O povo brasiliense existe — e tem 66 anos de mistura por inventar
Uma análise antropológica sobre a única cidade brasileira fundada com data, mapa e decreto — e sobre o povo improvisado que ela acolheu, transformou e devolveu ao Brasil como categoria nova.
Quando aceitei o convite para olhar Brasília de novo, em 2026, sessenta e seis anos depois da inauguração e mais de quarenta anos depois de O Povo Brasileiro, fiquei numa cadeira de varanda no Park Way pensando uma coisa simples: quem é o brasiliense? A pergunta parece banal. Não é.
Toda capital brasileira nasceu encostada em alguma coisa. São Paulo nasceu de bandeira. Salvador nasceu de mar. Rio de Janeiro nasceu de baía. Recife nasceu de açúcar. Belém nasceu de Amazônia. Cada uma trouxe consigo, junto com a fundação, uma população original — gente que veio antes da cidade, gente que se misturou ao território, gente que ficou. Brasília não. Brasília nasceu de decreto. O território aqui não tinha quase ninguém. O cerrado era cerrado. E Juscelino, em 1956, ofereceu o impossível: um lugar para quem quisesse vir, qualquer que fosse a origem, em troca de um trabalho que ainda não estava pronto.
E vieram. Vieram nordestinos. Vieram mineiros. Vieram gaúchos engenheiros que queriam trabalhar com Niemeyer. Vieram cariocas funcionários que precisavam acompanhar a transferência da capital. Vieram goianos que estavam ali do lado e descobriram, de repente, que a vizinhança virara metrópole. Vieram paulistas em segunda fase, depois que a coisa começou a pegar.
Em sessenta e seis anos, esse povo improvisado virou três milhões. E aí mora a pergunta antropológica que ainda não foi respondida: que povo é esse?
A hipótese da quinta matriz
Eu havia escrito, em O Povo Brasileiro, que o brasileiro tem quatro matrizes formadoras: o brasil-crioulo (Nordeste), o brasil-caboclo (Norte/Amazônia), o brasil-sertanejo (interior pastoril), e o brasil-caipira (Sudeste/Centro-Oeste rural). E mais o brasil-sulino, que tratei como ramificação. Cinco grandes blocos antropológicos, cada um com sua síntese cultural particular, todos descendentes da matriz tupi misturada com o português e o africano em proporções diferentes.
Brasília não cabe em nenhum desses blocos. E nem deveria — Brasília surgiu depois deles, como produto deliberado da modernização tardia do Brasil. Mas a hipótese que quero deixar registrada nesta visita é a seguinte: Brasília não é variação de nenhuma das matrizes existentes. Brasília é a primeira tentativa, em escala demográfica relevante, de uma matriz nova. Chamei de matriz brasiliense no caderno de campo. Pode parecer presunção. Não é — é descrição do que está acontecendo.
A matriz brasiliense, do que consigo observar, tem três marcas distintivas.
A primeira marca é a origem múltipla sem hierarquia. Em Salvador, todo morador sabe quem são os "fundadores" — ali há uma elite com sobrenome de cinco séculos. Em São Paulo, há os bandeirantes e seus descendentes. Em Brasília, ninguém é descendente de fundador, porque a fundação foi anteontem. O candango da primeira hora é avô, no máximo bisavô. Isso produz uma sociologia plana — sem aristocracia rural, sem família tradicional, sem o peso simbólico da terra herdada. O que pesa em Brasília é o cargo, o concurso, o salário do mês. O capital social é renovável.
A segunda marca é a convivência cotidiana de todos os sotaques do Brasil. Numa quadra qualquer da Asa Sul, a senhora que faz a unha mora ao lado do delegado da Polícia Federal que mora em frente ao motorista de aplicativo que veio do Maranhão e que toma café no posto do italiano cujo neto estuda Direito na UnB ao lado do filho do diplomata aposentado que casou com uma jornalista paranaense. Não há outro lugar no Brasil onde isso aconteça com essa naturalidade — porque não há outro lugar que tenha sido construído sem pré-população de referência. Aqui, todo mundo é forasteiro. E quando todo mundo é forasteiro, ninguém é mais.
A terceira marca é a relação peculiar com o Estado. Em outras capitais, o Estado é abstração distante que aparece em forma de prefeitura, prefeito, secretaria, fiscal. Em Brasília, o Estado é o vizinho. O Estado mora na quadra. O Estado anda de carro de placa branca pelo eixo. O Estado almoça no restaurante por quilo da L2. Isso produz duas reações simultâneas no morador: o Estado vira menos sagrado (porque é gente como a gente), mas também vira mais conhecido (porque você sabe que dá para chegar nele se precisar). Esse mix de cinismo casual e familiaridade prática é só de Brasília.
