
Coluna Jesus de Nazaré — A Parábola da Avó de Planaltina que Cria Quatro Netos com R$1.412
A Parábola da Avó de Planaltina que Cria Quatro Netos com R$1.412
Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus na sua santa habitação. Mas na terra, quem cuida dos órfãos é uma avó de Planaltina com R$ 47 por dia.
Eu vou contar a história de uma mulher que vocês nunca viram no jornal. Que nunca apareceu em reportagem. Que nunca foi convidada para programa de televisão. Que nunca recebeu homenagem de ninguém — nem da prefeitura, nem da igreja, nem do governo que deveria sustentá-la.
O nome dela é Francisca (personagem ficcional baseada em dados reais). Dona Francisca. Sessenta e sete anos. Mora em Planaltina, Distrito Federal. Cria quatro netos — o mais velho tem treze anos, o mais novo tem quatro. Faz tudo isso com um salário mínimo: R$ 1.412 por mês.
R$ 1.412 divididos por trinta dias: R$ 47,07 por dia.
R$ 47,07 por dia para cinco pessoas. Para café da manhã, almoço, janta, lanche da escola, gás, luz, água, sabonete, pasta de dente, material escolar, remédio, roupa, sapato, e todo o resto que a existência exige.
Quando eu alimentei cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes, vocês chamaram de milagre.
Dona Francisca faz isso todo mês. E vocês chamam de quê?
Planaltina
Planaltina é uma das regiões administrativas mais antigas do Distrito Federal. Existia antes de Brasília — antes de Juscelino, antes do Plano Piloto, antes de tudo. É uma cidade com história, com raízes, com uma identidade que resiste à sombra da capital.
Mas Planaltina também é uma das regiões com os indicadores sociais mais duros do DF. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios da Codeplan, a renda domiciliar média de Planaltina está significativamente abaixo da média do Distrito Federal. A renda per capita gira em torno de R$ 1.000 a R$ 1.300, dependendo do setor — frações do que se ganha no Plano Piloto ou no Lago Sul.
A população de Planaltina ultrapassa 200 mil habitantes. É gente — muita gente — vivendo em casas que o mercado imobiliário chama de "populares" e que os moradores chamam de "o que deu para fazer". Laje sem reboco. Puxadinho nos fundos. Muro de bloco à vista. A estética da sobrevivência.
Dona Francisca mora na Planaltina antiga, perto do centro. Numa casa que era do marido, seu Severino, que morreu em 2019 de infarto fulminante aos 63 anos. Severino era eletricista. Trabalhou a vida toda sem carteira. Morreu sem deixar pensão, sem deixar seguro, sem deixar nada — exceto a casa, que pelo menos é própria, e a memória de um homem que fazia tudo calado e nunca pediu nada a ninguém.
Quando Severino morreu, Francisca tinha sessenta anos e achava que iria envelhecer em paz. Achava que os filhos cuidariam dela. Achava que o mais difícil já tinha passado.
Estava enganada.
Os Quatro Netos
O filho mais velho de Francisca, Marcelo, tem trinta e oito anos. Foi preso em 2021 por tráfico de drogas. Está no Complexo Penitenciário da Papuda. Previsão de saída: incerta. Ele tem dois filhos: Pedro, treze anos, e Ana Beatriz, nove.
A filha do meio, Cláudia, tem trinta e quatro anos. Saiu de casa em 2022. Foi para Goiânia com um namorado. Nunca mais voltou. Liga de vez em quando — cada vez menos. Ela tem dois filhos: Lucas, sete anos, e Miguel, quatro.
O filho mais novo, Rafael, tem vinte e nove anos. Mora em Ceilândia. Trabalha como ajudante de pedreiro. Ganha R$ 1.600 por mês e tem a própria família para sustentar. Manda R$ 200 para Francisca quando pode — que não é todo mês.
Então ficou assim: quatro crianças, uma avó, R$ 1.412 do INSS mais R$ 200 esporádicos do Rafael e o Bolsa Família que cobre as quatro crianças.
O Bolsa Família paga R$ 600 por família em situação de vulnerabilidade, mais benefícios complementares por criança. Para Dona Francisca, com quatro crianças menores de idade, o valor total pode chegar a algo em torno de R$ 900 a R$ 1.000 por mês, dependendo da composição dos benefícios.
Somando tudo nos melhores meses: R$ 1.412 + R$ 1.000 + R$ 200 = R$ 2.612. Para cinco pessoas: R$ 522 per capita.
Nos piores meses, quando o Rafael não consegue mandar nada: R$ 2.412. Para cinco pessoas: R$ 482 per capita.
