apenas como megalópole administrativa.
São Paulo entrou adulta. Custou caro. Valeu cada centavo.
Da chamada à mocidade brasiliense
Concluo, ó pais conscritos, dirigindo-me uma vez mais à mocidade desta nova capital.
A vós, jovens nascidos em Brasília, formados nas escolas públicas e particulares desta cidade, é que me dirijo agora, porque sois vós que tereis de cobrar, dos vossos governantes, o museu que esta capital ainda não tem.
Cobrai-o. Cobrai-o com paciência, mas com firmeza. Cobrai-o não como gentileza, mas como dever. Cobrai-o com a mesma energia com que se cobra estrada, hospital, escola — porque o museu não é menos do que essas três coisas, é cousa do mesmo naipe republicano.
E enquanto o museu não vem, comecem vós próprios o trabalho: criem coleções pessoais, ainda que pequenas; visitem as embaixadas que abrem mostras; frequentem as galerias modestas que existem; assinem revistas de arte; viajem, quando possível, para ver o que falta na vossa cidade. A formação que o Estado não vos ofereceu, podeis começar a oferecer a vós mesmos.
Mas não percais, ó cidadãos, a indignação. Não aceiteis a ausência como destino. Não consinta a vossa geração que esta capital — concebida por JK, desenhada por Niemeyer, construída pelos candangos — entre no segundo século da sua existência sem o museu que merece desde o primeiro dia.
A grandeza, ó mocidade, é sempre exigente. E a arte é a parte mais difícil da grandeza, porque é a única que não se compra com decreto.
Tenho dito, do alto desta torre.
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