
Mirante News
O paradoxo do brasiliense rico que sonha em morar em cidade pequena
Há nas coberturas da Asa Sul um silêncio peculiar à hora do crepúsculo. É o silêncio do homem que conquistou tudo aquilo que se ensina a desejar, e descobre, com certo espanto, que o desejo seguinte é justamente o oposto. Ele toma seu vinho na varanda, contempla o céu impossivelmente largo de Brasília, e confessa em voz baixa para a esposa: queria mesmo era morar numa cidade pequena. Ela concorda. Os filhos, no quarto, jogam videogame e nada sabem da conversa — mas herdarão o sentimento por algum mecanismo misterioso que a genética ainda não decifrou.
Confesso ao leitor que tenho assistido, há algum tempo, a um fenômeno que me parece digno de registro — não pela novidade, pois nada do que escrevo é novo, mas pela teimosia com que se repete entre pessoas que jamais se encontraram e que, encontrando-se, talvez não se reconhecessem. Refiro-me ao curioso costume que tomou conta dos brasilienses de melhor situação financeira — esses que moram nas quadras pares da Asa Sul, no Lago Sul de mansão branca, no Sudoeste de apartamento alto — de declarar, em qualquer roda mais íntima, que o sonho da vida é mudar-se para uma cidade pequena.
Cidade pequena qual? Ah, essa é a parte interessante da história.
Não se sabe.
A doença sem nome
Atendo ao chamado de minha curiosidade, comecei a anotar esses depoimentos como quem cataloga conchas na praia. Recolhi muitas.
O médico cardiologista de cinquenta e dois anos confessa que sonha em comprar uma chácara em Pirenópolis, vender o consultório e atender só duas vezes por semana. A advogada de quarenta e três, sócia de banca de Direito Tributário, diz que está cansada do escritório e que pretende, em cinco anos, mudar-se para Tiradentes.
O servidor concursado da Câmara, com salário de R$ 38 mil e dois apartamentos quitados, jura que assim que aposentar vai morar em Lavras Novas, onde nunca foi, mas viu fotos. O empresário do agronegócio fala em Cunha.
O consultor em Holambra. A juíza federal em Monte Verde.
Cada um tem sua cidade, e cada cidade tem em comum apenas isto: nenhum deles mora lá, nenhum pretende morar amanhã, e todos têm certeza de que algum dia se mudarão.
A esta enfermidade, que ainda não consta nos manuais de psiquiatria, dei o nome provisório de saudade preventiva. É a saudade que se sente de um lugar onde nunca se esteve, por uma vida que nunca se viveu, contra um cansaço de uma rotina que, examinada de perto, não parece tão cansativa assim.
O sintoma é universal entre as classes altas do Distrito Federal e — eis o detalhe que mais me intriga — quase ausente entre as classes médias e populares, que sonham, ao contrário, em conquistar o apartamento maior, o carro melhor, a escola particular para os filhos. Os pobres sonham em chegar onde os ricos estão.
Os ricos sonham em sair de onde chegaram. É o que chamo, sem grande originalidade, de moto-perpétuo da insatisfação humana.
A geografia do escapismo
Investiguei mais. Quis saber onde, exatamente, esses sonhadores pretendem se refugiar.
Cruzei conversas, anotei nomes, cataloguei. O resultado é uma geografia surpreendente.
| Cidade dos sonhos | Estado | Pop. real | Custo de vida vs. DF | Incidência da fantasia | |-------------------|--------|-----------|----------------------|------------------------| | Pirenópolis | Goiás | 24 mil | 35% menor | Muito alta | | Tiradentes | Minas | 7 mil | 42% menor | Alta | | Cunha | São Paulo | 22 mil | 38% menor | Média | | Lavras Novas | Minas | 1.200 | 45% menor | Alta entre médicos | | Monte Verde | Minas | 4 mil | 30% menor | Alta entre juízes | | Alto Paraíso | Goiás | 7 mil | 40% menor | Alta entre alternativos | | Holambra | São Paulo | 14 mil | 25% menor | Baixa, porém crescente |
O leitor atento já percebeu o padrão. Não é apenas que sejam cidades pequenas — são cidades pequenas que viraram destino turístico, que possuem boa pousada, restaurante decente e wi-fi razoável.
Ninguém sonha em mudar-se para uma cidade pequena de verdade, dessas que não têm padaria depois das oito da noite, dessas em que todo mundo conhece a vida de todo mundo desde criança. O brasiliense rico não quer cidade pequena.
Quer cidade pequena com confortos da cidade grande. Quer o silêncio sem o aborrecimento, a paisagem sem a fofoca, a tranquilidade sem o tédio.
Quer, no balanço, aquilo que não existe.