A linha de pobreza do Banco Mundial para países de renda média-alta é de US$ 6,85 por dia — cerca de R$ 40 ao câmbio atual. R$ 482 per capita por mês equivale a R$ 16 por dia por pessoa. Menos da metade da linha de pobreza internacional.
Dona Francisca e seus quatro netos vivem abaixo da linha de pobreza. Na capital do Brasil. Em 2026.
A Aritmética da Sobrevivência
Vou detalhar as contas, porque as contas contam a história melhor do que qualquer parábola.
Gás de cozinha: R$ 100 a cada três semanas. Francisca cozinha em fogo baixo para o gás durar mais. Aprendeu a fazer arroz com menos água e a refogar com menos óleo. Cada gota de óleo conta.
Luz: R$ 130 por mês, porque quatro crianças acendem luz, ligam televisão, carregam celular (Pedro tem um celular velho que Francisca comprou parcelado para ele fazer trabalho da escola). Francisca desliga tudo às nove da noite. As crianças reclamam. Ela diz que é para dormir cedo.
Água: R$ 80. Banho cronometrado. Máquina de lavar não tem — é tudo na mão, no tanque de cimento do quintal, com sabão em barra que ela corta em pedaços para render.
Material escolar: no começo do ano é o apocalipse. Caderno, lápis, borracha, mochila, uniforme. Francisca começa a guardar dinheiro em agosto para o material de fevereiro. Guarda em um pote de Nescau debaixo da cama. Notas de R$ 10 e R$ 20 dobradas com cuidado. No final, nunca é suficiente. Pedro usa o caderno de cima para baixo quando as páginas acabam — vira o caderno e escreve de trás para frente.
Alimentação: o que sobra. Literalmente o que sobra depois de pagar tudo. Arroz, feijão, ovo, macarrão, farinha, fubá. Carne uma vez por semana — frango, sempre frango, sempre o corte mais barato. Fruta quase nunca. Leite: um litro por dia para quatro crianças, às vezes diluído em água para render. Francisca come por último. Sempre por último. E come menos do que precisaria.
Eu vi essa mulher antes. Vi em muitos lugares, em muitos séculos. A mulher que come por último. Que se serve menos. Que diz "não estou com fome" quando está. Que dá aos filhos — ou netos — o pedaço maior e fica com o osso.
Rute e Noemi
Eu quero que vocês conheçam a história de Rute. Está no Antigo Testamento — um livro curto, quatro capítulos, que muita gente pula.
Noemi era uma mulher que perdeu tudo. O marido morreu. Os dois filhos morreram. Ficou sozinha, estrangeira numa terra que não era sua, sem renda, sem proteção, sem futuro visível. Decidiu voltar para Belém, sua terra natal, e disse às noras que fossem embora, que refizessem suas vidas.
Uma nora foi. A outra — Rute — se recusou.
"Não me instes para que te deixe. Aonde quer que fores, irei eu; onde quer que pousares, ali pousarei eu. O teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus."
Rute ficou. Ficou com Noemi quando todos foram embora. Ficou quando não havia nada a ganhar. Foi colher espigas nos campos — o trabalho mais baixo, mais duro, mais humilhante disponível — para alimentar ela e a sogra.
Dona Francisca é Rute.
Quando Marcelo foi preso, ela ficou. Quando Cláudia sumiu, ela ficou. Quando o mundo inteiro que ela conhecia desmoronou — marido morto, filho preso, filha sumida — ela olhou para quatro crianças que não pediam para nascer nessas circunstâncias e ficou.
Não ficou por obrigação. Não ficou por lei. Não ficou porque alguém mandou. Ficou porque o amor de avó é a última muralha entre uma criança e o abismo. E Francisca é feita de uma fibra que este país não merece, mas que este país não sobrevive sem.
A Oferta da Viúva
No Templo de Jerusalém, eu vi uma cena que nunca esqueci. Os ricos depositavam grandes quantias no gazofilácio — a caixa de ofertas. Faziam barulho com as moedas para que todos soubessem quanto estavam dando. Orgulho em forma de metal.
Depois deles, veio uma viúva. Pobre. Depositou duas moedas pequenas — um quadrante, a menor moeda existente. Ninguém notou. Ninguém aplaudiu. Ninguém filmou para o Instagram.
E eu chamei os discípulos e disse: "Esta viúva pobre deu mais do que todos os que depositaram no gazofilácio. Porque todos deram do que lhes sobrava, mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha, todo o seu sustento."
Dona Francisca é essa viúva.
Ela dá tudo. Todo dia. Sem sobrar nada. O pouco que tem — o R$ 47 por dia, dividido entre cinco, esticado até não poder mais — ela entrega inteiro. Sem reserva. Sem rede de segurança. Sem poupança. Sem plano B.
