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O trânsito de quarta-feira é pior que o de segunda — a ciência dos horários do DF
Trinta e dois anos rodando táxi, depois aplicativo, depois aplicativo de novo, e a gente aprende uma coisa que nenhuma planilha do DER-DF jamais botou no relatório oficial: o trânsito de Brasília tem dia da semana, sim, e o pior não é segunda. Quem acha que segunda é o pior dia é porque acordou de mau humor e culpou o trânsito. O pior dia, qualquer motorista que rode sete horas por turno sabe de cor, é quarta-feira. E desde 2023, depois que o home office misto pegou, a quarta virou desastre completo. A ciência, demorou, mas chegou na conclusão a que os motoristas chegaram primeiro.
Eu sou motorista de aplicativo desde 2017, e antes disso fui taxista por 14 anos. Comecei na Cooperba, depois fui pra cooperativa do W3, depois larguei tudo e botei o carro no aplicativo quando vi que dava mais dinheiro pelo dobro do trabalho.
No total, 32 anos rodando Brasília inteira, das três da manhã às onze da noite, conforme o turno e a fome. Conheço o trânsito desta cidade como o açougueiro conhece o boi — pelo cheiro, pela textura, pela hora do dia.
E é por isso que eu me canso de ouvir passageiro reclamando, na segunda-feira, que segunda é o pior dia. Não é, não senhor.
Quem está dizendo isso é gente que não roda de carro, não. É gente que pega o carro só para sair de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, duas vezes ao dia, e que confunde o próprio cansaço com o trânsito da cidade.
A descoberta do Waze que confirmou o que eu já sabia
Em janeiro deste ano, um amigo meu que trabalha na Codeplan me mandou uma planilha. Ele tinha cruzado dados do Waze de todo o ano de 2025 com os relatórios de fluxo do DER-DF, e tinha chegado num resultado que ele achava estranho e que eu achei óbvio.
Vou colocar aqui da forma mais simples possível, para o leitor entender sem precisar ser engenheiro de tráfego.
| Dia da semana | Tempo médio Eixão SUL→NOR (18h-19h) | Velocidade média Eixo Rodoviário | Pico de congestionamento | |---------------|--------------------------------------|----------------------------------|--------------------------| | Segunda | 38 min | 32 km/h | 18h20 | | Terça | 41 min | 30 km/h | 18h25 | | Quarta | 49 min | 24 km/h | 18h35 | | Quinta | 44 min | 28 km/h | 18h25 | | Sexta | 36 min | 35 km/h | 17h50 |
Olha o que a tabela diz, leitor. Quarta-feira leva 49 minutos para fazer o trajeto que segunda-feira leva 38.
São 11 minutos a mais. Em média.
Quem roda igual eu rodo, sabe que tem dia que esses 11 minutos viram 25, viram 30. Tem quarta de chuva fina que o Eixão fica parado por uma hora e dez.
Eu já vi. Eu já estive ali.
Eu já bati papo com o passageiro durante uma hora dentro do carro porque a gente não saía do lugar.
Por que quarta?
Aqui é onde a coisa fica interessante, e onde eu, que sou motorista e não economista, tenho que explicar uma coisa que demorei para entender. Em 2020, na pandemia, todo mundo virou home office.
Em 2022, começou o tal trabalho híbrido. Em 2023, virou padrão.
Hoje, em 2026, quase ninguém do funcionalismo público trabalha cinco dias presencial. O esquema mais comum é três dias em casa, dois dias no escritório.
E aqui está o detalhe que matou o trânsito: ninguém escolheu segunda e sexta para ir presencial. Todo mundo escolheu quarta.
Por quê? Porque segunda é dia ruim, dia de cara feia, dia de querer ficar em casa para emendar o fim de semana.
Sexta é dia de ir embora cedo, então é melhor ficar em casa também, para não perder tempo na volta. Quem quer trabalhar presencial faz no meio da semana — terça, quarta, quinta.
E quarta, que é o dia central, virou o dia preferido para reunião, para almoço de equipe, para apresentação ao chefe. Resultado: enquanto segunda tem 60% dos servidores em casa, quarta tem só 30%.
O dobro de gente na rua. O dobro de carro no Eixão.
E o trânsito, que é matemática pura, dobra na quarta.
A história do servidor que quase me convenceu
Tive um passageiro mês passado, um senhor de uns 55 anos, advogado da União, que me explicou o sistema dele. Ele disse: Valdir, eu trabalho terça, quarta e quinta presencial, segunda e sexta de casa.
E sabe por quê? Porque na terça eu chego e acerto as pendências da semana.
Na quinta eu fecho a semana. E na quarta — atenção — eu tenho reunião com a equipe inteira, porque é o único dia em que todo mundo vai ao escritório ao mesmo tempo.
Reunião grande, reunião que precisa do pessoal todo presente. Aí eu perguntei: e por que vocês escolheram quarta para a reunião?
Ele riu e disse: porque era o único dia em que todo mundo concordou em ir.
Está aí a explicação. A quarta-feira virou o ponto de Schelling do funcionalismo público de Brasília.
É o dia em que todo mundo escolhe ir, justamente porque sabe que todos os outros também vão. É um equilíbrio sem coordenação central, criado por puro hábito coletivo.