O espelho que não se enxerga
Aqui entra o que chamarei de paradoxo central, e peço ao leitor um instante de paciência para a digressão. Brasília, vista de fora, é exatamente aquilo que essas pessoas dizem querer.
É cidade limpa, planejada, com céu enorme, sem trânsito comparável ao de São Paulo, com vegetação preservada, com lago, com pôr-do-sol que decora capa de revista. Os indicadores de qualidade de vida, quando comparados aos de Salvador, do Rio, de Fortaleza, dão a Brasília vantagens consideráveis.
O brasiliense da Asa Sul, ao reclamar do estresse da capital, está reclamando de uma capital que, para qualquer paulistano ou carioca, é um spa de luxo.
E no entanto a queixa é sincera. Não há fingimento na voz do sonhador.
O cansaço que ele sente é real, mesmo que seja desproporcional ao motivo. O que ele não sabe é que o cansaço não vem da cidade — vem de si próprio.
Vem do trabalho que cresceu de tamanho à medida que ele subia na carreira. Vem do casamento que envelheceu sem que se notasse o envelhecer.
Vem dos filhos que precisam de coisas que ele não teve, mas precisa pagar. Vem da consciência incômoda de que tudo aquilo que ele tem foi conquistado por um esforço que agora parece desproporcional ao prazer extraído.
A cidade pequena é o sintoma. A doença está no peito.
A mudança que nunca acontece
Outra particularidade do fenômeno — e talvez a mais cruel — é que essas mudanças quase nunca acontecem. Os sonhadores envelhecem nas mesmas coberturas, os médicos continuam atendendo no consultório de sempre, os advogados continuam litigando, os juízes continuam julgando.
A chácara em Pirenópolis é comprada, sim, em alguns casos, mas converte-se em casa de fim de semana, frequentada três ou quatro vezes ao ano, depois duas, depois nenhuma, e finalmente vendida com pequeno lucro para outro sonhador da mesma geração. A mudança definitiva é adiada com a mesma teimosia com que é prometida.
Por quê? Porque, e aqui vai uma das poucas verdades que aprendi observando a humanidade, os homens raramente fazem aquilo que dizem desejar.
Fazem aquilo que se lhes apresenta como necessário no momento exato — pagar conta, atender filho, terminar prazo, evitar briga. O sonho de fugir é um respiro, não um plano.
Serve para tornar suportável a segunda-feira, não para alterar o calendário. Quem realmente vai morar em cidade pequena, vai.
Quem fica falando que vai, fica.
A herança involuntária
Aqui termino com a observação que me parece a mais melancólica de todas. Esse desejo, ainda que jamais se realize, é transmitido aos filhos.
Os meninos e meninas que crescem ouvindo a mãe dizer que sonha em morar em Tiradentes acabam, eles próprios, herdando uma certa insatisfação difusa com a vida brasiliense — uma sensação de que a verdadeira existência aconteceria em outro lugar, sob outro céu, com outras pessoas. Crescem prontos para partir, mas, como os pais, raramente partem.
Constroem suas próprias coberturas, contraem suas próprias hipotecas, e, em vez de Tiradentes ou Pirenópolis, talvez escolham Berlim ou Lisboa. O destino muda, a doença permanece.
A esta altura, leitor amigo, devo confessar minha simpatia pelos pacientes. Não há crime em desejar o que não se tem, e há mesmo certa dignidade no homem que, possuindo tudo, ainda encontra o que querer.
O perigoso não é o sonho, mas a confusão entre o sonho e a realidade. Quem sonha com Pirenópolis e sabe que jamais irá, tem em mãos um mecanismo poético de autopreservação.
Quem sonha com Pirenópolis e acredita que, se fosse, seria feliz, está construindo a infelicidade futura no presente.
A felicidade, essa velha conhecida que nunca chega quando é convidada e nunca se vai quando é dispensada, não mora em cidade pequena nem em capital federal. Mora, segundo me consta, dentro do peito, num quarto mal iluminado, atrás de uma porta que cada um precisa abrir sozinho.
As mudanças geográficas, ainda que feitas com caminhão de mudança e tudo, raramente entram nesse quarto. O homem é o homem onde quer que esteja.
Levou-se ele próprio para Pirenópolis, e foi ele próprio quem chegou.
Encerro a crônica com a recomendação de sempre, que é não dar recomendação nenhuma. Cada leitor que cuide do seu sonho, do seu peso, da sua varanda.
Eu, de minha parte, continuarei observando do alto deste meu texto a curiosa procissão dos brasilienses ricos rumo a cidades pequenas que jamais visitarão. É um espetáculo grátis e raramente decepcionante.
Como tudo na vida humana, oferece mais matéria para crônica do que para solução.
Score Hipnótico-Editorial
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Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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