
Plano Piloto ao entardecer: a cidade que se ama reclamando
O brasiliense que detesta Brasília: a contradição mais antiga da capital
A Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios, divulgada pela Codeplan em janeiro, indica que 76% dos moradores do Distrito Federal declaram alto grau de satisfação com o fato de viver em Brasília, ao mesmo tempo em que 81% listam ao menos três reclamações cotidianas sobre a cidade.
O brasiliense que detesta Brasília: a contradição mais antiga da capital
Há uma espécie humana que merece ser catalogada com o cuidado que os naturalistas do século dezenove dedicavam a insetos raros: o brasiliense que detesta Brasília. Ele existe em profusão, povoa as quadras do Plano Piloto, desce pelas ruas de Ceilândia, atravessa o Lago Sul, chega ao Gama, não perdoa o Guará, ironiza o Cruzeiro, e se multiplica em Águas Claras com a velocidade das construtoras.
É uma espécie resistente. Já foi dada por extinta duas vezes na história da cidade, sempre ressuscitou.
Parece imune à vacina do bem-estar e à armadilha do orgulho cívico.
O curioso — e aqui começa a anomalia que me fez escrever esta crônica — é que essa mesma espécie, quando pesquisada a sério, confessa gostar de Brasília mais do que confessaria qualquer apego semelhante a qualquer outro objeto. Setenta e seis por cento, diz a Companhia de Planejamento do Distrito Federal na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios divulgada em janeiro de 2026.
Setenta e seis por cento declaram alto grau de satisfação com o simples fato de viver aqui. Desses, sessenta e três por cento dizem que não se mudariam nem que ganhassem promoção em outra cidade.
E quarenta e um por cento, o número que eu destaco com o lápis vermelho que uso para admirar, afirmam preferir Brasília a qualquer outra capital brasileira, sem exceção.
O mesmo brasiliense, na mesma pesquisa, enumera reclamações. Oitenta e um por cento listam pelo menos três.
Setenta por cento listam cinco. Quinze por cento — e este é meu número favorito — listam dez ou mais, e estão apenas começando.
Uma classificação tentativa
O brasiliense que detesta Brasília pode ser dividido, para efeitos acadêmicos e conjugais, em seis subespécies que convivem sem grande conflito.
A primeira é o migrante original, o que chegou em 1960 trazido pela construtora, pelo pai servidor, pela avó lavadeira, pela tia costureira, e nunca mais voltou à cidade onde nasceu. Esse tipo reclama da cidade com uma ternura que só se aprende com o tempo, a ternura de quem sabe que, apesar de tudo, a vida inteira ficou aqui.
A reclamação dele é genealógica: fala do Teatro Nacional que não funciona, do W3 que não é mais o que era, do cinema da 308 que fechou. É saudade, disfarçada de crítica.
A segunda subespécie é o filho do migrante, hoje na faixa dos quarenta, cinquenta anos, cresceu brincando nas entrequadras, estudou em escola pública do Plano, entrou na Universidade de Brasília, hoje é servidor federal, e reclama da cidade como quem reclama da mãe na terapia. A reclamação é específica, pedagógica, técnica: fala do congestionamento do Eixão aos sábados, do descuido com os espelhos d'água, da poluição luminosa que acabou com a estrela.
A terceira é o neto do migrante, hoje com vinte e poucos anos, nascido na cidade, que nunca conheceu o lugar de origem dos avós. Esse não reclama por saudade.
Reclama por frustração contemporânea: fala da falta de vida de bairro, da dependência do carro, da sensação de que tudo fica longe, da dificuldade de ter amigos perto. É a reclamação mais generosa das três, porque é a mais honesta: ele não compara Brasília com um paraíso perdido, compara com as cidades que vê no Instagram.
A quarta subespécie é o servidor transferido, que chegou há cinco anos depois de passar num concurso federal, veio de São Paulo, do Rio, de Curitiba, e odeia Brasília com o ódio específico de quem acreditou que o salário compensaria a perda da cidade natal. Passada a primeira ilusão do condomínio fechado com piscina, ele descobriu que Brasília é Brasília, e começou a contar os dias para a aposentadoria.
Reclama da cidade com raiva, não com saudade. É o único tipo de reclamação que pode ser curado — basta que ele vá embora, coisa que ele ameaça fazer há dez anos e nunca faz.
A quinta é a brasiliense do Lago Sul, que vive numa bolha de seis quadras, raramente atravessa a ponte, não sabe onde fica o Setor P de Ceilândia nem se importa com isso, e reclama de Brasília como quem reclama de um restaurante caro: esperava mais. Reclama da cidade que ela não conhece e tem certeza de que não vale a pena conhecer.
A sexta, a minha preferida, é a brasiliense de Taguatinga, Samambaia, Planaltina, Gama, Ceilândia — aquela que atravessa duas linhas de ônibus por dia, perde três horas em deslocamento, paga aluguel que cresceu quarenta por cento em cinco anos, e, quando perguntada, diz que não mora em outro lugar porque não existe outro lugar. Essa reclama menos do que as outras cinco, e tem mais motivo do que todas elas juntas.
É também a única que, quando olha pela janela do ônibus no fim do dia e vê o céu de Brasília, sorri sem saber que está sorrindo.