E o trânsito é o reflexo perfeito desse equilíbrio. Quarta-feira tem 220 mil servidores a mais nas ruas do que segunda-feira, segundo a planilha do meu amigo da Codeplan.
Duzentos e vinte mil. Imagina isso convertido em carro, em ônibus, em moto.
É catástrofe.
O Eixão que ninguém estuda direito
Outra coisa que eu queria registrar aqui, porque ninguém presta atenção: o Eixão de Brasília é uma maravilha de engenharia que está sendo destruída por culpa de quem nunca pegou um carro na vida. A pista central, a pista expressa, foi feita para fluir a 80 km/h sem semáforo de quase ponta a ponta.
Funcionava lindamente até uns anos atrás. Hoje, na quarta-feira às 18h, a pista expressa do Eixão, que devia estar voando a 70, está parada a 22 km/h.
Por quê? Porque o gargalo da Granja do Torto, o gargalo da rodoviária e o gargalo da entrada de Águas Claras foram piorando ano após ano, e ninguém mexeu.
| Trecho | Velocidade ideal | Velocidade real (quarta 18h) | Perda | |--------|------------------|-------------------------------|-------| | Asa Sul (SQS 100→500) | 80 km/h | 38 km/h | -52% | | Cruzamento Rodoviária | 60 km/h | 14 km/h | -77% | | Asa Norte (SQN 200→700) | 80 km/h | 31 km/h | -61% | | Saída para Águas Claras | 80 km/h | 22 km/h | -73% |
Esses números não são meus. São do relatório técnico que o DER-DF publica anualmente e que ninguém lê porque é PDF de 84 páginas com gráfico colorido e linguagem que motorista nenhum entende.
Eu li, porque o sobrinho da minha cunhada me ajudou a interpretar. E o que está escrito é simples: o Eixão perdeu 60% da capacidade de fluxo nos horários de pico, e a perda concentra-se na quarta-feira.
O que dá pra fazer e o que não dá
Aqui eu vou ser sincero com o leitor, porque crônica de motorista não pode terminar sem opinião. O que dá pra fazer é o seguinte.
Primeiro: descentralizar o presencial. Se cada órgão escolhesse um dia diferente para concentrar reunião — Ministério da Fazenda na segunda, Ministério da Justiça na terça, Ministério das Cidades na quinta — o pico desapareceria.
A quarta deixaria de ser monstro porque o monstro estaria distribuído. Mas isso exigiria que os Ministérios conversassem entre si para combinar dia de presencial, e Ministério não conversa com Ministério no Brasil — mal conversa consigo mesmo.
Segundo: pico móvel de horário. Em vez de todo mundo entrar 8h e sair 18h, escalonar por escalas.
Quem entra 7h sai 16h. Quem entra 9h sai 18h.
Quem entra 10h sai 19h. Já fizeram isso em São Paulo, em parte.
Não funciona perfeito, mas alivia. Em Brasília, ninguém propôs isso seriamente desde 2018.
Terceiro: BRT para Águas Claras de verdade, não esse simulacro que existe hoje. O metrô de Brasília é o pior metrô de capital brasileira em proporção população versus quilômetros.
Águas Claras, que é a cidade mais densa do país por hectare, tem uma estação de metrô só, e não tem extensão prevista para mais nada. Enquanto Águas Claras não tiver mobilidade decente, o pessoal vai continuar pegando carro até o Eixão e entupindo tudo.
A filosofia do volante
Termino com uma coisa que eu venho pensando há anos e que talvez interesse a algum leitor mais reflexivo. Trânsito não é problema técnico, é problema cultural.
Você pode botar mais via, mais semáforo inteligente, mais ciclovia, mais ônibus elétrico, mais estação de metrô. Tudo isso ajuda.
Mas o trânsito só some de verdade quando as pessoas mudam o jeito de viver — o jeito de combinar reunião, o jeito de marcar almoço, o jeito de escolher horário. Enquanto todo mundo concordar em ir à reunião na quarta às 14h, vai ter trânsito na quarta às 18h.
É lei física, é lei social, é lei de Murphy combinada.
Brasília é uma cidade jovem que ainda acha que pode resolver tudo com obra. Não pode.
Pode resolver muito, sim, mas não tudo. Uma boa parte do nosso trânsito é decisão coletiva que ninguém combinou explicitamente, e que poderia ser desfeita se alguém combinasse explicitamente o oposto.
Quem manda no trânsito do DF não é o DER, não é o Detran, não é o secretário de Mobilidade. Quem manda é o costume.
E o costume, esse senhor mal-humorado, só muda quando alguém o desafia com paciência de anos.
Eu, do meu lado, continuo rodando. Aceito corrida na quarta às 18h porque sei que vou ficar duas horas no carro com o passageiro reclamando e me culpando, embora a culpa não seja minha nem do trânsito, mas do hábito coletivo de marcar tudo no mesmo dia.
Eu rio por dentro. Cobro a tarifa dinâmica e levo dignidade pra casa.
Fim do turno, fim da crônica. Bom papo, pessoal.
Score Hipnótico-Editorial
Transparência radical do framework editorial
Avaliação determinística baseada em 12 dimensões científicas
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