Os números que validam — e os que não validam
Vejamos o que os dados disponíveis em 2025 e 2026 dizem sobre essa hipótese.
| Indicador | DF | Brasil | |-----------|----|----| | População (estimativa 2024) | 2,98 milhões | 215 milhões | | Renda domiciliar per capita | R$ 11.017 | R$ 5.434 | | Anos médios de estudo (25+) | 11,8 | 8,9 | | % com superior completo | 45% | 22% | | Taxa de migração interestadual recente | alta | baixa | | % de servidores públicos sobre PEA | 28% | 12% | | Religião evangélica | 30% | 31% | | Religião católica | 49% | 56% | | Cor/raça parda | 50% | 45% | | Cor/raça preta | 9% | 11% | | Cor/raça branca | 39% | 43% |
A leitura dos números reforça três coisas. Primeiro, Brasília é mais escolarizada e mais rica que o Brasil — isso não é novidade, mas é fundamento da matriz. Segundo, a composição racial é semelhante à média nacional, com leve sobrepeso de pardos — sinal de mistura ativa. Terceiro, e mais interessante: o peso do Estado na economia local é o dobro da média do país. Vinte e oito por cento da população economicamente ativa do DF trabalha em alguma esfera do setor público. No Brasil inteiro, esse número é doze.
O Estado, em Brasília, não é figura distante. É empregador-mor. É vizinho. É padrinho de batismo. É amigo do pai do colega da escola. Essa intimidade molda comportamento, valor político, referência cultural. E é parte central da matriz brasiliense que estou propondo.
A hipótese contrária — e por que ela não convence
Há quem diga que Brasília não tem cultura própria — que é só uma soma de migrantes que ainda guardam, cada um, a cultura da terra de origem. O nordestino do Sol Nascente continua nordestino. O gaúcho do Lago Sul continua gaúcho. O mineiro de Sobradinho continua mineiro. A tese é defendida por antropólogos que olharam só os primeiros vinte anos da cidade, quando, de fato, isso parecia ser o caso.
Mas observe o que acontece a partir da segunda geração. O filho do nordestino e da mineira que se conheceram na obra do Eixão e moram em Ceilândia desde 1975 não é nordestino nem mineiro. É brasiliense. Frequentou escola pública do DF. Joga futebol em campo de areia da quadra. Toma açaí no quiosque da Asa Norte. Tem sotaque que mistura traços do Nordeste com a velocidade de fala do Sudeste. Ouve forró, sertanejo, pagode e funk no mesmo dia. Não tem mais a saudade que o pai tinha de Caruaru. Tem outra coisa: tem orgulho de Brasília, mesmo reclamando dela diariamente.
Esse filho — que hoje tem 40 anos, é eletricista ou auxiliar administrativo do GDF, mora em Águas Claras, tem dois filhos no ensino fundamental — é o brasiliense puro. E ele é a maioria silenciosa da capital. A pesquisa antropológica que ainda não foi feita no DF é a que vai entrevistar essas duzentas mil pessoas e perguntar: o que é ser brasiliense para você?
Aposto que a resposta vai surpreender quem espera uma definição pronta.
O que isso significa para o Brasil
Aqui chego ao ponto que talvez interesse menos ao leitor de Brasília e mais ao leitor de Salvador, do Recife, de Manaus. Significa o seguinte: o Brasil tem agora, dentro de si, uma quinta matriz formada em apenas três gerações. É experiência demográfica sem precedentes na história das Américas. Nunca antes uma capital construída do zero, num deserto cultural, gerou em sessenta anos um povo identificável, tão grande quanto Lisboa ou Roma, com cultura própria suficiente para compor uma matriz antropológica.
A matriz brasiliense é um laboratório do que o Brasil pode ser quando se permite construir povo a partir do zero. Esse laboratório tem coisas boas — a mistura sem hierarquia, a escolarização média alta, a renda mais distribuída que em outras capitais. E tem coisas ruins — a dependência umbilical do Estado, a fragilidade do tecido empresarial privado, a desconexão entre o Plano Piloto e as regiões administrativas distantes.
Mas o experimento existe. Está em curso. E precisa de antropólogos jovens com gravador na mão, percorrendo a Ceilândia, o Sol Nascente, o Itapoã, o Gama, Planaltina, Brazlândia, perguntando coisas básicas e ouvindo o que ninguém ainda quis ouvir.
Meu legado, se algum, é esse: deixei a hipótese registrada. Quem vier depois que faça a etnografia.
Coluna de opinião. Análise antropológica assinada pela persona Darcy Ribeiro, baseada na obra do antropólogo (1922–1997). As observações são ficcionais e não representam posições editoriais do Mirante News. Produzido por inteligência artificial com supervisão editorial humana, em conformidade com o PL 2338/2023.
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