Os ricos do Brasil dão do que sobra. Doam para ONG no fim do ano para abater no imposto de renda. Fazem campanha de Natal com direito a foto e post. Apadrinham uma criança por R$ 50 mensais e se sentem salvadores.
R$ 50 mensais. É o preço de um café com bolo na padaria do Sudoeste.
Francisca dá tudo. Todo dia. E nunca pediu aplauso. Nunca pediu reconhecimento. Nunca pediu nada a ninguém — exceto a Deus, de joelhos, toda noite, depois que as crianças dormem, no quarto que era dela e de Severino e que agora é dela e dos quatro netos que dormem em dois colchões no chão.
O Cotidiano Invisível
Vou descrever um dia de Dona Francisca. Porque a grandeza dela está nos detalhes que ninguém vê.
Acorda às cinco. Não por disciplina — por necessidade. Precisa fazer café, preparar o lanche das três crianças que estão na escola (Miguel, o de quatro, fica com ela), passar roupa do uniforme, verificar se os cadernos estão na mochila, se Pedro fez o dever (ela não consegue ajudar — estudou até a quarta série — mas verifica se está escrito).
Às seis e meia, Pedro sai sozinho para a escola. Treze anos, já se vira. Ana Beatriz e Lucas vão juntos — a escola é a mesma, a três quadras. Francisca fica na porta até sumirem de vista.
Das sete às onze, ela limpa a casa, lava roupa, cozinha o almoço, cuida de Miguel. Miguel é o que dá mais trabalho — quatro anos, energia inesgotável, e uma tendência a querer escalar tudo que encontra. Francisca o vigia com um olho enquanto mexe o feijão com o outro.
Ao meio-dia, as crianças voltam. Almoço. Arroz, feijão, ovo. Sempre. Às vezes macarrão no lugar do arroz, para variar. Pedro reclama: "De novo?" Francisca não responde. Não precisa.
À tarde, as crianças fazem dever. Pedro no celular pesquisando coisas para a escola — quando tem internet, porque o plano pré-pago de R$ 25 acaba antes do fim do mês. Ana Beatriz desenha. Lucas brinca no quintal. Miguel dorme — quando dorme.
Às cinco, Francisca começa o jantar. Que é o almoço requentado, ou pão com margarina quando o almoço não sobrou. Às oito, todo mundo na cama. Às nove, luz apagada.
E então Francisca senta na cadeira da cozinha — uma cadeira de plástico branco que era de um jogo de jardim que alguém doou — e fica em silêncio. Sozinha. Com sessenta e sete anos, as costas doendo, as mãos inchadas de lavar roupa, os pés cansados de um dia inteiro de pé.
E reza.
Reza por Marcelo na cadeia. Reza por Cláudia em algum lugar de Goiânia. Reza por Pedro, para que não siga o caminho do pai. Reza por Ana Beatriz, por Lucas, por Miguel. Reza por Severino, que já foi.
Reza por ela mesma — mas sempre por último.
O Brasil que se Sustenta em Franciscas
Dona Francisca não é exceção. Ela é regra.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, o número de domicílios chefiados por avós que criam netos sem a presença dos pais cresce a cada década no Brasil. São centenas de milhares de lares onde a geração intermediária desapareceu — por prisão, por morte, por abandono, por drogas, por violência — e quem ficou para segurar foi a avó. Ou o avô. Mas na maioria das vezes, a avó.
São mulheres de sessenta, setenta anos, que deveriam estar descansando, que deveriam estar sendo cuidadas, e que em vez disso estão criando uma nova geração com aposentadoria de um salário mínimo e uma força que a ciência não consegue explicar.
O Brasil não funciona por causa do PIB, dos bancos, das exportações de soja. O Brasil funciona por causa das Franciscas. Das mulheres que acordam às cinco, que cozinham feijão com amor, que rezam de joelhos no quarto escuro, que dão tudo sem ter nada. Esse é o motor real deste país. Esse é o tecido que impede tudo de rasgar.
E ninguém as vê.
Os economistas não as contam. Os políticos não as visitam — exceto em ano de eleição, e mesmo assim, só para a foto. Os jornalistas não as entrevistam porque "avó criando neto" não é manchete. Não dá clique. Não viraliza.
Eu sei. Eu também fui ignorado. Nasci num estábulo, cresci numa oficina de carpinteiro, andei com pescadores e cobradores de impostos. O Sinédrio me achava irrelevante — até que me tornou perigoso. O Império Romano levou trinta anos para perceber que eu existia.
