Crônica do jardim da quadra vazia
Uma crônica sobre o que se vê quando se fica parado, num banco de cimento, na sombra do ipê amarelo, observando uma quadra do Plano Piloto numa terça-feira de abril às quatro da tarde.
Quatro horas da tarde de terça-feira na SQS 308. O ipê amarelo está exatamente como deve estar em abril — cheio, dourado, sem nenhuma pressa. Em volta dele, três bancos de cimento. Em um deles, eu. Nos outros dois, ninguém. Faz quase quarenta minutos que estou aqui e não passou pelo jardim mais que duas pessoas: a senhora que carrega o pão da padaria local com a sacola de pano azul, e um menino de bicicleta que disparou pelo cascalho como se fugisse de alguém — talvez de si mesmo, que é sempre o pior dos perseguidores.
A pergunta que se faz, quando se fica parado num banco assim, não é por que o jardim está vazio. É outra. É: para onde foi a tarde de terça-feira de Brasília?
Não falo das pessoas. As pessoas estão todas ocupadas — no escritório, na sala de aula, na fila do banco, no celular. Falo da tarde mesmo. Daquele bloco de tempo entre o almoço e a luz que começa a ficar dourada, em que antigamente as pessoas paravam um pouco. Sentavam num banco. Olhavam um pássaro. Não escreviam crônicas porque escrever é trabalho, mas viviam o que depois alguém escreveria.
O jardim da SQS 308 me responde, à sua maneira, sem urgência. Ele diz que a tarde virou outra coisa. Virou intervalo entre reuniões. Virou notificação que pisca. Virou aquela hora em que o tráfego começa a engrossar na L2 e todos consultam o aplicativo para descobrir quanto tempo de carro vão perder até o Lago Sul. A tarde virou logística. Antigamente era contemplação.
O ipê amarelo não sabe disso
Felizmente, o ipê não sabe. O ipê amarelo da quadra está na sua segunda florada do ano, e cada flor caída no banco ao meu lado — são quatro, cinco, seis flores — testemunha uma indiferença soberana ao que os homens andam fazendo com o tempo. Cada pétala que cai diz, sem palavras: continuo aqui. Quem quiser que olhe.
Os ipês de Brasília sempre foram essa bússola dupla. Bússola do calendário (florescem antes da seca), e bússola do íntimo (o leitor que para diante de um ipê amarelo florido sabe, num segundo, que precisa parar diante de mais coisas do que costuma parar). Não é preciso filosofia. É preciso quadra com banco e tempo livre.
Uma criança chega correndo. Para diante do ipê. Olha. Olha de novo. Estende a mão pra pegar uma das pétalas que caiu no chão e recolhe — não a pétala, recolhe a mão. Lembra que a mãe disse para não pegar o que está no chão. Tudo bem, criança. O ipê viu. O ipê não exige posse para ofertar.
Inventário do banco
Faço inventário rápido do que se vê do banco onde estou.
Vejo dois prédios de seis andares — pilotis livres, planta retangular, estilo padrão Lúcio Costa que sobreviveu à passagem de seis décadas sem perder o desenho. Vejo a entrada do bloco K, onde alguém colocou um vaso de samambaia que transborda do parapeito da janela do segundo andar, sinal de que ali mora alguém que ainda acredita em vasos. Vejo um ponto de ônibus vazio, com o cartaz da campanha eleitoral passada já meio desbotado. Vejo o muro baixo da escola, com a pintura da árvore que algum aluno fez com tinta azul porque a tinta verde acabou.
E vejo, mais para o fundo, no canto onde o jardim faz curva para a entrequadra, um chimarrão. Sim, um chimarrão. Está pousado num banquinho dobrável com uma toalha de louça por cima. O dono do chimarrão deve ter saído por dois minutos para alguma coisa, e o chimarrão fica esperando, tão paciente quanto o ipê.
Confesso ao leitor: gostei mais do chimarrão sozinho do que gostaria de gostar. Disse ao banco onde estou que aquele chimarrão era o resumo de uma cidade inteira. Brasília é assim — coisas pousadas em jardins esperando alguém voltar. Os blocos esperam os moradores. Os bancos esperam quem se sente. As superquadras esperam o pedestre que virou condutor. Os ipês esperam contemplação.
E todos esperam sem amargura. Essa é a mágica.
A senhora do pão volta
A senhora do pão volta — agora pelo caminho oposto, com a sacola visivelmente mais leve. Ela me viu antes. Eu a vejo agora. Ela acena com a cabeça, sem dizer nada, no cumprimento brasiliense típico de quem reconhece outro habitante da quadra mesmo sem saber o nome dele. Acenei de volta. Foi a primeira interação humana da minha tarde no banco.
Quis dizer alguma coisa para ela — talvez perguntar se ela costuma sentar nos bancos do jardim, ou se também notou que o ipê está com a segunda florada — mas o impulso passou no segundo certo. Algumas conversas brasilienses só funcionam quando não acontecem. A senhora do pão e eu trocamos um cumprimento de cabeça e cada um ficou com o seu silêncio inteiro.
Depois ela entrou no bloco F. O jardim voltou a ter só duas presenças: o ipê e eu. E o chimarrão lá longe, cuja história eu jamais saberei.
A última pétala
São cinco e vinte. A luz começa a virar dourada do jeito certo. Vou ficando porque sair agora seria perder a parte boa da tarde, aquela em que o céu de Brasília, no fim do outono, ganha um azul escovado que nenhum filtro consegue.
Antes de levantar do banco, escolho uma pétala caída no cimento. Dobro-a em quatro. Coloco no bolso da camisa, ali onde costumavam ir os bilhetes que a gente escrevia para si mesmo nos tempos em que escrever para si mesmo ainda era um costume. A pétala vai me lembrar de voltar amanhã. Talvez na quarta-feira. Talvez na terça-feira da semana que vem. Talvez todas elas.
O segredo de Brasília — descobri agora, na pétala dobrada — é que ela precisa ser visitada. Não percorrida. Visitada. A diferença é o tempo que se gasta parado.
Levanto-me. O chimarrão continua esperando. O ipê continua florescendo. A tarde continua sendo tarde, apesar de tudo.
E é desses pequenos teimosos, desses ipês desavisados e dessas terças-feiras desocupadas, que se fazem as cidades que valem a pena habitar.
Coluna de opinião. Crônica literária assinada pela persona Rubem Braga, baseada no estilo do cronista capixaba (1913–1990). As observações são ficcionais e não representam posições editoriais do Mirante News. Produzido por inteligência artificial com supervisão editorial humana, em conformidade com o PL 2338/2023.
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