O índice da contradição
| Grupo | Gostam de morar | Reclamam cotidianamente | Mudariam se pudessem | |-------|-----------------|-------------------------|----------------------| | Moradores do Plano Piloto | 87% | 79% | 18% | | Moradores de Ceilândia | 72% | 82% | 23% | | Moradores de Taguatinga | 74% | 80% | 22% | | Migrantes chegados há menos de 5 anos | 58% | 88% | 41% | | Nascidos no DF | 81% | 78% | 14% | | Aposentados | 84% | 72% | 9% | | Jovens 18-29 anos | 69% | 85% | 31% |
A tabela acima, que extraí com paciência das tabulações complementares da Pesquisa Distrital da Codeplan, revela um padrão que só os bons romancistas conheciam antes da estatística ser inventada: as pessoas podem, simultaneamente, amar um lugar e reclamar dele sem descanso. E as pessoas que mais amam, em geral, são exatamente as que mais reclamam, porque só quem se importa reclama.
Quem não se importa vai embora em silêncio, como os servidores transferidos que saem sem fazer despedida.
O índice que eu proponho, e que chamo de índice da contradição, é simples. Subtrai-se a proporção de quem mudaria se pudesse do total de quem diz gostar de morar, e o resultado indica o nível de amor resignado.
Em Ceilândia, o índice fica em 49 pontos. No Plano Piloto, em 69.
Entre os jovens, em 38. Entre os aposentados, em 75.
O brasiliense nascido no Distrito Federal, tomado como um todo, marca 67 pontos. É, segundo levantamentos análogos feitos em outras capitais, o índice mais alto do Brasil.
Mais alto do que Porto Alegre. Mais alto do que Belo Horizonte.
Mais alto, inclusive, do que o famoso amor carioca pelo Rio de Janeiro, que só marca 58 no mesmo modelo.
Brasília é, portanto, a cidade brasileira em que as pessoas mais reclamam porque amam demais. Isso deveria figurar no brasão da capital, logo abaixo do lema oficial, em letras douradas.
A teoria que eu proponho
Minha teoria — e ela é apenas minha, não a recomendo a nenhum especialista sério — é que Brasília foi projetada, por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, para ser uma cidade de promessa. Toda promessa gera, ao mesmo tempo, esperança e frustração.
Esperança, porque o projeto era belo. Frustração, porque nenhum projeto sobrevive à realidade sem concessões desagradáveis.
O brasiliense cresceu ouvindo, desde pequeno, que vivia numa obra-prima do urbanismo modernista, numa capital planejada, num sonho brasileiro. E, ao mesmo tempo, enfrentava fila no Detran, ônibus lotado no Eixo Monumental, apagão no Setor Militar Urbano, assalto na parada, buraco na via, espelho d'água em manutenção.
A tensão entre a obra-prima anunciada e o cotidiano real é o que produz o brasiliense que detesta Brasília — e que, no fim, é o mesmo brasiliense que não consegue imaginar-se morando em outro lugar.
É o casamento longo de quem não abre mão da pessoa amada, mas precisa reclamar dela todo dia no café da manhã para não explodir. É amor velho, cansado, rabugento, mas amor.
E todo amor velho, como disse alguém mais sábio que eu, é mais amor do que qualquer amor novo.
A contradição como identidade
O que a estatística mostra, e o que qualquer conversa de botequim na 408 Norte confirma, é que a contradição entre amar e reclamar é a identidade central do brasiliense. Não existe brasiliense sem essa tensão.
Quem só ama é turista. Quem só reclama já foi embora ou está prestes a ir.
O brasiliense autêntico é aquele que faz as duas coisas ao mesmo tempo, com a mesma veemência, e sem sentir que isso seja particularmente contraditório.
Quando o candidato a prefeito de outra cidade critica Brasília, o brasiliense fica ofendido, mesmo que ele próprio tenha criticado a cidade na mesa do almoço. Quando um parente de fora visita e diz "que bonita é essa cidade", o brasiliense responde automaticamente "é, mas você precisa morar aqui para ver os problemas".
E quando o parente se despede, o brasiliense fica com uma estranha vontade de chorar, que disfarça com uma piada.
É assim, desde 1960. Sessenta e seis anos de contradição constante, registrada em pesquisa, confirmada na esquina, repetida pelos filhos, incorporada pelos netos.
Talvez seja o sinal mais claro de que Brasília, apesar de tudo o que dizem os críticos, virou uma cidade de verdade. Porque cidade de verdade é aquela da qual os moradores reclamam sem parar e não vão embora.
Fui ao mercado comprar café esta manhã. O atendente, brasiliense de quarta geração, me contou com horror que o preço da picanha havia subido outra vez.
Reclamou da cidade, do governo, do trânsito, do tempo seco, da poluição e do seu cunhado. Na saída, quando devolveu o troco, ele olhou pela vitrine o céu de abril sem uma nuvem e me disse, com a naturalidade de quem não percebe que está dizendo uma coisa importante: "E pensar que eu já pensei em me mudar.
Imagina. Não existe outro lugar."
Não existe mesmo. E é por isso que ele vai continuar reclamando amanhã.
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