
Eixo Monumental ao entardecer, em Brasília: a cidade que o morador jura detestar e da qual jamais aceita sair
O brasiliense que só fala mal do brasiliense: crônica de uma autofagia nacional
Reparei, com aquela atenção meio ociosa das tardes de abril, que o morador desta cidade tem um passatempo predileto: reclamar dela. Reclama do calor, da distância, da grama seca, do concreto, do vizinho, do vento — e, sobretudo, do outro brasiliense, que invariavelmente é pior do que ele.
Reparei, com aquela atenção meio ociosa das tardes de abril, que o morador desta cidade tem um passatempo predileto: reclamar dela. Reclama do calor, da distância, da grama seca, do concreto, do vizinho, do vento — e, sobretudo, do outro brasiliense, que invariavelmente é pior do que ele.
A cena se repete com a solenidade de uma liturgia. O sujeito sai de sua superquadra, estaciona o carro debaixo de uma árvore que o reveste de resina, entra no café do bloco comercial, pede um expresso duplo, olha pela vidraça e diz, como quem profere verdade universal: "Essa cidade não tem jeito." O atendente concorda, porque é brasiliense também.
Entra outro freguês, e a frase é repetida, como se cada vez se sentisse mais fundamente.
Da origem do queixume
Não é dificuldade nova. Desde que as primeiras famílias de candangos desembarcaram no Planalto Central, no fim dos anos 50, a reclamação já andava no cesto da mudança.
Queixavam-se do barro, da poeira, da saudade. É compreensível: quem arranca raiz sempre chora um pouco.
O que me espanta é que a reclamação tenha sobrevivido à raiz. Setenta anos depois, o neto do pioneiro, nascido sob o céu mais aberto do Brasil, continua a dizer que esta cidade não tem alma, enquanto recusa terminantemente mudar-se para qualquer outra que por acaso tivesse.
Há aqui, amigo leitor, uma contradição de matriz filosófica. O homem é um bicho que escolhe.
Se o sujeito detesta tanto este lugar, por que permanece? A resposta, quando vem, é sempre sinuosa: "É por causa do trabalho", "por causa dos filhos", "por causa do concurso", "porque minha mãe está aqui".
O motivo é sempre exógeno, nunca amoroso. Ninguém admite que ficou porque gostou.
Gostar, nesta cidade, parece ser pecado social.
Do amor envergonhado
Chamo a isso amor envergonhado. É aquele afeto que só se declara depois de três cervejas, e mesmo assim acompanhado de ressalvas.
"Eu adoro o pôr do sol do Pontão, mas o trânsito daqui é impossível." "Eu gosto do Parque da Cidade, mas as pessoas são frias." "Eu amo a vista do Mirante da Torre, mas essa cidade é só para rico." Observe que entre a afirmação e a negação há sempre um "mas" — partícula adversativa que no dicionário serve para opor ideias e em Brasília serve para pedir perdão por ter amado.
Comparem com o paulistano. Esse confessa sem ruborizar que a cidade é insalubre, caótica, ingrata, e ainda assim não troca por nada.
O carioca, mais extremado, ama o Rio com a mesma intensidade com que o xinga — mas o xingamento é parte do amor. Já o brasiliense desenvolveu um método particular: ama sem jamais dizer que ama, para que ninguém possa acusá-lo, no tribunal dos costumes, de ter sido enganado pela cidade planejada.
Da função social da queixa
Toda sociedade precisa de um rito de coesão. Os gregos tinham os mistérios de Elêusis, os romanos tinham o circo, os ingleses têm o chá das cinco.
O brasiliense tem a queixa. Dizer mal da cidade, para ele, é como cumprimentar no elevador: cumpre-se por convenção, sem esperar resposta profunda.
Aproxima estranhos, dissolve silêncios em filas, dá assunto a almoços sem pauta. É um cimento social barato, disponível vinte e quatro horas por dia, reciclável e infinitamente reutilizável.
E há um lucro simbólico embutido. Quem reclama da cidade se exime de pertencer ao rol daqueles que ela frustra.
Se o trânsito é terrível, o reclamante não é seu cúmplice; se o calor é insuportável, a culpa não é de quem continua ali morando; se a política local é o que é, o habitante se considera vítima, nunca coautor. A queixa é, no fundo, uma forma de inocência.
Permite conviver com o objeto do próprio incômodo sem parecer conivente.
Da autofagia propriamente dita
O mais curioso, porém, não é reclamar da cidade em abstrato. É reclamar do outro brasiliense — esse ser hipotético que sempre mora três quadras adiante, dirige pior, fala mais alto, gasta dinheiro que ainda não ganhou, tem menos cultura do que aparenta.
Tal criatura, interessantemente, nunca coincide com o próprio reclamante. Cada brasiliense, interrogado sob palavra, jura que os verdadeiros brasilienses — os cafonas, os arrogantes, os "filhinhos de servidor" — são os outros.
É fenômeno de autofagia, como diria um biólogo. A cidade, pequena em população e gigante em território, devora-se a si mesma através de seus habitantes, que projetam sobre o vizinho aquilo que temem reconhecer em si.
O resultado é um lugar que se crê insuportável por unanimidade individual, embora ninguém, quando somado, seja o responsável. Todos reclamam; ninguém é culpado.
É a perfeição democrática do ressentimento.
Da cura possível
Reitero, porém, que não há mal absoluto no queixume. A queixa é, em doses homeopáticas, um sinal de inteligência crítica — o contrário, a adulação do lugar em que se vive, costuma produzir bairrismo tolo e folclore de mau gosto.
O problema é a dose. Quando o morador gasta mais energia reclamando da cidade do que usufruindo dela, o remédio virou veneno.
Recomendaria, se fosse médico e não cronista ocioso, uma prescrição simples: contar, ao fim de cada dia, três coisas boas que a cidade ofereceu. Pode ser o céu das seis horas, a caminhada sem assalto, o preço do pão de queijo, o silêncio da madrugada na asa sul, a chuva inesperada de março.
Só três. Se, findo o inventário, o habitante ainda reclamar, que reclame — mas já não o fará em jejum.
Última advertência
Escrevo estas linhas sem a pretensão de reformar costumes tão arraigados. O ser humano, desde o éden, reclama do próprio paraíso.
A diferença é que no éden ele acabou sendo expulso, enquanto no Plano Piloto permanece instalado, pagando condomínio e protestando. O leitor há de perdoar-me, pois, se nada disso mudar o tom dos cafés de bloco comercial amanhã pela manhã.
Era apenas um reparo ocioso de quem já não vive em cidade nenhuma, e por isso mesmo tem o privilégio de gostar de todas.
Fica, ao menos, a suspeita: o brasiliense que tanto reclama de Brasília talvez esteja, sem confessar, justamente onde sempre quis estar. E isso, amigo leitor, é o mais brasiliense dos destinos — pertencer a um lugar sem jamais lhe conceder o gosto de saber.
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