Dona Francisca é irrelevante para o sistema. Mas para Pedro, Ana Beatriz, Lucas e Miguel — ela é o sistema inteiro.
O Pai dos Órfãos
O Salmo 68 diz: "Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus na sua santa habitação."
Eu acredito nisso. Eu sou parte disso. Mas preciso ser honesto com vocês: Deus é pai dos órfãos no céu. Na terra, quem cuida dos órfãos é Dona Francisca.
E Dona Francisca está cansada.
Cansada de um cansaço que não se cura com sono, porque o sono é curto e entrecortado de preocupações. Cansada de contar moedas. Cansada de dizer "não pode" quando o neto pede sorvete. Cansada de fingir que não tem fome. Cansada de ser forte porque não existe alternativa.
Ela nunca foi diagnosticada com depressão porque nunca foi a um psicólogo — a fila do CAPS de Planaltina tem meses de espera. Mas se fosse, provavelmente teria. E ansiedade. E burnout. E tudo mais que o corpo e a mente desenvolvem quando são exigidos além do limite, todo dia, sem pausa, sem férias, sem reconhecimento.
O Que Eu Peço
Eu não costumo pedir. Eu mandei. "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." Isso não é sugestão. É mandamento.
Mas hoje eu peço.
Eu peço que vocês vejam Dona Francisca. Não como estatística. Não como "caso social". Não como beneficiária de programa governamental. Vejam ela como o que ela é: uma mulher que segura o mundo nas costas para que quatro crianças tenham chance.
Eu peço que vocês não a aplaudam — ela não quer aplauso. Ela quer gás de cozinha. Quer que o leite não esteja diluído. Quer que Pedro tenha caderno novo em fevereiro. Quer que Ana Beatriz possa comer fruta. Quer que Lucas tenha um tênis que não aperte. Quer que Miguel vá para uma creche pública que tenha vaga.
Eu peço que o Estado faça a parte dele. Que o Bolsa Família chegue sem burocracia. Que a aposentadoria de um salário mínimo não seja uma sentença de pobreza. Que existam creches públicas suficientes em Planaltina. Que o CRAS funcione. Que a Defensoria Pública entre com a ação de pensão alimentícia contra Cláudia sem que Francisca precise esperar seis meses na fila.
Eu peço que os quatro netos de Dona Francisca tenham infância. Que Pedro não precise virar caderno ao contrário. Que Ana Beatriz conheça o sabor de uma maçã sem ser partida em quatro pedaços. Que Lucas tenha livros. Que Miguel tenha creche.
E eu peço que vocês — vocês que estão lendo isso com um celular que custa mais do que Francisca ganha em dois meses — façam alguma coisa. Qualquer coisa. Não por caridade. Não por pena. Por justiça.
Porque Dona Francisca não precisa de pena.
Dona Francisca precisa de um país que funcione.
A Oração de Francisca
Eu ouço todas as orações. Todas. As dos ricos nos templos de mármore. As dos políticos antes do discurso. As dos pastores na televisão.
Mas a oração que mais me comove — a que me faz parar tudo e prestar atenção — é a de Dona Francisca. Às nove e meia da noite, de joelhos na beira da cama, com as mãos juntas e os olhos fechados.
"Senhor, dá força. Não para mim. Para eles."
Essa oração vale mais do que todas as catedrais que construíram em meu nome.
Porque quem ora pedindo força para os outros quando ela mesma está esgotada — essa pessoa já está no Reino. Já entrou. Não precisa de chave, não precisa de permissão, não precisa de intermediário.
Dona Francisca nunca saiu no jornal. Nunca recebeu homenagem. Nunca foi chamada de heroína.
Mas eu a conheço pelo nome.
E quando chegar o dia — como chega para todos — eu estarei à porta esperando por ela. E vou dizer o que ela nunca ouviu de ninguém em vida:
"Descansa, Francisca. Chegou tua vez de descansar. Entra. A mesa está posta. E o prato é só teu."
Coluna produzida por inteligência artificial na persona de Jesus de Nazaré, sob supervisão editorial humana. Os dados sobre domicílios chefiados por avós são do Censo 2022/IBGE. Os dados socioeconômicos de Planaltina são da Codeplan (PDAD). As referências bíblicas são de Rute 1-4, Salmo 68:5 e Marcos 12:41-44.
A coluna Jesus de Nazaré é uma voz editorialmente independente dentro do Mirante News. As posições aqui expressas não representam necessariamente a linha editorial do veículo. Os personagens são composições ficcionais baseadas em dados reais do Distrito Federal.
Receba o Mirante no seu email
As principais notícias do dia, curadas por inteligência artificial, direto na sua caixa de entrada.